A grande vencedora no atual caos geopolítico? – Observador

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o Jorge Rodrigues, que é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, Jorge. Obrigado por se juntar a nós mais uma vez. Jorge, começando pelo Médio Oriente e pelas declarações que foram surgindo, tanto dos Estados Unidos como do Irão, apesar de não haver um timing para assinar um acordo, parece que será desta vez que será possível alcançar um entendimento entre as duas partes.
Boa tarde, Luís. Parece-me que ambos querem e precisam, estão nesse ponto, o que não parece que tenha sido alcançado já o equilíbrio estratégico necessário para este tipo de situações. O memorando ainda não foi totalmente confirmado pelas duas partes. Mesmo do lado norte-americano há algumas reticências, mas principalmente do lado iraniano, temos tido a habitual posição bipartida, uma mais coerente e outra mais conservadora. Mas, em boa verdade, é a primeira vez que há uma perspetiva de compromisso sem linhas vermelhas ou ameaças efetivas. Isso se consideramos que aquele post com a bomba de Donald Trump não é propriamente uma ameaça efetiva, mas sim velada. Mas vamos deixar bem claro que o memorando de entendimento não é um acordo. Isto é um modelo Trump, é um modelo que Trump agora trouxe para as relações internacionais, em que é um memorando genérico, em que considera talvez um, dois pontos mais relevantes e o resto logo se vê, logo se dará atenção. No caso de Gaza, o logo se vê já vai em sete meses e pelo que me parece continuará por mais algum tempo. Portanto, não se vislumbra propriamente objetivos políticos ou um end state que nos possa assegurar que realmente vamos ter sucesso. Uma coisa é boa e isso é definitivo, é melhor haver este tipo de negociações e haver algum tipo de acordo que permita inclusivamente manter a situação de cessar-fogo, do que obviamente continuar os combates. Essa opção é sempre uma modalidade que está em cima da mesa, mas que todos menos queremos.
O certo é que o Irão já vai admitindo que há um acordo em vários tópicos em discussão. Os Estados Unidos também vão, pelo menos pela voz de Mark Rubio, dando a entender que há aqui alguns pontos de entendimento, apesar de, como dizia o Jorge, ainda não serem conhecidos os detalhes e o que vai estar na base desse entendimento. Aquilo que te queria perguntar, Jorge, é se já é possível perceber quem ganha e quem perde, alcançando-se um acordo nesta altura.
Não conhecemos ainda todos os detalhes, naturalmente, mas com o que é conhecido, aliás, eu até vou admitir antes, se calhar perdem todos. É uma questão de ver quem é que perde menos, em boa verdade, porque este conflito naturalmente não permite vitórias. O Irão tem uma vitória moral, não há dúvida nenhuma, considerando as perspetivas no início da Operação Fúria Épica, nitidamente conseguiu não capitular, o que a administração Trump nem sequer considerava como uma hipótese, apesar de ter sido alertada para isso por várias entidades militares e de segurança. O Irão demonstrou uma incrível resistência, não há dúvida nenhuma. Conseguiu marcar a agenda negocial concentrando a questão no Estreito de Hormuz, utilizou a soberania do Estreito de Hormuz quase como uma arma nuclear, mas a verdade é que sofreu muito. Sofreu muito e vai demorar imenso a recuperar. Perdeu lideranças, perdeu capacidades, perdeu a rede de proxies. Repare que o Hezbollah, por exemplo, era um autêntico exército, era uma lança apontada a Israel e agora as capacidades são limitadas e portanto irá demorar muito. Nunca poderemos dizer que ganha definitivamente, mas obviamente tem aqui uma vitória moral. Os Estados Unidos perdem. Perdem porque, apesar do incrível sucesso militar, os objetivos militares principais foram atingidos, os reais, não os que foram apresentados, porque não podíamos considerar que bancas com armamento atual não são para a profundidade que existem. É praticamente impossível. Portanto, aqui o objetivo que estava definido, os objetivos que eram identificáveis, esses sim, foram alcançados com grande sucesso. Só que depois os objetivos políticos estão muito longe de serem alcançados. Apesar de haver dúvidas quais seriam efetivamente esses objetivos, a verdade é que Trump não conseguiu uma situação melhor do que a anterior e está com grandes dificuldades em conseguir apresentar algo que seja melhor do que o que tinha antes do conflito. Há aqui um grande esforço de comunicação interno, é o tal post que há pouco falávamos da bomba com as inscrições, agradeço a atenção prestada a este assunto. É uma ameaça velada, mas é de certo modo para consumo interno, para demonstrar que está numa posição de força. Não é mais do que isso, porque o Irão já demonstrou não ser aí nessa petra toque que reage. Israel perde por este momento, não pode explorar o sucesso, preferiria o caos, tem mais sucesso no caos da região e precisava de mais tempo para resolver questões nas ditas sete frentes de guerra, incluindo na Cisjordânia. Portanto, não é propriamente o melhor momento, precisava de um pouco mais de liberdade de ação. Os restantes atores da regiãoGanham e perdem. Estão em reposicionamento estratégico, estão a realinhar alianças, o caos era mau, não há dúvida, mas ter o Irão com capacidades e com hemorragia também não é necessariamente extraordinário. Quem ganhará aqui definitivamente é o Paquistão. Se o acordo avançar, demonstra ser um mediador capaz, com alguma influência. Essa influência também é um pouco derivada de ser um proxy, se me permite a expressão exagerada, da China neste conflito, ganha influência na região e ganha pontos na competição pela liderança do mundo muçulmano, que por vezes é esquecida. A China por si, perdeu bastante e já estamos a falar num plano global, mas terá ganho mais. Sai deste conflito com a imagem do adulto na sala e consegue ser definitivamente reconhecida a nível global como a potência do meio. Aliás, as visitas quase semanais comprovam isso mesmo. Portanto, entre ganhos e perdas, podemos dizer que a China terá sido o grande ganhador, acabando o conflito neste momento. Naturalmente, que inclusivamente viu o seu adversário de competição global estar distraído, entre aspas, com o conflito no Oriente Médio, e portanto não se poder concentrar no território da Ásia-Pacífico, que deve ser sim essa a prioridade.
