Irã, Rússia e Brasil: As atuais frentes do império ocidental contra o BRICS
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O império ocidental, representado pelo G7 e liderado pelos EUA, está, neste momento, empenhado em um esforço concentrado em três frentes de batalha para defender seu poder hegemônico, ameaçado especialmente pelas articulações do Sul Global, liderado pela China. Impedir a consolidação de um mundo multipolar, bem como garantir que nenhum país periférico ou semiperiférico possa avançar e ultrapassar os países centrais em desenvolvimento tecnoindustrial, é o objetivo central.
Para isso, estão dispostos a tudo, inclusive à guerra! Enquanto a guerra da OTAN/Ucrânia contra a Rússia entra em seu quinto ano, a guerra dos EUA contra o Irã já completou um ano, se considerarmos que tudo começou a partir das agressões contra os persas, em junho de 2025, com a Guerra dos 12 Dias.
Embora a tática contra o Brasil não tenha envolvido, até agora, agressões militares, a guerra comercial, com as tarifas, e a interferência política na soberania do país, por meio de uma parceria explícita com o clã Bolsonaro, têm sido a principal elaboração tática de Washington para deslocar o governo Lula do poder. Tudo ficou mais explícito após a recente prisão de Fernando Cerimedo, na Bolívia, por tentativa de feminicídio. Sua ex-namorada sobreviveu e, da cama de um hospital, está denunciando todos os esquemas de Cerimedo e suas relações com as forças de extrema direita em processos eleitorais em todo o continente latino-americano. Inclusive, sua participação na tentativa de golpe de Estado no Brasil, após o resultado da eleição de 2022, que deu a vitória a Lula contra Bolsonaro. Vale lembrar que Fernando Cerimedo está formalmente indiciado pela Polícia Federal brasileira em inquérito sobre essa tentativa de golpe de Estado, envolvendo milícias digitais e atos de violência, cujo relator no STF é o ministro Alexandre de Moraes.
Dessas três frentes, a que apresenta mais possibilidades de sucesso, a curto prazo, para as ambições do imperialismo estadunidense é o triunfo na América Latina, particularmente no Brasil. A eleição presidencial em curso está atravessada pelos interesses de Trump. Fique atento à leitura até o final, pois vamos voltar a esse tema.
A frente contra a Rússia
Os fatos estão mostrando que, em cinco anos de guerra, a Rússia domina aproximadamente 20% do território ucraniano — Crimeia, Luhansk, Donetsk, Zaporíjia e Kherson — e que, apesar das pesadas sanções e das baixas em seu complexo petroquímico, causadas por ataques ucranianos, a economia russa tem demonstrado uma resiliência maior que a de várias potências europeias. Essas potências estão com suas indústrias em crise por não conseguirem produzir manufaturas competitivas em razão da energia inflacionada, desde que bloquearam o petróleo e o gás russos.
O recente anúncio da Volkswagen sobre o fechamento de fábricas na Alemanha e milhares de demissões em massa é um exemplo concreto dessa situação. A indústria automotiva europeia não consegue mais competir com os carros elétricos chineses, que, por sua vez, estão começando a adquirir marcas tradicionais na Europa, como a Volvo, já controlada pela chinesa Geely. Negociações de alto nível já se iniciaram para que a chinesa BYD assuma fábricas da Stellantis na Itália, na França e na Alemanha. A Espanha está se consolidando como o maior polo de recepção da indústria automotiva chinesa na Europa, com a Chery assumindo a Nissan em Barcelona, e a Sinotruk, fabricante chinesa de caminhões, está fechando acordos para iniciar a fabricação em solo austríaco.
Muitas fontes midiáticas e analistas militares estão relatando que a Rússia passou a intensificar sua agressividade militar contra a Ucrânia nos últimos meses, representando uma nova fase da guerra, na qual os russos estão atacando alvos estratégicos dos ucranianos, como armazéns de munição, frotas de caminhões, galpões de mercados, postos de combustível e infraestrutura energética. Tudo com o objetivo de impedir novos ataques ucranianos e colapsar o abastecimento básico, pressionando o apoio que a OTAN está fornecendo para manter a Ucrânia na guerra.
