Nos bastidores com os Mind da Gap – Observador

Nos bastidores com os Mind da Gap – Observador



Ace tem a roupa impecavelmente engomada e a condizer. A T-shirt e os ténis são brancos, as calças e o chapéu são bege — no armário ficaram as meias que exibiam FC Porto que tinha durante a tarde. Anda de um lado para o outro, olha-se ao espelho, procura a toalha branca que terá sempre por perto durante a atuação. “Pede ao Vasco e ele diz-te se a toalha é minha ou não”, diz a um membro da equipa técnica.

Vasco Ferreira é o agente. Anda escada abaixo e escada acima em velocidade cada vez mais acelerada — ele será também o membro mais alerta durante todo o concerto, pedindo para aumentar volumes de som, repondo bebidas ou qualquer outra coisa que ajude os seus músicos a preocuparem-se apenas com a atuação.

Ace coloca os auriculares ainda no camarim. Junto dele já está Presto. Está vestido com uma camisa de manga curta com riscas azuis, calções e boné — roupa de férias, portanto, ou de alguém que continua tão descontraído como quando tinha 20 anos.

“Dois minutos, prepara-os aí”, grita Vasco a alguém enquanto sobe novamente as escadas. A pessoa desconhecida responde: “Vamos começar a horas? Isso é que é de valor.”

No exterior do camarim — um pré-fabricado com uma mesa, cadeiras, petiscos, bebidas, um espelho e, mais importante, ar condicionado —, Serial passa os últimos minutos com a mulher, a quem beija carinhosamente a mão antes de se dirigir para as escadas que dão acesso ao palco. Ele é o primeiro a subir, posicionando-se no nível mais elevado ao fundo do palco às 23h02 e lançando a introdução. Ace e Presto trocam algumas palavras impercetíveis antes de subirem até ao topo da escada. Aí, cada um com uma toalha ao ombro, recebe o respetivo microfone. Dão um aperto de mãos informal, encostam ombro com ombro e avançam. Que comece o reencontro dos Mind da Gap.

Foi em 1993 que três jovens portuenses — Nuno Carneiro (Ace), Hugo Piteira (Presto) e Rolando Sá (Serial) — que ouviam sonoridades de nicho se juntaram e começaram a fazer música. Inicialmente tinham um nome que, perceberam rapidamente, ninguém conseguia pronunciar. Os Da Wreckaz deram lugar aos Mind da Gap e o resto, como costuma dizer-se, é história. “Éramos completamente maluquinhos por hip hop, mas éramos poucos”, diz Ace.

Ouviam nomes internacionais porque era o que existia e, certo dia, de passagem pela loja de música BimotorDJ, Serial percebeu que estava outro jovem a ouvir o mesmo que ele. “Lembro-me de o ver sentado no chão e de pensar: quem é este gajo?” Acabariam por conhecer-se mais tarde por intermédio de Presto. “Vivíamos no nosso mundinho, muito fechadinho, mas também muito fixe. Era a nossa cena.”

Sabem que surgiram numa era em que o hip hop era olhado de lado e não tinha praticamente espaço no panorama nacional. “É verdade que foi um tempo ingrato, mas quando as coisas são ingratas, por vezes recompensam de outra forma”, considera Serial.

“Aparecemos numa altura em que pouco havia, criámos muitas coisas, inovámos e apresentámos muitas coisas à música nacional, não só ao rap. Apresentámos um estilo próprio”, recorda Ace.

O rap era visto como uma espécie de brincadeira e os Mind da Gap revolucionaram essa ideia, explicam. “De alguma forma, profissionalizámos a coisa. Fomos dos primeiros. Os Da Weasel já andavam no circuito, faziam concertos grandes, mas nós éramos puros — puros no sentido de não ter guitarra, não ter bateria”, diz Ace.





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