‘O jogo mais importante da minha vida começou em silêncio’, diz narrador Jorge Iggor após superar o câncer

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Para quem vive de contar histórias, a voz é muito mais do que uma ferramenta de trabalho: é a própria identidade. É por meio dela que realizo diariamente o sonho daquele menino apaixonado por futebol, narrando jogos e gritando gols. Nunca imaginei que o maior medo da minha vida seria justamente o de silenciá-la.
Em 2021, descobri um câncer na tireoide que já havia atingido os gânglios da região cervical. O mais impressionante é que eu não sentia absolutamente nada: nenhuma dor, rouquidão ou dificuldade para engolir. A doença evoluiu em total silêncio e foi descoberta por acaso, durante exames de rotina. Se aquele check-up não tivesse acontecido, talvez eu demorasse tempo demais para notar que algo estava errado.
A palavra “metástase”, que se refere à disseminação de um tumor, assusta qualquer pessoa. Ela chega carregada de peso e faz a imaginação correr mais rápido do que qualquer explicação médica. No meu caso, o prognóstico era positivo, mas o que realmente me apavorava era a parte técnica: a cirurgia aconteceria colada aos nervos responsáveis pelas cordas vocais.
O risco real era perder o instrumento que construiu minha carreira, sustenta minha família e me permite seguir vivendo um sonho.
Para entender a gravidade do cenário, a médica que me acompanhou no tratamento, Lígia Tedde de Moraes, me explicou: “As cordas vocais se movimentam graças ao nervo laríngeo recorrente, que funciona como um fio de condução elétrica muito sensível. Como se trata de uma estrutura extremamente delicada, a simples manipulação na cirurgia de tireoide pode causar rouquidão temporária ou permanente.”
Foram horas de cirurgia e uma ansiedade difícil de colocar em palavras. “Para quem usa a voz profissionalmente, o impacto é gigante, pois o tratamento gera fraqueza na emissão do som e perda de potência. Para narrar um jogo de futebol com a emoção necessária, isso torna o trabalho praticamente impossível”, expõe a doutora.
“Felizmente, no caso do Jorge, o nervo se recuperou e, com fonoterapia precoce, ele venceu esse desafio.”
Sim, no início minha voz ficou bastante fraca. O alívio de sair do hospital não significou um retorno imediato. Vieram semanas de repouso absoluto, sessões intensas de fonoterapia e uma reconexão gradual com a minha própria identidade, até recuperar a força e os agudos necessários para soltar a voz em uma transmissão.
Cada pequeno tom recuperado era uma vitória; cada teste bem-sucedido me dava a certeza de que o microfone ainda seria o meu lugar.
Como narrador, encontrei uma forma de explicar essa experiência usando o futebol. Descobrir a doença cedo foi como levar um gol com 30 segundos de jogo. O susto foi enorme, mas ainda havia a partida inteira para buscar a virada.
Se esse gol tivesse acontecido aos 40 minutos do segundo tempo, a história seria outra. O diagnóstico precoce me deu tempo e, na medicina, tempo é o recurso mais valioso que existe.
Mesmo após a cura, quem passa pelo câncer aprende que a alta médica não apaga a vigilância. Os exames de acompanhamento trazem uma ansiedade inevitável a cada novo resultado, mas aprendi a conviver com essa rotina sem permitir que o medo ocupe mais espaço do que o presente.
Hoje, cada transmissão tem um significado diferente. Estar no estúdio é celebrar a vida e a oportunidade de continuar soltando a voz que, por alguns dias, achei que perderia para sempre.
Se existe uma mensagem que essa reviravolta me deixou, ela é: não espere o seu corpo gritar para procurar ajuda. Às vezes, ele apenas sussurra. Em outras, permanece calado. O jogo mais importante da minha vida começou em silêncio.
Fazer exames de rotina e manter o acompanhamento médico preventivo não é exagero, é autocuidado. Foi exatamente esse cuidado que salvou a minha ferramenta de trabalho e me permitiu continuar contando histórias, inclusive a minha.
* Jorge Iggor é jornalista e narrador esportivo da GE TV