Jorge, daquilo que se tem sabido, a questão do nuclear não está neste momento a ser discutida, de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, esses detalhes das matérias nucleares só vão ser discutidos depois, no prazo de 60 dias, depois da assinatura de um memorando de entendimento para terminar a guerra. Aquilo que eu queria perguntar é se a questão do nuclear vai ser a mais difícil de resolver e se isto pode ser também um fator que possa atrasar ainda mais o alcançar ou não de um acordo entre as duas partes.
Sim, acho que é muito bem levantada a questão, porque é mesmo aí que está o problema, a questão nuclear ser derivada para que 60 dias é mesmo um ganho de tempo por parte de Donald Trump, no sentido de conseguir rapidamente qualquer coisa que possa apresentar como uma grande vitória. O fator nuclear é o mais determinante por várias dimensões. Uma primeiro, logo à partida, foi justificação desta guerra de escolha. Foi por este motivo que Donald Trump considerou que poderia estar sob ameaça e, portanto, poderia ter este tipo de ação inicial sem ser como resposta. Portanto, justificou em vários planos a dita guerra, o dito conflito. Depois há a dimensão securitária, porque é uma verdade, é justificável no sentido prático, que um ator como o Irão ter armamento nuclear é complexo a nível global, mas é particularmente complexo para Israel, como uma ameaça existencial que se constitui. Só que do lado do Irão, e tendo em conta outras envolventes passadas em vários momentos, o Irão identifica isto como realmente uma garantia de segurança muito específica, sem a qual fica bastante desprotegido. No caso concreto, definitivamente vai alongar o tema, vai tentar dividir em subtemas, vai tentar dividir novamente em pormenores, vai negociar tempo por concessões e vai andar um pouco nisto, de certo modo, para conseguir prolongar o mais possível, se conseguir, até ao período das eleições e depois com uma nova administração ou com uma administração com outro tipo de características, poderá eventualmente ter outro tipo de sucesso. Naturalmente que aqui há vários pontos que podem colocar em causa, para além deste do nuclear, outras questões e as posições conhecidas são de alguma forma ainda muito maximalistas e afastadas. A guerra comunicacional não ajuda, naturalmente. Talvez nesse aspeto seja uma nova era em que o comunicacional e que os posts acabam por ter tanto impacto quase como as operações no terreno. Teremos outros temas complexos, mas o nuclear será sempre, mais a questão dos mísseis balísticos, dos proxies, do conseguir controlar Israel, virão trazer naturalmente outros pontos, outras questões de debate que não serão fáceis de negociar num espaço de 60 dias, porque tem vários atores envolvidos, tem várias questões envolvidas, tem várias ameaças existenciais, segundo a perspetiva dos próprios envolvidos, e naturalmente que por estas ameaças são objetivos primários e por objetivos primários, objetivos essenciais, acaba-se por lutar pela morte, segundo as designações de doutrina estratégica, e portanto, de alguma forma não estarão disponíveis para abdicar dessas linhas vermelhas que obviamente não querem ver ultrapassadas.
E de resto há também a questão da confiança na palavra de parte a parte. Que garantias podem dar os Estados Unidos de que a administração Trump cumprirá os termos de um acordo que seja, de um entendimento que seja alcançado?
