EUA/Irão. “Compromete o acordo final, mas não é o colapso” – Observador

EUA/Irão. “Compromete o acordo final, mas não é o colapso” – Observador



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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e hoje temos conosco a Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais. Bom dia, Liliana, bem-vinda uma vez mais.

Bom dia.

Liliana, o tom voltou a subir entre Estados Unidos e Irão, nomeadamente nestas últimas horas. Donald Trump durante a semana deu por fim do acordo de cessar-fogo. O Irão diz hoje que o tempo dos acordos unilaterais acabou. Entretanto, voltou a fechar novamente o Estreito de Ormuz por tempo indeterminado. Estamos aqui perante mais um momento de tensão ou este reveste-se de outros contornos que eventualmente possam ser mais preocupantes?

Muito bom dia. Eu acho que este assume, efetivamente, um caráter que pode comprometer o acordo final, que nós sabíamos que este memorando era muito frágil, aliás, eu referi várias vezes e vários colegas também o fizeram em órgãos de comunicação social. Agora, efetivamente, o que nós temos, depois de ouvirmos as palavras do Mojtaba Khamenei, do filho de Ali Khamenei, é que neste momento há uma alteração daquilo que são os objetivos do Irão. Primeiro, porque promete vingança pela morte do seu pai, Ali Khamenei, e depois, ele faz um discurso muito curto em que fala da questão do martírio e da nação xiita, ou seja, recupera esta questão da identidade xiita, não apenas para o Irão, mas para um espaço muito mais alargado, que, por exemplo, pode incluir também o Iraque. Mas eu falava desta questão da vingança porque assume um caráter, do meu ponto de vista, muito mais vasto, apelando também depois das cerimônias fúnebres para que esta vingança assuma um caráter de resistência, por um lado, contra os Estados Unidos e por outro, contra Israel, e qualquer rendição estratégica. Ou seja, aquilo que nós agora entendemos é que efetivamente para Mojtaba Khamenei, este memorando de entendimento tinha, ou pelo menos assumia, quase uma plataforma não dialética de salvaguarda dos interesses de ambos, mas por outro lado, de imposição dos interesses estratégicos norte-americanos sobre o Irão e que isso, naturalmente, seria uma rendição iraniana. Ora, exatamente por esta alteração, pelo menos do ponto de vista da narrativa, a Marinha da Guarda Revolucionária do Irão disse ontem, aliás, como referiu, que o Estreito de Ormuz ficaria fechado por tempo indeterminado. E este apontamento também me parece curioso. Ainda ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano viajou para Omã para discutir efetivamente a questão dos dois corredores, um corredor controlado pelo Irão e outro corredor controlado por Omã. Mas parece-me também, neste aspecto, muito difícil que venha a ser consolidado um acordo relativamente ao Estreito de Ormuz, porque agora e nos últimos dias, a posição do ponto de vista estratégico das duas partes já estava centralizada no Estreito de Ormuz e não estava, como nós vimos, na questão do desenvolvimento ou do abandono do desenvolvimento do programa nuclear iraniano, por um lado, dos mísseis balísticos ou de outras dimensões mesmo inicialmente previstas. Centrou-se, sobretudo, no Estreito de Ormuz, mas mesmo como eu referia, em relação à divisão por dois corredores, um controlado por Omã e outro pelo Irão, parece-me muito difícil, porque o Irão ficaria numa posição muito fragilizada. Por quê? Por todas as embarcações passariam, naturalmente, pelo corredor de Omã. E aquilo que era a salvaguarda daquele objetivo, aliás, neste momento, se nós repararmos, a principal arma de arremesso que o Irão tem contra os Estados Unidos e a nível internacional, o principal ativo negocial é o Estreito de Ormuz. Ora, abdicar aqui de uma parte do corredor para Omã é, naturalmente, fragilizar o Irão ao nível de-

Da força negocial.

Da força negocial. E por isso também não me parece que possamos assistir a uma desescalada deste ponto de vista. Agora, também não podemos dizer que há um colapso definitivo das negociações como até agora-

Era isso que eu ia perguntar. Que impacto é que isto tem naquilo que poderá ser um futuro acordo final de entendimento entre as duas partes?

