Reform recebe 84 milhões de dois milionários das ‘cripto’ – Observador

Cerca de 84 milhões de euros (ou 72 milhões de libras) de apenas dois doadores milionários com fortunas nascidas do setor das criptomoedas. Foi este o valor recebido pelo Reform, o partido liderado por Nigel Farage, e que está a incendiar o debate no Reino Unido sobre as contribuições monetárias para os partidos britânicos, sobretudo quando provenientes do estrangeiro.
O valor arrecadado pelo Reform, sustenta o jornal The Guardian, é superior ao somatório dos gastos dos principais partidos nas eleições legislativas de 2024. Os dois donativos, de cerca de 42 milhões de euros (36 milhões de libras), chegaram no espaço de somente 48 horas e são, de longe, os maiores contributos individuais na história política do Reino Unido.
O primeiro a dar esse passo, na sexta-feira, foi Ben Delo, um bilionário britânico que já chegou a ser condenado em 2022 nos Estados Unidos por não ter implementado controlos adequados contra o branqueamento de capitais. Contudo, Delo seria perdoado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump. Ben Delo regressou recentemente ao Reino Unido proveniente de Hong Kong e já tinha doado anteriormente oito milhões de libras (9,32 milhões de euros) ao Reform, expressando a sua visão sobre o partido e o Reino Unido num artigo publicado em abril no jornal The Telegraph.
“O maior obstáculo à recuperação nacional é o autoengano enraizado das nossas elites. O seu regime de disparates representa agora uma ameaça tão grave para o Reino Unido que, pela primeira vez na minha vida, me tornei politicamente ativo”, escreveu, então, Delo.
O donativo seguinte foi anunciado este sábado e por um nome que não é estranho a Farage: Christopher Harborne, outro milionário das ‘cripto’, que está sediado na Tailândia, mas que já se viu envolto em polémica por ter doado no passado cinco milhões de libras (5,87 milhões de euros).
Essa doação direta foi revelada em abril ao líder do Reform é alvo de uma investigação da Comissão de Ética Parlamentar, uma vez que Farage não declarou a verba no arranque da última legislatura, o que pode constituir uma violação das regras parlamentares. Em paralelo, a Polícia Metropolitana tem um inquérito aberto às finanças do partido, com Nigel Farage e o Reform a recusarem qualquer conduta irregular.
“Haverá muita especulação por parte dos meios de comunicação social relativamente a esta doação. Então, o que espero em troca? Nada. Nem título de nobreza, nem mudança de política, apenas um partido que esteja pronto para governar”, afirmou Harborne.
Em declarações citadas pelo Guardian, o milionário assegurou ainda que quer colocar a sua riqueza ao serviço do país: “Quero o mesmo que toda a gente na Grã-Bretanha: que os meus filhos e netos tenham a oportunidade de viver aqui vidas felizes e produtivas e de serem recompensados pelo seu trabalho árduo. Nas próximas eleições gerais, as pessoas terão de votar no partido que considerem mais capaz de concretizar isso e estou a fazer uma doação, de forma muito clara, ao partido em que acredito.”
No entanto, a polémica em torno do Reform continua a crescer e na véspera da conferência anual do partido, há uma semana, o Channel 4 News revelou imagens que evidenciavam um aparente envolvimento de altos responsáveis do partido a tentar contornar leis eleitorais em relação a donativos estrangeiros, algo que seria do conhecimento de Farage. Na sequência desse caso, dois colaboradores muito próximos do líder do partido, Dan Jukes e James Orr, foram suspensos e estarão a ser investigados pela justiça.
Os donativos ao Reform chegaram num momento em que o debate sobre os contributos financeiros para os partidos está em cima da mesa, com os trabalhistas a procurarem introduzir um limite de 100 mil libras (aproximadamente 116 mil euros) e um período mínimo de residência no Reino Unido de 12 meses, com efeitos retroativos a março.
Se essa ideia vingar no Parlamento, o partido liderado por Nigel Farage poderá ser obrigado a devolver os seus milionários donativos. O governo liderado por Andy Burnham introduziu essas alterações num projeto de lei sobre essa matéria, que terá ainda de passar pela análise da Câmara dos Lordes, com a ministra da Habitação, Comunidades e Administração Local, Angela Rayner, a realçar que, se esse diploma passar, terá mesmo efeitos desde março.
“Afirmámos que, uma vez que a intenção da legislação e as recomendações, que aceitámos, eram do domínio público, esta teria efeito retroativo a partir dessa data. Essa legislação está neste momento a ser apreciada pelo Parlamento e também escrevemos à Comissão Eleitoral, que é um órgão independente, para saber que medidas adicionais precisamos de tomar para proteger a nossa democracia“, afirmou a governante, uma das vozes mais influentes no partido Trabalhista.
Contudo, o porta-voz do partido para a economia, Robert Jenrick, mostrou-se confiante com a manutenção do dinheiro nos “bolsos” do Reform.
“Estas duas doações estão inteiramente em conformidade com a lei tal como está e, tanto quanto sabemos, com a lei tal como será no futuro”, disse à BBC, continuando: “Pode ser que Angela Rayner ou o governo continuem a tentar alterar a lei para tornar ainda mais difícil às pessoas fazerem doações ao Reform; nada me surpreenderia. Mas, na situação atual, acreditamos que estas estão inteiramente em conformidade com a lei.”
Já Nigel Farage disse sentir-se “honrado e humilde” com estes donativos e que o plano para esta quantia passa pela contratação de cerca de 400 gestores de campanha em diversos círculos eleitorais. “[Delo e Harborne] sabem que somos o único partido capaz de dar a volta à situação do país e vencer as próximas eleições gerais — graças à sua generosidade, estamos agora em condições de disputar essas eleições em igualdade de condições”, finalizou.
Até à data não existem limites para o montante que os doadores sediados no Reino Unido podem doar aos partidos políticos.