A palavra de Donald Trump neste momento não está propriamente nos níveis mais elevados. É uma das limitações negociais da administração Trump, é uma consequência indireta da técnica negocial da sua administração, conduzida mais por elementos com experiência imobiliária do que propriamente da carreira diplomática, e portanto, há uma perda de credibilidade evidente. Isso não lhe permite passar uma carta de garantias de segurança que seja aceite, o compromisso próprio não é necessariamente reconhecido. Portanto, vai precisar ser alicerçada no envolvimento de terceiros. Alguns aspetos podem ser garantidos por eles próprios, há outros que terão que nitidamente ser com o envolvimento de terceiros. O que falta aqui necessariamente é um regulador internacional para este momento. Nós não temos as Nações Unidas, o Conselho de Segurança, foram muito orientados para isso no momento em que foram constituídos, mas a verdade é que não representam a atual distribuição do poder e, portanto, não são reconhecidos como tal a nível global. O moderador em causa, o Paquistão, também não tem essa capacidade, portanto será necessário pedir quase que uma supervisão da China e da Rússia. Eu penso que poderá passar um pouco por aí, eventualmente, um envolvimento de vários países da região e eventualmente globais nesse conselho de supervisão.
Para garantir que o entendimento é cumprido, no fundo.
Exato. Mas seja como for, aqui mais um ponto ou outro que será importante reconhecer, manter uma capacidade defensiva de mísseis balísticos e outras capacidades, eu julgo que será um ponto importante para o Irão. As garantias contra novas ofensivas israelitas também será muito relevante. A redução da pressão militar americana na região, ou seja, traduz pela retirada tropas da região, também elaE, eventualmente, o reconhecimento do seu direito a alguma atividade nuclear civil, ou seja, que de alguma forma não fez completamente o processo e que lhe permita, no espaço que o Irão considera relativamente seguro, poder vir a desenvolver no futuro outro tipo de capacidades. Eu penso que passará um pouco por aqui o tipo de garantias que podem ser consideradas.
Jorge Rodrigues, nestes três minutinhos que nos restam, queria ainda falar um pouco consigo sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, porque este fim de semana houve um ataque em que foi usado um míssil com capacidade nuclear nos ataques noturnos da Rússia contra a Ucrânia, sendo que hoje há instantes um aviso da Rússia às estrangeiras para saírem de Kiev devido a novos ataques. Jorge, que míssil é este exatamente e que consequências este ataque pode ter no escalar do conflito entre a Rússia e a Ucrânia?
De uma forma muito rápida. O Kinzhal é um míssil balístico de alcance intermédio, portanto tem uma velocidade relatada de Mach 10, com uma dificuldade tremenda de ser interceptado. Tem um míssil com seis ogivas e cada um pode criar várias submunições. Tem a capacidade de se constituir como vetor nuclear e é exatamente isso que Putin pretende desenvolver, passar uma mensagem comunicacional de que a ameaça nuclear é uma realidade. Esta ação foi conforme prometido no dia nove, em que foi transmitido que se houvesse algum tipo de ação por parte da Ucrânia em relação às comunicações, haveria este tipo de resposta. E ela surgiu agora no momento em que o alvo efetivo de um ataque ucraniano foi um alvo civil. Nessa consequência, Putin deixou marcar esta posição bastante forte. E por quê? Porque nós estamos também num momento de viragem. De alguma forma, não sabemos se é circunstancial ou é algo mais longo, mas a iniciativa tática do campo de batalha começou a ser dúbia. E a iniciativa estratégica, essa já não deixa dúvida nenhuma, a estratégia de Budanov é extraordinária na sua aplicabilidade prática. Está a conseguir atingir danos na economia e na sociedade e, de alguma forma, ter impacto no interior da Rússia e já ninguém se sente seguro. Ora, nesse sentido, já não é a primeira vez que Putin faz uso do armamento nuclear como referência e em vários momentos foi escalando, avançou com a doutrina, incluiu países amigos e zonas ocupadas, portanto, fez uma mudança na doutrina de emprego, fez o reposicionamento dos vetores nucleares, inclusivamente para a Bielorrússia, e inclusivamente agora também tem exercícios com estas capacidades. De alguma forma, há uma escala de riscos para este tipo de conflitos e já não é a primeira vez que eu refiro que está no nível seis de nove, ou seja, de ameaça de emprego. Segue-se o ultimato, emprego efetivo de armamento nuclear tático em defesa de forças ou território que seja considerado vital. Estamos perante realmente um risco real. Não que acredite que ele vá acontecer, mas seja como for, é um país nuclear, é para levar a sério e é isso que Putin procura, é demonstrar algum tipo de possibilidade de atingir este patamar, criar algumas dúvidas na comunicação social ocidental, comunicar muitas dúvidas na população ocidental e, de alguma forma, através daí encontrar uma pressão sobre o poder político que lhe permita ganhar uma melhor posição numa mesa negocial, se for o caso. Portanto, é o grande armamento que tem, é esta capacidade, este botão vermelho, e vai fazendo uso conforme pode e neste momento complexo, naturalmente vai exponenciar esta capacidade.
Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua análise, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter vindo mais ao Planeta em Guerra. Boa semana.
Obrigado, Luís. Até breve.
