Você pode acertar o que vai acontecer e ainda perder muito dinheiro – 14/09/2026 – De Grão em Grão
Sabe quando você está na praia em um feriado e pensa: “Vou voltar mais cedo para não pegar trânsito”? A ideia parece ótima. O problema aparece quando você entra na estrada e descobre que ela já está lotada. Sua previsão estava correta: mais tarde, o trânsito provavelmente será ainda pior. Mas muita gente pensou como você e saiu antes.
No mercado financeiro acontece algo parecido. Não basta estar certo sobre o que vai acontecer. Também importa saber se a maioria das pessoas pensa como você e, principalmente, se chegaram antes.
Em períodos eleitorais, essa diferença se torna especialmente importante. A incerteza aumenta, surgem preocupações com política econômica, contas públicas, inflação, juros e câmbio, e muitos investidores sentem que precisam fazer alguma coisa com a carteira. Não estou dizendo que o pessimismo ou o otimismo atual sejam corretos. A questão é outra: antes de agir, é preciso comparar sua expectativa com aquela que o mercado já incorporou aos preços.
Essa ideia está na origem da hipótese dos mercados eficientes. Em seu famoso artigo de 1970, o economista Eugene Fama definiu como eficiente um mercado no qual os preços refletem as informações disponíveis. Isso não significa que o mercado conheça o futuro ou que esteja sempre certo. Significa que investidores usam continuamente as informações disponíveis para decidir quanto aceitam pagar por ações, títulos e moedas.
Por isso, quando você conclui que o cenário pode piorar, provavelmente não é o único. Principalmente, se você tirou essa conclusão lendo jornais ou pela mídia social. Outros investidores podem ter chegado antes à mesma conclusão. Eles venderam ações, passaram a exigir taxas maiores nos títulos de renda fixa ou compraram dólares. A Bolsa caiu, os juros subiram ou o dólar se movimentou justamente porque as expectativas mudaram. Quando você decide agir, portanto, talvez esteja reagindo a uma notícia à qual os preços já reagiram.
Esse detalhe muda a pergunta que o investidor deveria fazer. Em vez de simplesmente questionar “acho que a situação vai piorar?”, deveria perguntar: “acho que ela vai piorar mais do que o mercado já espera?”. Se a resposta for não, vender apenas porque está pessimista pode significar vender depois que o pessimismo já reduziu os preços.
Suponha que os investidores já considerem bastante provável uma deterioração do cenário econômico. Parte dos efeitos dessa possibilidade estará refletida nos preços atuais. Para ganhar dinheiro apostando na piora, não basta necessariamente que ela aconteça. A deterioração terá de ser diferente ou maior do que aquela que o mercado esperava. Por isso, novas informações tendem a mover os preços principalmente quando alteram as expectativas que estavam incorporadas neles.
Howard Marks, um dos investidores mais respeitados do mercado de crédito, chama esse raciocínio de pensamento de segundo nível. Não basta perguntar o que vai acontecer. É preciso pensar no que vai acontecer em comparação com aquilo que os demais investidores esperam. Para obter um resultado diferente do mercado, sua avaliação precisa ser diferente e mais correta que a avaliação predominante.
O mesmo raciocínio vale para o otimismo. Uma empresa pode ser excelente, crescer muito e ainda assim proporcionar um investimento ruim. Se todos já esperavam resultados extraordinários e pagaram caro por essa expectativa, simplesmente confirmar o cenário positivo pode não ser suficiente para fazer a ação subir. Uma boa empresa não é necessariamente uma boa compra a qualquer preço.
Na renda fixa e no câmbio essa lógica costuma ser menos intuitiva, mas é a mesma. Se o mercado teme inflação, deterioração fiscal ou juros maiores, as taxas dos títulos podem já ter subido. Se teme uma desvalorização da moeda, o dólar pode já ter avançado. Mudar a carteira depois desses movimentos apenas porque você passou a compartilhar do mesmo pessimismo pode significar chegar atrasado.
Evidentemente, novas informações surgem, probabilidades mudam e cenários considerados improváveis acontecem. Os preços não antecipam corretamente o futuro. Eles refletem, com todas as imperfeições, aquilo que os investidores esperam dele naquele momento. É justamente por isso que uma notícia ruim pode fazer a Bolsa subir: ela pode ter sido menos ruim do que o mercado esperava.
Nas próximas semanas, ouviremos muitas previsões sobre as eleições e seus efeitos sobre a economia. Algumas serão otimistas; outras, bastante pessimistas. Antes de mudar seus investimentos por causa delas, acrescente uma pergunta: quanto dessa expectativa já está no preço que estou pagando ou recebendo hoje? No mercado, acertar o futuro nem sempre basta. Se você pretende ganhar com uma previsão, precisa estar mais certo do que aquilo que o preço já pressupõe.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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