O medicamento que atrasa o Alzheimer, mas divide os médicos – Observador

O medicamento que atrasa o Alzheimer, mas divide os médicos – Observador



“Os estudos dizem que, com estes medicamentos, as pessoas não melhoraram, tiveram um declínio menos acentuado”, vinca a médica do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, que, no acompanhamento clínico que faz na consulta naquele hospital público, privilegia o tratamento não farmacológico, recomendando aos doentes a estimulação cognitiva, exercício físico, controlo dos fatores de risco vasculares, dieta saudável e convívio social. Estratégias que, diz, têm comprovada eficácia em pessoas com défice cognitivo ligeiro, ou seja, em fases iniciais da doença — precisamente a fase em que medicamentos como o Donanemab e o Lecanemab estão indicados.

O tratamento com os dois medicamentos inovadores tem um custo que o torna inacessível a uma parte da população com Alzheimer. No Campus Neurológico (uma rede especializada no tratamento, reabilitação e investigação de doenças neurológicas, como Parkinson ou Alzheimer, AVC, e que conta com clínicas em Lisboa, Torres Vedras e Braga), uma administração mensal com Donanemab ao longo de ano e meio tem um custo total a rondar os 40 mil euros, totalmente suportado pelo doente. “Infelizmente, não está acessível a todos neste momento. Antecipamos que poderá haver uma comparticipação, mas não sabemos quando é que isso vai acontecer”, assume a neurologista, referindo-se à análise fármaco-económica que estará a ser feita pelo Infarmed e que vai determinar se o medicamento vai ou não ser financiado no Serviço Nacional de Saúde. Ao Observador, o Infarmed confirma que a avaliação ainda está em curso.

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O custo global do tratamento com Donanemab no Campus Neurológico inclui ainda os exames necessários, como as ressonâncias magnéticas (seis nos primeiros 12 meses de tratamento) e as tomografias por emissão de pósitrons, designadas PET, para avaliar a evolução das placas de beta-amilóide. Neste caso, é feita um PET antes de iniciar o tratamento e outra entre os seis e os nove meses, se considerado necessário pela equipa médica.

A responsável pelas clínicas do Campus Neurológico explica que o tratamento pode ser suspenso antes dos 18 meses, se a PET demonstrar uma “redução drástica nesta quantidade de amiloide” no cérebro. Ana Castro Caldas reconhece que a quantidade de exames pode ser incómoda para os doentes, também devido ao custo associado. “Pode haver alguma resistência dos doentes, não só pela chatice de fazer as ressonâncias, como pelo custo associado. Mas acabam por perceber a necessidade”, salienta. O PET é um exame invasivo, em que se introduz um composto radioativo no organismo do doente. Depois de um interregno de 60 minutos, faz-se uma captação de imagens 3D durante 15 a 45 minutos. Em poucas horas, o composto radioativo é eliminado do organismo.

Ana Castro Caldas defende que o investimento no tratamento com donanemab vale a pena, mas a opinião da especialistas está longe de ser consensual.

As intervenções não farmacológicas ficam mais baratas, em oposição a esses fármacos, que são caríssimos, que só têm efeitos mínimos em formas muito precoces da doença. Portanto, no custo-benefício, faz muito mais sentido investirmos nas medidas mais simples”, contrapõe Luísa Alves, dando o exemplo de uma medida que defende: uma comparticipação de ginásios para os doentes.

Mas para Ana Castro Caldas, diretora clínica do Campus Neurológico, o investimento no tratamento faz sentido. “Acho que faz sentido, porque de facto não temos mais nada para oferecer do ponto de vista de neuroproteção. Até hoje, o que damos aos doentes são medicamentos que podem, no melhor cenário, melhorar um bocadinho a memória, a atenção, a velocidade de processamento. Mas a doença continua a progredir”, realça a neurologista, admitindo, ainda assim, a importância de intervir também na “mudança de alguns fatores de risco vasculares e no estilo de vida, que podem contribuir para um agravamento mais rápido da doença”.