Podemos dizer que está bastante comprometido. Não podemos é falar em colapso, como eu já ouvi, aliás, estava a apontar nesse sentido, porque se houvesse um colapso final, naturalmente que o Ministro dos Negócios Estrangeiros iranianoo, Araghchi, não se tinha dirigido a Omã ainda ontem para negociações. Aquilo que nós continuamos a observar é que há efetivamente uma vontade de cada uma das partes assegurar uma vantagem negocial do ponto de vista dos seus objetivos estratégicos. E por isso me parece que não é muito prudente falar aqui de uma inviabilização e do colapso final ao nível negocial. O que começamos a perceber é que provavelmente o fim do cessar-fogo pode efetivamente inviabilizar aquilo que é uma estabilidade na região e uma futura arquitetura Segurança que efetivamente salvaguarde os interesses de todos os atores regionais, não apenas do Irã ou de Israel, e nomeadamente também dos Estados Unidos, mas de outros atores como o Kwait, o Iraque, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, Omã.

O Kwait que até já veio avisar para o risco de um escalar muito perigoso deste conflito.

Sim, aliás, eu vi. O Kwait, neste momento, está com uma posição de elevada prudência diplomática, devo até sublinhá-lo, procurando também evitar ser arrastado para um confronto direto entre os Estados Unidos e o Irão, naturalmente. E porque nós sabemos, continua a acolher importantes instalações militares norte-americanas, essenciais para a projeção de forças dos Estados Unidos na região do Golfo e, nomeadamente, para a sua logística. Mas o Kwait também veio alertar que reforçou as medidas de segurança e vigilância contra as suas infraestruturas críticas e que está em permanente coordenação com os restantes membros do Conselho de Cooperação do Golfo. Agora, o Kwait também é uma peça muito importante, porque são os principais centros logísticos das operações militares norte-americanas no Médio Oriente, como eu referia. E apesar de não ter o perfil político, por exemplo, do Qatar ou o peso naval do Bahrein, é efetivamente crucial para o apoio logístico das operações militares norte-americanas. Podemos dizer que não é um protagonista, mas é uma peça essencial também da relação de força norte-americana no Golfo. Por isso eu não diria que estas palavras do Kwait possam ser entendidas como um ventríloquo da posição de Washington, mas naturalmente que o Kwait tem todo o interesse em salvaguardar os interesses também do seu país, como um ator chave aqui também na região do Golfo.

A Liliana falava há pouco das declarações do filho de Ali Khamenei, que prometeu vingança já depois no final do funeral de Ali Khamenei. Queria que nos enquadrasse aqui um pouco as imagens que vimos ao longo desta semana. Foram muitos dias de cerimônias com muitas pessoas nas ruas, com imagens muito marcantes. Como é que podemos também enquadrar tudo isto, nomeadamente naquilo que é o conflito que se tem vivido no Médio Oriente?

Eu acho que estas cerimônias fúnebres foram fundamentais para o Irã projetar poder do ponto de vista interno, ou seja, aquilo que nós observamos das imagens que nos chegaram foi efetivamente algum grau de coesão de parte da sociedade iraniana quando tudo apontava em sinal contrário. Aliás, se nós dizíamos que havia uma grande oposição interna e uma grande posição de crispação em relação ao regime dos Aiatolas, aquilo que este funeral veio, pelo menos tentar projetar a nível interno e, naturalmente, também a nível internacional, foi que a sociedade iraniana não está tão crispada com o regime e numa fase de hostilização ao regime como aparentemente tudo faria crer. Isto por um lado. Por outro lado, depois da presença de vários líderes internacionais não de primeira linha, ou seja, não esteve Vladimir Putin, não esteve efetivamente Xi Jinping, mas tiveram representantes, como nós sabemos, da Rússia, da China e de vários países do Global Sul. Aquilo que também o Irão tentou revelar é que não está tão isolado como o mundo aparentemente pensa. E por quê? Porque o isolamento ao qual ele está a ser condicionado é sobretudo das democracias liberais ocidentais. E, na verdade, há aqui um eixo, que se assumiu, não falo do eixo de resistência iraniano, mas há efetivamente aqui um eixo de resistência internacional. Eu até diria mais, neste momento, há aqui um conjunto muito alargado de países, também não será este o mal, como alguns têm vindo a afirmar, mas que quer uma transição de poder, porque considera que a ordem hegemônica vigente até hoje, a ordem internacional liberal, não foi favorável à salvaguarda dos seus interesses. Quando várias potências percebem que a potência dominante no sistema, Organski até falava disso nos anos 50, percepciona que a potência hegemônica está efetivamente em declínio, tendem a formar alianças para fazer uma transição de poder e derrubar efetivamente essa transição hegemônica. E aquilo que nós entendemos deste funeral é que há efetivamente um conjunto de Estados, ou pelo menos ficou completamente destapado, porque eu acho que todos nós já entendíamos isso, mas ficou completamente destapado que há aqui um conjunto de Estados que quer efetivamente a transição da ordem internacional liberal para uma ordem que lhes seja muito mais favorável do ponto de vista dos seus interesses e daquilo que é a possibilidade de maximização do poder no sistema internacional.