Além disso, a corrida armamentista de países como Alemanha, Reino Unido, França e Itália para se defenderem de uma suposta ampliação do conflito no leste europeu está elevando a dívida desses países a uma situação gravíssima e, obviamente, comprometendo os investimentos sociais em programas que atendem à população. Todos esses elementos permitem que façamos uma avaliação sóbria de que o colapso econômico da Rússia, a queda de Putin e a derrota na guerra são hipóteses muito improváveis a curto e médio prazo.
A frente contra o Irã
A guerra, iniciada formalmente por Trump em fevereiro deste ano com o objetivo de derrubar o regime iraniano em poucos dias, é, sem dúvida nenhuma, uma imensa derrota para os EUA até agora, ameaçando, inclusive, o desempenho dos republicanos na eleição de meio de mandato, que ocorrerá em novembro deste ano. Após meses de guerra, tudo indica que os democratas passarão a ter maioria no Congresso americano, pois, até agora, Trump só conquistou inflação, recordes de endividamento e o aumento da desconfiança global em relação ao sistema do petrodólar.
A maior expressão da perda de credibilidade das Forças Armadas americanas na região é a nova aliança militar entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, recém-formada com o objetivo de garantir a segurança entre países islâmicos preocupados com os desdobramentos da guerra e com o papel que Israel cumpre na instabilidade e na ameaça aos povos árabes e islâmicos.
No final de agosto, os EUA anunciaram uma nova estratégia de pressão econômica sobre o Irã, com a operação intitulada “Pária Econômica”, com o objetivo de forçar o Irã a uma nova mesa de negociação, já que os estoques de mísseis americanos estão em níveis críticos e as retaliações das Forças Armadas iranianas estão causando prejuízos insustentáveis aos EUA e a seus aliados na região.
Mas a resiliência iraniana e sua capacidade de resposta militar estão aprofundando a crise na cúpula do Pentágono. No dia 31 de agosto, o secretário do Exército dos EUA, Dan Driscoll, pediu demissão formal do cargo por diferenças insustentáveis com o atual secretário de Guerra, Pete Hegseth, que tem promovido uma política de perseguição e demissão de generais que apresentam qualquer questionamento aos absurdos que os EUA estão promovendo no Estreito de Ormuz.
A frente contra o Brasil
A eleição presidencial no Brasil está inserida em uma estranha dinâmica do continente latino-americano, na qual a esquerda e os setores progressistas perderam todas as disputas ocorridas no intervalo de 2025 a 2026 para aliados de Trump. Esse fato já preocupa e ameaça a possibilidade de Lula conseguir um quarto mandato. Uma vitória do clã Bolsonaro, aliado de primeira ordem do governo Trump, será considerada um triunfo completo na América do Sul.
Precisamos destacar que os EUA têm muitos interesses em um país como o Brasil, que é a maior economia da América Latina e possui abundantes recursos naturais, como a segunda maior reserva de terras raras do mundo e a recente descoberta de petróleo na Margem Equatorial. Sem falar que o Brasil é o único país latino-americano fundador do BRICS e mantém uma parceria estratégica abrangente com a China, algo que incomoda profundamente a Casa Branca.
A crise que está abalando o STF, com denúncias e acusações entre juízes da própria Corte, bem como o envolvimento de parte do espectro político brasileiro com o caso do Banco Master, pode representar um momento de fragilidade da República brasileira, no qual os EUA podem agir cirurgicamente para interferir na eleição em favor das candidaturas de seu interesse. Muitos cálculos estão sendo feitos, neste momento, entre a embaixada americana, o secretário de Estado Marco Rubio e o clã Bolsonaro sobre quais peças irão mover para conseguir alguma vantagem eleitoral.
No dia 7 de setembro, uma manifestação política está sendo convocada para a Avenida Paulista, com as palavras de ordem “Fora Lula” e “Fora Moraes”. O objetivo da campanha de Flávio Bolsonaro é colar a imagem de Lula à figura do ministro do STF Alexandre de Moraes, alvo de denúncias pesadas relacionadas a Daniel Vorcaro.
Caso uma força-tarefa entre a extrema direita, parte do STF, as big techs, a embaixada americana e a grande mídia brasileira entre em campo, ela terá potencial para criar um clima no país capaz de atingir e provocar uma erosão na campanha de Lula. Estamos diante de um momento crítico do processo eleitoral brasileiro, atravessado pelos interesses do imperialismo americano em capturar o Brasil para fortalecer seus planos de defesa do poder global, recolonizando a América Latina.
* Gibran Jordão é Historiador, analista de geopolítica e mestrando do IH-UFRJ.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.
