Direita sairá vitoriosa da sessão do STF contra Moraes

Direita sairá vitoriosa da sessão do STF contra Moraes



A sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) desta terça-feira (15), que decidirá sobre a abertura inédita de investigação contra um de seus integrantes, o ministro Alexandre de Moraes, criou um raro paradoxo político: qualquer um de seus eventuais desfechos favorecerá a direita nas urnas.

Em meio à pressão popular por transparência e responsabilização, ministros do STF aliados de Moraes buscam freneticamente uma saída interna para a crise por meio de nulidades e tumultos processuais, medidas protelatórias e da tentativa de estabelecer uma falsa equivalência entre o suspeito e o seu colega denunciante, André Mendonça.

Nesse quadro, analistas veem dois desfechos possíveis para a crise, ambos potencialmente negativos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a esquerda. A razão é a associação política construída entre o governo, o STF e Moraes, que permite à direita explorar eleitoralmente tanto uma eventual blindagem quanto uma punição do ministro.

A eleição de senadores comprometidos com impeachment de ministros do STF, uma clara bandeira da direita, tende, por exemplo, a ganhar especial impulso com esse tenso noticiário. A indignação do eleitor é estratégica.

Se Moraes for poupado da histórica investigação de ministro da Corte, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) denunciará a acomodação como uma manobra de ministros em causa própria, impulsionando a revolta de seus atuais e potenciais votantes. Caso contrário, a investigação de Moraes dará às acusações da direita um recibo do próprio STF.

Crise do STF domina a corrida presidencial, o que favorece a direita

A campanha de Flávio já transformou Moraes em personagem da eleição. No Sete de Setembro, o candidato afirmou que “quem vota em Lula vota em Moraes” e passou a vender a disputa presidencial como oportunidade de desmontar a associação política entre o Palácio do Planalto e o STF. O plano encontra um ambiente favorável na elevada desconfiança popular, acumulada há anos, sobre a Corte.

Com isso, o impacto da super terça-feira não dependerá apenas do conteúdo jurídico da decisão. Dependerá sobretudo de como ela será traduzida na campanha dos dois principais candidatos à Presidência. Para especialistas, pequenos deslocamentos de eleitores insatisfeitos e o avanço do chamado voto útil da direita podem ter dimensão decisiva nessa reta final.

Caso o plenário arquive, restrinja ou esvazie a apuração contra Moraes, a direita deverá apresentar a decisão como respaldo técnico e absoluto de sua tese de autoproteção corporativa. A intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, que assumiu a relatoria do caso e centralizou processos do Master e INSS, enfraquecendo Mendonça, amplia a sensibilidade dessa leitura.

Quanto mais ampla for uma solução destinada a encerrar a crise, maior será o risco de ela parecer, fora do universo jurídico, uma acomodação. O eleitor dificilmente acompanhará minúcias regimentais. A pergunta política será mais simples: diante das suspeitas reveladas, a Suprema Corte investigou um de seus integrantes ou o protegeu?

Se Moraes se salvar, direita consagrará fato como prova de blindagem

Se Moraes sobreviver à crise sem punição relevante, a direita explorará o desfecho como prova de blindagem institucional. Flávio Bolsonaro poderá reforçar uma de suas teses mais mobilizadoras: a de que as instituições aplicam pesos diferentes quando suspeitas atingem integrantes do establishment.

O efeito alcançaria Lula, cuja imagem foi ainda mais associada por adversários a Moraes e ao STF desde o 8 de Janeiro. Uma solução interna que preserve o ministro poderá ser apresentada na campanha como proteção indireta ao campo governista, dificultando a tentativa do presidente de se afastar da crise.

Fachin busca evitar esses extremos ao assumir a relatoria da Petição 16.662 e tentar devolver previsibilidade ao rito. Há, porém, um complicador para Flávio: investigações ligadas à Dark Horse também o alcançam, enquanto decisões transversais do ministro Flávio Dino, do STF, favorecem o avanço e o compartilhamento de dados no caso.

A ironia é que o STF pode terminar a sessão tentando preservar sua autoridade e, qualquer que seja o resultado, fortalecer seus críticos. Se proteger Moraes, a direita falará em blindagem e impunidade; se confrontá-lo, apontará uma confissão da crise. O embate já é eleitoral.



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