“Ana, en passant” abre a Mostra Competitiva do Festival de Brasília misturando técnicas de animação
A Mostra Competitiva Nacional da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro abriu sua programação neste sábado (12), na Sala Vladimir Carvalho, com a animação Ana, en passant, de Fernanda Salgado. O filme mistura diferentes técnicas de animação para contar a história de duas mulheres, Ana e Alice, que vivem em realidades opostas até se reencontrarem no Brasil.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, a diretora Fernanda Salgado explicou que a escolha das técnicas seguiu um planejamento construído desde o início do desenvolvimento visual do projeto, em 2018.
“A escolha das técnicas de animação seguiu um planejamento estruturado desde a fase de desenvolvimento visual, iniciada em 2018. Durante a produção, definimos a função específica de cada recurso: a rotoscopia constitui a base do filme, sendo aplicada a todos os personagens, o stop motion pontua momentos específicos de exploração geográfica, destacando a cartografia e o ambiente de Belo Horizonte, e a animação 2D e as técnicas de colagem compõem os cenários”, disse Fernanda Salgado.
A diretora contou ainda que a diretora de animação do projeto, Camila, trouxe uma proposta experimental para partes específicas do filme. “A diretora de animação, Camila, introduziu uma proposta experimental com papel termossensível para o prólogo, o epílogo e alguns interlúdios”, completou.
Um roteiro que amadureceu ao longo de 13 anos
O projeto de Ana, en passant nasceu ainda em 2012, quando o roteiro foi apresentado no Berlinale Talents. Segundo Fernanda, a história mudou bastante desde então, embora alguns elementos originais tenham permanecido.
“O roteiro apresentado no Berlinale Talents em 2012 funcionou como uma semente. Embora alguns elementos fundamentais tenham sido preservados, como a figura do carteiro e a atmosfera fantástica que envolve o prédio e o apartamento, a narrativa passou por uma evolução profunda, reflexo do meu próprio amadurecimento. Em 2012, o foco era a busca de uma jovem por sua identidade individual. Hoje a trama se expande para contemplar o lugar dessa mulher em um contexto geracional de mulheres negras, explorando a redescoberta de memórias e ancestralidade”, afirmou a diretora.
Fernanda também relacionou essa transformação a mudanças em sua própria vida. “O roteiro adquiriu maior densidade e força, resultado tanto do meu desenvolvimento pessoal, especialmente após o nascimento da minha filha, quanto da participação em laboratórios e workshops de escrita”, disse.
A protagonista Jéssica Pierina, que interpreta as duas personagens centrais do filme, falou sobre o desafio de viver Ana e Alice ao mesmo tempo. “O processo de Ana foi intenso, porém extremamente gratificante. Interpreto duas personagens, Ana e Alice, que vivem em realidades opostas e em países distintos, até que se reencontram no Brasil. Tivemos um longo período de preparação, o que fez toda a diferença na construção e no entendimento psicológico de cada uma delas”, contou Jéssica ao Jornal de Brasília.
Para a atriz, participar do Festival de Brasília tem um significado especial. “Estar no Festival de Brasília é a realização de um sonho. Sempre acompanhei o evento virtualmente, mas nunca tive a oportunidade de comparecer pessoalmente. Estar presente pela primeira vez, protagonizando um filme, representa um marco de imensa importância para a minha trajetória profissional e para o meu crescimento pessoal”, completou.
O ator Carlos Francisco, que também integra o elenco, descreveu o processo de gravação como uma experiência próxima do teatro. “O processo de gravação foi bastante singular. Utilizamos um estúdio com paredes brancas marcadas por sinais de referência para a posterior inserção de animação. Como a voz utilizada foi a original, captada durante as filmagens, a interpretação exigiu uma abordagem próxima à linguagem teatral”, disse Carlos ao Jornal de Brasília.
Para o ator, o retorno ao festival também carrega um valor simbólico. “Retornar a este festival é sempre um grande privilégio. Foi aqui que recebi meu primeiro prêmio no cinema, pelo filme Canção ao Longe, de Clarissa Campolina, o que abriu muitas portas em minha trajetória”, afirmou.
