O dia em que Hitler invadiu minha sala

O dia em que Hitler invadiu minha sala


Por Flávio Martins da Silva

Era o terceiro horário e eu trabalhava com meus alunos numa atividade de interpretação de textos corriqueira na aula de língua inglesa. O texto era uma minibiografia crítica da rainha Elizabeth com oito perguntas e alguns fatos históricos sobre a rainha e os processos de colonização patrocinados pela Coroa inglesa.

A pergunta oito dizia:

– Do you like Queen Elizabeth? Why? 

Várias respostas afirmativas, outras tantas negativas e com cada uma delas justificativas diversas, até que uma aluna disse:

– Eu não gosto, porque ela era racista e explorava os povos de outros países!

Outra disse:

– Eu gosto. Ela tinha uma carinha boa de avó da gente!

Eu, professor orgulhoso que fico das respostas boas e satisfeito com as justificativas, emendei: 

– Ok, pessoal. Gostar ou não é subjetivo e cada um tem suas razões. Pessoalmente não gosto dela. 

Para minha surpresa, um aluno do canto da sala interveio: 

– Teacher, qual o problema de gostar dela, nessa sala tem gente que gosta até de Hitler! 

Assustado e cabreiro como um bom mineiro, fui conversando e descobri que naquela sala havia três alunos que cabiam naquela resposta estarrecedora! 

Continuei a conversa e descobri mais algumas coisas horrendas. Por ocasião do interclasse, naquele mês, um daqueles meninos decidiu que sua camisa levaria o nome de Adolfo Hitler e o número 1945. Ao ser questionado alegou que não via problema nisso, pois era apenas uma homenagem a uma figura histórica. O aluno, um menino negro e que ficava recluso na maior parte das aulas, se manifestou assumindo para si a ideia de fazer a camisa do interclasse com aquela mensagem. Não demonstrava arrependimento e pareceu bastante surpreso quando eu disse que não apenas era errado disseminar mensagens antissemitas, mas também que ele se colocava em risco caso usasse aquela camisa em espaços públicos. 

Em seguida acaba a aula e, enquanto a maioria dos alunos sai para o recreio, um grupo de alunos vem conversar comigo. Eram seis meninas e dois meninos – todos confirmam o que veio à tona naquela aula. Um menino fala meio revoltado, meio chorando:

– Não aguento mais ser tratado de forma racista por esse grupo. Todas as minhas falas e ações são motivos para me agredirem!

As meninas corroboram e confirmam que os três sempre fazem isso nas trocas de horário e depois da aula, porque aí não tem professores por perto. Aquele pequeno grupo parecia estar aliviado por ter sido ouvido. As meninas se atropelaram na fala tentando demonstrar situações em que aquele menino da camisa 1945 e mais dois colegas as assediaram com palavras chulas, agressivas e por vezes ameaçadoras. 

O grupinho de assediadores era formado por três meninos de mais ou menos 14 anos. Os delatores narraram que os três faziam saudações nazistas na escola sem que professores vissem, falavam de seus planos e sua admiração a Adolf, assediavam meninas com falas e xingamentos misóginos, faziam bullying com colegas deficientes e agiam de maneira homofóbica com colegas meninos. Eu não estava preparado pra isso. 

Imediatamente desci as escadas e levei o caso para a direção da escola, que acompanhada da coordenação, prontamente me atendeu e convocou os três para uma conversa. A diretora explicou aos três os pontos graves do que estava acontecendo. Deu nome aos fatos: racismo, apologia ao nazismo, crimes contra os direitos humanos. Tudo baseado na legislação brasileira. Falou ainda sobre a história do Holocausto, a luta pelos direitos civis e humanos e dos problemas das ações dos três. 

Tudo parecia estar caminhando bem até que foi dada a eles a chance de explicar o que tinha acontecido e, pasmem: não pareciam arrependidos. Um disse que em casa esses assuntos eram permitidos e aceitos como naturais. Outro trazia argumentos que justificariam cada situação, não vendo, assim, que suas ações eram tipificadas como bullying, crime de ódio ou ações preconceituosas. 

Perguntei-lhes como poderiam defender um sistema que matava pessoas exatamente como eles, pretos, pobres, com deficiência. Os três argumentavam em defesa de suas ações sem, no entanto, reconhecer o tamanho do problema. 

O caso está em andamento com o envolvimento de vários órgãos e das famílias. A camisa do interclasse foi excluída a tempo. Na volta às aulas, após o recesso, teremos um trabalho sistematizado sobre os assuntos com todas as turmas e especialmente com aqueles três. 

Aquele parecia ser apenas o terceiro horário de mais um dia de aula numa escola da rede pública. Era só mais uma aula de inglês com um texto que tratava de temas como colonização, exploração humana e a vida e morte da linda vovozinha Queen Elizabeth. Isso para mim, pois para aquele grupo de 8 alunos era a chance de serem ouvidos em suas dores e de colocar para fora o incômodo que os atormentava já por algum tempo. 

O esvaziamento dos significados dos fatos leva as pessoas a relativizar situações que ferem violentamente o que temos de mais belo, nossa humanidade. Que estejamos atentos para ensinar, mas principalmente para ouvir o clamor de quem sofre em silêncio. 

Flávio Martins da Silva é mestre em Educação Tecnológica (UFMG) e doutorando em Estudos de Linguagens (CEFET-MG). Autor do livro “Chat GPT na escola: guia para professores” e criador do canal Mákina de Ideias.

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.





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