Mundial 2026: França-Inglaterra, 4-6 (crónica)

Mundial 2026: França-Inglaterra, 4-6 (crónica)


O jogo que nenhum semifinalista quereria jogar… tornou-se no melhor jogo do Mundial 2026.

O jogo com mais golos de sempre na disputa do terceiro e quarto lugares em Mundiais.

O jogo em que Mbappé igualou Gerd Muller com dez golos numa só edição, só atrás do húngaro Kócsis (11) e do compatriota Just Fontaine (13).

O jogo em que se tornou (ainda à espera de Messi) o melhor marcador da história dos Mundiais, com 22 golos.

Mas foi, também e muito, o hat-trick de Bukayo Saka, protagonista do triunfo que vale a Inglaterra o melhor resultado em Mundiais, 60 anos depois do primeiro e único título, num duelo em que até o árbitro foi assistido.

E, para acabar, quando já todos achávamos que tínhamos visto mais do que muito, aquele golo «maradoniano» de Jude Bellingham.

Na reta final da edição que antecede os 100 anos de Mundiais, Inglaterra e França protagonizaram uma batalha épica em Miami. Mais épica… talvez só a Guerra dos Cem Anos.

Não foram 100 golos, mas só lhe faltou um zero à frente: foram dez. Dez golos, num jogo 100 por cento à frente para o que se podia esperar na luta pelo último lugar do pódio.

Se este era o tal jogo que nenhum semifinalista quereria jogar, tornou-se também no jogo que muitos fãs do futebol quereriam ver (mais vezes). E que, nas próximas horas, dias, semanas, meses e anos, vai ser visto e revisto. Uma e outra vez.

Afinal, foi escrita história em diversos sentidos.

História no jogo que França não jogou na primeira parte. Mas que quis jogar na segunda. Inglaterra foi para o intervalo a vencer por 4-0 perante um conjunto adormecido e só com Mbappé em busca de fazer… história.

Com Mbappé de um lado, mas sem Bellingham ou Kane do outro (Deschamps e Tuchel fizeram sete alterações cada), tudo começou logo aos três minutos, com um passe proibido de Doué a abrir caminho para o golaço de Declan Rice. Parecia só haver uma equipa em campo e isso fez-se sentir com o tempo. Inglaterra viu o 2-0 anulado a Saka por fora-de-jogo, mas poucos minutos bastaram para Konsa dar, de cabeça, seguimento a um canto de Rice (19m). A fechar a primeira parte, Saka bisou (37m, 45+1m) e fez o marcador ganhar contornos de escândalo. Primeiro, num golo que mostrou o total desnorte defensivo francês. E depois numa grande combinação com Eze.

Do outro lado, só se viu Mbappé a tentar fazer algo num par de vezes. E, quando foi preciso, esteve lá o estreante em Mundiais, Dean Henderson, a dizer «não».

Ao intervalo, «não» deve também ter dito França ao rumo que o jogo estava a tomar, na despedida de Deschamps. Upamecno, Digne, Barcola e Dembélé foram a jogo, os franceses parecem ter carregado no botão para começar a jogar com 45 minutos de atraso e chegaram ao 4-3 ainda antes da pausa para hidratação. Mbappé primeiro, Barcola depois e Mbappé outra vez ensaiaram o que parecia ser uma épica e nunca vista recuperação de quatro golos de desvantagem em Mundiais.

Não aconteceu. Ora pelo desperdício de Olise ou Dembélé, pela atuação de Henderson na baliza e porque, a dada altura, numa de muitas boas ações em jogo, Djed Spence (que grande reta final de Mundial!) foi até ao fim e obrigou Malo Gusto à falta para um penálti que Bukayo Saka, depois de receber a bola das mãos do recém-entrado Bellingham, transformou no 5-3 (87m). Um hat-trick histórico, o quarto neste Mundial e o segundo de sempre no jogo do terceiro e quarto lugar, depois de Just Fontaine em 1958.

Mas isto ainda não tinha acabado e, já depois de Dembélé reduzir para 5-4, Inglaterra – que desta vez melhorou quando Tuchel lançou Bellingham e Anderson para a reta final – chegou à meia dúzia numa obra de arte de Bellingham, num jogo que foi tão bom de se ver (e talvez de se jogar com o passar do tempo) que houve sorrisos de parte a parte no fim, contrastando com alguma frustração de um Mbappé que fez história.

«Sakaram» daqui um belo jogo.



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