Escrever para desconstruir masculinidades disfuncionais – CartaCapital

Sou um homem de cinquenta anos que cresceu sem chorar na frente dos outros. Homem não chora. Que se desenvolveu em um teto onde pouco ou nada se conjugava o verbo amar. Algumas palavras simplesmente não eram ditas.
Poderia ter me tornado uma pessoa violenta, isso, acho, contornei. Existe, além de tudo, uma explosividade desmedida que faz parte do meu DNA branco, europeu, frustrado, mal-educado e perdedor.
Tenho em mim, em cada vinco, em cada pelo que se torna grisalho, um traço reconhecível de masculinidade disfuncionalizada. Repreendido e frágil, injusto e explorador, estupidamente viril. É tudo o que fui, jovem. Adulto. O que não quero ser.
Escrever me salva, é um remédio doce que permite liberar, aflorar, compreender. Mergulho e tenho a sensação de voltar melhorado.
Em meu livro de estreia, Os Pêndulos, existe o Miro que faz o que entende ser correto, seguindo o coração, e destrói muito do que há em volta. Ele é um violador. O Miro sou eu, é gente com quem convivi e convivo. A mais pura ficção e uma realidade absoluta. A construção/desconstrução dessa toxicidade.
O exercício de escrever, que é profissão, vale para mim, não para todos. Há o hábito de ler, este mais amplo, que também pode ser salvador.
Existe outro ainda, que considero muito útil: olhar-se no espelho em busca das trincas. Mirar o fundo dos olhos, o que está atrás dos brilhos, além de qualquer verniz. Encare este homem, não o da superfície. Se houver alguma vontade de chorar, chore, é o início de um bom caminho.
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