No final de 2024, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido [NICE, na sigla em inglês], o organismo público que avalia o custo-benefício dos medicamentos para decidir se devem ser comparticipados pelo NHS (o equivalente inglês ao SNS), afirmou que o tratamento com Donanemab proporcionou apenas um pequeno benefício aos doentes, e não seria um bom investimento, sendo o preço cinco a seis vezes maior do que o NHS normalmente considera aceitável. “Este benefício simplesmente não justifica o custo para o NHS [cerca de 25 mil libras ano/doentes, o equivalente a 29 mil euros]”, disse Helen Knight, diretora de avaliação de medicamentos do NICE.

Para além disso, o organismo sublinhou outro fator que pode ter influenciado a avaliação: os efeitos colaterais do Donanemab. Em cerca de um terço dos doentes que receberam o medicamento no estudo TRAILBLAZER, registou-se um inchaço cerebral, na maior parte dos casos sem consequências. No entanto, dois voluntários morreram. Outro efeito colateral grave são as hemorragias cerebrais. “O que acontece é que, quando estes medicamentos tentam retirar as placas da amiloide, há um aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, o que faz com que haja um maior risco de edema, de inchaço do cérebro e até pequenas hemorragias”, explica Ana Castro Caldas, ressalvando que, “na maior parte das vezes, é assintomático e completamente reversível”.

“Vamos vigiando através de ressonâncias magnéticas que temos de fazer com alguma frequência durante o processo de tratamento. Pode haver casos graves. São raros, mas podem acontecer e exigem esta monitorização mais rigorosa”, garante a médica, acrescentando que “o Donanumab parece ser um bocadinho mais seguro” do que o seu concorrente o Lecanemab, produzido pela Biogen. “Parece que, no caso do Donanumab, são menos frequentes os efeitos adversos”, sublinha. Na lista de efeitos adversos do Donanemab estão ainda inchaço do rosto, lábios, boca ou pálpebras; problemas respiratórios; urticária; calafrios; irritação da pele; náuseas; vómitos; dor de cabeça ou dor no peito.

A neurologista Luísa Alves salienta que, para além dos efeitos adversos, os anticorpos monoclonais têm um conjunto de contraindicações. “A grande maioria das pessoas não pode iniciar estas terapias inovadoras porque há uma uma série de contraindicações”, salienta. No caso do Donanemab, o tratamento é contraindicado a doentes com hipertensão mal controlada, que tenham tido uma hemorragia cerebral prévia ou várias micro-hemorragias cerebrais, ou que estejam a fazer terapêutica anticoagulante.

Depois de ter iniciado tratamento num doente em abril, o Campus Neurológico vai administrar Donanemab a outros três doentes, com idades entre os 65 e os 80 anos, revela Ana Castro Caldas. Antes dessa fase, é obrigatório fazer o diagnóstico da doença de Alzheimer, que tem uma vertente clínica e outra envolvendo exames de imagem. “O diagnóstico continua a ser, até hoje, muito clínico. Há um doente com esquecimentos ou falhas de memória, faz uma ressonância magnética, traçamos um perfil cognitivo e assumimos um diagnóstico”, explica a neurologista.

Luísa Alves realça que o facto de estarem a surgir casos da doença em pessoas mais novas pode estar a contribuir para que muitos não sejam diagnosticados uma fase precoce da doença. “Nos casos de início precoce, nem os médicos de família nem a pessoa nem a família pensam nisso. Há formas de doença muito variadas (queixas visuais, mudanças comportamentais e na linguagem, e não apenas a falta de memória), e mesmo o profissional de saúde nem sempre pensa logo no Alzheimer”, lamenta a neurologista, realçando que, muitas vezes, para confirmar o diagnóstico, é necessário recorrer a procedimentos invasivos, como a punção lombar, para análise do líquido cefalorraquidiano (que depois permite identificar biomarcadores, que servem para confirmar com precisão o diagnóstico) ou o exame PET.





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