por que o aumento de salário “some” em poucos meses, e o que o estudo com ganhadores de loteria mostrou
O aumento de salário parece resolver tudo no início, mas “some” em poucos meses. O nome desse fenômeno é adaptação hedônica, também chamada de esteira hedônica, descrita por Brickman e Campbell em 1971.
O que é adaptação hedônica, ou “esteira hedônica”?
Adaptação hedônica é a tendência de o novo padrão de vida virar o novo normal rapidamente, fazendo a satisfação voltar ao ponto de partida depois de qualquer ganho ou perda.
O termo “esteira hedônica” descreve bem a mecânica: por mais que a pessoa avance, sente que está no mesmo lugar, porque o próprio referencial de conforto se moveu junto.

Por que o aumento de salário “some” depois de alguns meses?
O aumento some porque o custo de vida sobe junto com ele: novos hábitos de consumo, compras maiores, assinaturas extras. Esse processo é conhecido como inflação do estilo de vida, o lado prático da adaptação hedônica.
Médias de felicidade relatadas pelos três grupos comparados no estudo original.
4,00ganhadores de loteria
3,82grupo de comparação (vizinhos)
2,96vítimas de acidente com paraplegia
Philip Brickman, Dan Coates e Ronnie Janoff-Bulman publicaram, em 1978 no Journal of Personality and Social Psychology, uma comparação entre 22 ganhadores de loteria, um grupo de comparação e 29 vítimas de acidente com paraplegia.
A diferença de felicidade entre ganhadores de loteria e o grupo de comparação foi pequena, sem significância estatística forte, mesmo com a diferença financeira sendo enorme entre os grupos.
Esse resultado é uma lei definitiva sobre dinheiro e felicidade?
Não. A amostra do estudo original é pequena, e leituras posteriores da literatura matizaram esse achado ao longo dos anos. Vale tratar o estudo como um clássico com ressalvas, não como uma lei fechada sobre dinheiro e felicidade.

Como agir nos primeiros 30 dias depois de um aumento?
Sem prometer enriquecimento, a regra prática nos primeiros 30 dias depois de qualquer aumento é simples: destinar um percentual fixo do valor novo à poupança automática, antes de qualquer ajuste de estilo de vida.
Upgrades de consumo devem ser conscientes, decididos com calma, não automáticos assim que o dinheiro extra aparece na conta. Essa mesma lógica de compromisso prévio contra o próprio comportamento futuro já apareceu no viés do presente por trás do “começo segunda-feira” e no efeito Diderot. O estudo original de 1978 pode ser conferido na íntegra aqui.

