A mais espetacular partida de futebol de todos os tempos

A mais espetacular partida de futebol de todos os tempos



É inevitável. A semifinal entre Argentina e Inglaterra, na quarta-feira, às 16 horas, remete ao mais mitológico – digamos assim – jogo de todas as Copas, de ecos infindáveis, o drama perfeito conduzido por Diego Armando Maradona. Coube ao escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) a mais precisa definição do que aprontou Maradona em 22 de junho de 1986, um domingo de sol no Estádio Azteca, do México, na vitória de 2 x 1 dos argentinos contra os ingleses “Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. O primeiro aconteceu aos 6 minutos do segundo tempo, o infame gol de mão, com “La mano de Diós”, milongueiro, enganador, abusado.  O segundo, aos 12 minutos, fabuloso, preciso, mágico, depois de driblar seis jogadores ingleses, como se fosse uma vingança pelo conflito das Malvinas-Falklands, no mais espetacular gol de todos os mundiais, uma obra-prima inesquecível. Maradona foi tão inacreditável, tão inesperado, que em um átimo de tempo, resumiu toda uma trajetória de vida – o abuso e a perfeição. Cabe, na narrativa daquele início de segundo tempo que pavimentaria o caminho para o título, depois de passar pela Bélgica na semifinal e vencer a Alemanha na finalíssima, inverter a ordem dos fatores. Conta-se primeiro o que veio depois, a fileira de ingleses indo ao chão, um a um, seis deles.

As fotografias ajudam, evidentemente, a entender o que Maradona fez naqueles segundos que se estendem até hoje infinitamente – mas as imagens em movimento, ao menos nesse caso, são insuperáveis. Sorte a nossa ter o YouTube à disposição. Uma experiência é procurar pelo golaço ao som de Por Uma Cabeza, o tango de Alfredo le Pera cantado por Gardel – e suba a primeira mão, que não precisa ser divina, quem não se emocionar.  Ele percorreu 55 metros e deu 11 toques na bola, sempre com a perna esquerda. Atravessou o campo em sete segundos, a uma velocidade média de 29 quilômetros por hora – um velocista de atletismo, sem bola, é claro, chega a 35 quilômetros por hora. Ok, pode soar um tanto técnico em demasia esmiuçar assim algo tão intuitivo, e não foi por isso que Buenos Aires parou e depois foi às ruas naquela jornada de quase 40 anos atrás. Quem ditou o humor das ruas, colado a Maradona, foi o narrador Victor Hugo Morales, de uma das emissoras de televisão de maior audiência. Lê-lo não e como ouvi-lo, mas longe não fica. Foi assim: “Pega Maradona, marcado por dois. Pisa na bola Maradona, arranca pela direita o gênio do futebol mundial e deixa para trás o terceiro e vai tocar para Burruchaga… segue com a bola Maradona. Gênio! Gênio! Gênio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta… e  Goooooooool! Gooooooooool! Quero chorar… Santo Deus, viva o futebol… Golaaaaaaaçooooo! Diegol. Maradona. É para chorar, me perdoem. Maradona, em uma corrida memorável, na maior jogada de todos os tempos… pipa cósmica, de que planeta você veio,  para deixar pelo caminho tantos ingleses, para que o país seja um punho cerrado gritando pela Argentina? Argentina 2, Inglaterra 0. Diego! Diego! Diego Armando Maradona… Obrigado, Deus pelo futebol, por Maradona, por essas lágrimas”. No original, em castelhano, o locutor usou a expressão “barrilete” para se referir a pipa, aquele que foi se imiscuindo entre os adversários, linda, leve e solta. Era muito possivelmente uma provocação a um artigo do treinador César Luiz Menotti justificando porque cortara o jovem Diego da Copa de 1978, em casa, e impediu que ele, aos 17 anos, fosse um campeão do mundo tão jovem quanto Pelé. Barrilete, no sentido figurado, serve também para descrever quem ainda está cru, frágil.

Aquele Maradona, o da arrancada espetacular, cósmica, foi apenas um deles – convém não esquecer, eram dois. O lance significou quase uma resposta a quem ouso desconfiar do que ele fizera antes, o tento maldito, diabólico. Que ele usou a mão, não há dúvida alguma. Pouco se lembra, contudo, a capacidade de um jogador de apenas 1,65 metros subir mais que o goleiro Peter Shilton, de 1,83. Shilton, aliás, nunca perdoou a contrafação. Ouvido por um jornal inglês depois da morte do craque, em 2020, o goleiro não poderia ser mais claro. “O que eu não gosto é que ele nunca se desculpou”, disse. “Em nenhum momento ele disse que havia trapaceado e que gostaria de se desculpar. Em vez disso, ele usou sua frase de ‘a mão de Deus’ e aquilo não foi certo. Parece que ele tinha grandeza, mas infelizmente não tinha espírito esportivo”.

De fato, Maradona nunca se desculpou, mas algum espírito esportivo demonstrou. Um pouco antes da Copa da Rússia, em 2018, a primeira na qual seria usado o VAR, ele foi entrevistado a respeito da tecnologia. Admitiu, rindo (ele sempre ria), que o recurso de vídeo anularia o gol da mão de Deus. E convenhamos, até nisso Maradona foi mais malandro, chegou antes da hora, correu mais do que todo mundo: tratou de pôr a mão na pelota antes do VAR. Direto ao ponto: com o VAR, metade da parábola contra a Inglaterra, metade daquela contradição indelével, se apagaria. Ainda bem que houve Dr. Jekyll e Mr. Hyde, porque Maradona era assim, e assim ele ergueu aos céus, como uma escultura greco-romana, a taça de campeão do mundo de uma Copa para sempre marcada por aqueles cinco minutos de ficção, cronometrados pelo lado obscuro, la noche del diez, mas também pelo claríssimo, el día del diez. 



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