Onda conservadora na América do Sul anima a direita no Brasil

A corrida presidencial brasileira poderá representar o ápice da guinada conservadora na América do Sul. Após a série de vitórias da direita e da centro-direita na região, o pleito de outubro no Brasil é visto como o teste de maior peso para confirmar a mudança no eixo ideológico da região.
Para aliados de Flávio Bolsonaro (PL) – pré-candidato da direita no maior, mais rico e mais populoso país da América Latina –, sua eventual vitória traria forte impacto simbólico e geopolítico, ao consolidar a chamada onda azul na região e reforçar a convergência ideológica continental.
Nesse contexto, o campo conservador brasileiro busca tornar o cenário externo um ativo eleitoral. A estratégia inclui explorar a proximidade com líderes estrangeiros, valorizar manifestações de apoio e apresentar o Brasil como etapa decisiva de um efeito dominó, mobilizando seus militantes.
O principal símbolo da estratégia internacional da direita brasileira foi a participação do presidente argentino, Javier Milei, na convenção do PL, que endossou a candidatura de Flávio, no último sábado (25). O gesto mostrou a cooperação de líderes e a projeção da campanha no exterior.
Nos últimos meses, vitórias da direita em países como Colômbia e Peru fortaleceram a narrativa da onda azul e a leitura de que há um movimento regional favorecido por cenários econômicos adversos, preocupação crescente com a segurança pública e pelo avanço do crime organizado.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo observam, contudo, que a influência desses resultados tem limites. Embora o contexto regional ajude a construir discursos, a eleição segue condicionada por fatores domésticos, como avaliação do governo e especificidades do eleitor.
Brasil emerge como teste decisivo da onda azul na América do Sul
A dimensão econômica brasileira amplia o peso geopolítico da eleição. Por concentrar as maiores economia e população da América Latina, o resultado das urnas poderá influenciar o equilíbrio político regional e redefinir o protagonismo do país nos principais fóruns sul-americanos.
Para a campanha de Flávio, a maré conservadora serve de instrumento de mobilização, reforçando a ideia de que o país se insere em um processo continental de reorientação política. A ligação com líderes estrangeiros visa transmitir ao eleitor confiança e a confirmação de um novo ciclo.
Eduardo Galvão, diretor da Burson e professor do Ibmec-DF, avalia que a principal novidade da política latino-americana não é ideológica, mas temporal. A impaciência do eleitor, o baixo crescimento, a insegurança e a polarização encurtaram o tempo para governos se recalibrarem.
Para ele, o ambiente externo passou a influenciar a política nacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exerce papel de maior referência conservadora e Milei se articula com líderes regionais. Temas como segurança, imigração e alinhamento político entram nas agendas.
“Essa combinação explica a rápida sucessão de ciclos políticos. Em pouco mais de uma década, a América do Sul alternou governos de esquerda e direita, refletindo a crescente frustração do eleitor com o ciclo anterior e a aceleração da alternância no poder”, sublinha.
Já o cientista político Antônio Flávio Testa avalia que a exploração da onda azul pela campanha da direita tem alcance limitado. “A maior parte do eleitorado não leva isso em conta. Os apoios externos podem ajudar no segundo turno, mas segurança e economia são fatores decisivos”, diz.
Líderes da direita brasileira celebram o avanço conservador na América do Sul
Durante a convenção nacional do PL, no último sábado (25), em São Paulo, discursos de alguns dos principais líderes da direita brasileira festejaram a série de eleições do mesmo campo político na América do Sul e expressaram a sua torcida para que o Brasil se consagre como o próximo dessa onda azul.
Valdemar Costa Neto, presidente do partido, aproveitou a presença do presidente argentino, Javier Milei, para apresentá-lo como exemplo. “Ele está devolvendo esperança, confiança e prosperidade ao povo”. “Estamos aqui também iniciando uma nova história para o nosso país”, afirmou.
O senador Flávio Bolsonaro, que disputará o Palácio do Planalto pelo PL, destacou a missão de fazer o Brasil “mudar a cor”, em alusão à onda azul. “Falta o Brasil para completar o mapa”, disse ele na convenção. Flávio tem usado o avanço de presidentes de direita na região como um trunfo da articulação internacional e de sua campanha.
Durante sua última viagem a Buenos Aires, o presidenciável afirmou que o Brasil tem “um pouco de inveja” dos países latino-americanos que vêm elegendo governos conservadores. “Enquanto nossos vizinhos, um a um, escolhem liberdade e ordem, o Brasil ainda está preso ao passado”, disse.
Foco no fortalecimento da segurança pública e alinhamento externo
Entre os temas comuns aos governos conservadores estão segurança, endurecimento contra organizações criminosas, combate à corrupção e maior aproximação com Washington. Essas pautas estão presentes na campanha de Flávio, ilustradas por experiências recentes da região.
No campo diplomático, também ganha espaço a visão mais pragmática das relações exteriores. Nos diversos países governados pela direita na América do Sul, avançam a defesa de acordos comerciais bilaterais e maior cooperação em inteligência e defesa com os Estados Unidos.
Outro elemento recorrente é a convergência em torno do combate ao narcotráfico e ao crime transnacional. Governos conservadores têm defendido integração em operações de segurança e apoio a iniciativas coordenadas com Washington, como o plano Escudo das Américas.
