Panamá estraga festa da Bósnia e sonha em fazer o mesmo na Copa
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- O Panamá, cuja independência da Colômbia foi garantida pelos EUA para viabilizar o Canal, ainda sente inferioridade por não ter decidido seu futuro.
- Após a conclusão do Canal, os EUA instalaram bases militares e a School of the Americas, que treinou oficiais latino‑americanos em contrainsurgência.
- O Panamá pretende ser o “estraga festa” de outras nações na Copa de 2026, como fez com a Bósnia em amistoso.
Um estraga festa ronda a Copa de 2026.
Os campinhos de terra ou areia estão por toda parte. Nos barrios da Cidade do Panamá, na zona rural, nas praias. O futebol cresceu silenciosamente no país, competindo com o beisebol e o boxe.
O Panamá sofre de um profundo sentimento de inferioridade por nem sempre ter decidido seu próprio futuro. A independência do Panamá, que integrava a Colômbia, foi promovida com apoio dos Estados Unidos, que estavam de olho na construção do canal.
Washington pretendia reduzir em 13 mil quilômetros a distância entre as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos, entre os portos de Baltimore e Los Angeles. Antes, os navios estadunidenses tinham de contornar o sul da África. Hoje, 40% de todo o tráfego de contêineres dos EUA passam pelo canal.
Foi por isso que, depois de concluir a construção do canal, projetada pela França, os Estados Unidos assumiram o controle da chamada zona do Canal, uma faixa de 8 quilômetros de terra que tinha como capital Balboa.
Omar Torrijos, líder histórico. Wikipedia
Semi-colônia
Os EUA instalaram bases militares e a e United States Army School of the Americas (SOA), a Escola das Américas, onde famosamente treinaram oficiais de toda a América Latina em contrainsurgência e tortura. Ela funcionou de 1946 a 1984, em plena Guerra Fria contra a União Soviética.
Foi a partir do Panamá que os EUA conseguiram reprimir forças nacionalistas em toda a região, a sangue, fogo e dólares.
Criada em 1903, a zona do Canal — um país dentro do país, que cortou o Panamá em dois — existiu oficialmente até 1979.
Foi o que gerou o nacionalismo que levou ao poder o militar Omar Torrijos, que presidiu o Panamá de 1968 a 1981.
Em 31 de julho de 1981, o avião da Força Aérea Panamenha em que Torrijos viajava caiu. Até hoje boa parte dos panamenhos acredita que ele foi alvo de um atentado.
Torrijos havia finalizado com o presidente Jimmy Carter, dos EUA, o acordo para reassumir a soberania do Panamá em 31 de dezembro de 1999. O líder panamenho tinha apenas 52 anos de idade e não viveu para ver o resultado de sua grande conquista.
O herdeiro dele como homem forte do Panamá foi o também general Manuel Noriega, que manejou o poder entre 1983 e 1989, quando foi derrubado por uma invasão militar dos EUA. A primeira medida do sucessor de Noriega no poder foi extinguir as Forças de Defesa do Panamá, origem dos nacionalistas.
A classificação para a Copa da Rússia gerou feriado nacional. Foto FIFA
Futebol como expressão política
O futebol, no Panamá, acabou se tornando expressão popular de afirmação nacional.
O dia 10 de outubro de 2017 é visto como uma data histórica. Depois de derrotar de virada a Costa Rica por 2 a 1, o Panamá se classificou para a Copa da Rússia.
Finalmente, a seleção nacional saia das sombras dos vizinhos centro-americanos.
A façanha foi repetida em 2025, mas com requintes de crueldade. Depois de fechar a primeira fase em primeiro em seu grupo, o Panamá foi disputar a vaga com as potências regionais.
Arrancou uma vitória de 3 a 2 sobre a Guatemala no campo do adversário e derrotou El Salvador em casa, por 3 a 0.
Apesar do tropeço contra o Brasil em amistoso recente no Maracanã, por 6 a 2, a seleção do Panamá derrotou depois a República Dominicana em casa, por 4 a 2, e empatou com a Bósnia Herzegovina por 1 a 1, em Saint Louis, Missouri, no sábado 6 de junho.
Na Copa da Rússia, o Panamá foi eliminado com três derrotas, mas celebrou o gol marcado contra a Inglaterra (foi 6 a 1). Desta vez, no entanto, o técnico dinamarquês Thomas Christiansen promete mais. O grupo é fortíssimo, com Gana, Croácia e — mais uma vez — a Inglaterra.
O empate que “estragou” a festa da Bósnia em Saint Louis — lá mora a maior comunidade bósnia dos Estados Unidos — foi celebrado pelo técnico. O estádio lotou, com 23 mil pessoas. O Panamá saiu atrás e empatou.
Promotor de jovens talentos, Christiansen levou atletas não oficialmente convocados para acompanhar o grupo na Copa de 2026. Dentre eles Kadir, que joga no Botafogo do Rio de Janeiro.