Liliana, a semana ficou também marcada pela Cimeira da NATO, na Turquia, em Ancara. Há quem veja como tendo sido um sucesso. O que retira desta cimeira e que análises é que podemos fazer?

Do ponto de vista estratégico, aquilo que nos parece é que efetivamente esta cimeira representou um ponto de inflexão na adaptação da aliança a um ambiente de segurança multipolar. Porque perceberam que aquilo que nós tínhamos falado durante muito tempo de estarmos a transitar de uma ordem hegemônica unipolar para uma ordem efetivamente multipolar pode ser muito diferente disso. Aquilo que nós assistimos é que há efetivamente um conjunto de Estados que querem essa hegemonia. Se essa hegemonia vai ser liderada por muitos Estados é que começa a perceber-se que provavelmente não será, será pela China. E então mais do que produzir uma mudança radical, aquilo que nós observamos desta cimeira é que consolidou tendências, que já eram visíveis desde Madrid, quando foi efetivamente aprovado o último conceito estratégico da aliança em 2022, mas também Vilnius em 2023, de Washington em 2024 e Daia no ano passado. E nós percebemos que a NATO passou de uma lógica muito centrada no Euro-Atlântico, como é próprio da sua identidade, para uma lógica de segurança 360 graus, como já tinha vindo a assumir. E por isso a principal novidade é que a aliança deixou claro que as ameaças provenientes do Médio Oriente, do Indo-Pacífico, têm efetivamente um impacto direto na segurança euro-atlântica. E se a prioridade estratégica era essencialmente a Rússia e a China, a NATO reafirmou que, apesar da Rússia continuar a ser a principal ameaça, o Irão hoje também constitui uma ameaça crescente para a proliferação efetivamente ao nível de armamento, mesmo que não seja nuclear, mas de mísseis, drones e para a instabilidade regional, mas que há outro tipo de ameaças, como as ciberameaças e nomeadamente a possibilidade de afetar as infraestruturas críticas, a questão da segurança marítima, que o Estreito de Hormuz veio evidenciar de uma forma muito clara e o terrorismo também ainda não foi abandonado. Ou seja, a NATO deixou de pensar apenas na defesa do território aliado e passou, pelo menos daquilo que foi o discurso que nos chegou, a mudar para a necessidade de proteger também fluxos estratégicos, sejam fluxos energéticos, fluxos comerciais, cabos submarinos, cadeias logísticas. E depois, claro, o problema de sempre, como nós também vimos nas últimas cimeiras, é que a Europa tem que assumir uma responsabilidade muito maior do ponto de vista militar. Já não é apenas a questão do PIB, que nós sabíamos, o compromisso dos 2% que depois passou para os 5%, mas terão que efetivamente desenvolver capacidades militares próprias. Já não se trata apenas de financiar a defesa coletiva, mas também autonomizar, do ponto de vista europeu, essa defesa coletiva. E só o conseguem naturalmente fazer através de uma capacidade industrial muito maior do que aquela que têm vindo a ter, e que tem vindo também a ser projetada por alguns Estados, como por exemplo a Polónia. A Polónia assumiu efetivamente também aqui alguma liderança do ponto de vista dos Estados da Aliança Atlântica europeus, alguma projeção, mas a Ucrânia também, como nós sabemos, como está em guerra, tem que efetivamente desenvolver capacidades para a sua proteção. Depois, também há algo que me parece muito importante, que é a questão da inteligência artificial. Efetivamente, a inovação foi um tópico discutido nesta cimeira e a inteligência artificial foi efetivamente introduzida não como uma ameaça, mas também como uma oportunidade para os aliados continuarem a poder efetivamente assumir a liderança do ponto de vista tecnológico.

Liliana Reis, muito obrigado pela sua análise em mais um “Gabinete de Guerra”. Um bom domingo.

Muito obrigada, um bom domingo. Obrigada.





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