dissolução de um ministro – Observador

Qual é a diferença entre o tanque do monte de Luís Neves e uns bidões com amoníaco que saíram de um camião apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga? É que milhões de portugueses olham para aquela pequena casa e o tanque anexo (chamar-lhe piscina é um pouco megalomania) e pensam: isto, à excepção do verde na parede, podia ser comigo (aquela parte do empreiteiro cumpridor soa a música aos meus ouvidos!) O problema é que os bidões, mesmo que estivessem cheios de pipocas, são um activo tóxico que corrói a imagem institucional de Luís Neves. A casinha mais as pequenas obras pagas à medida que se iam fazendo transformavam Luís Neve num de nós. Os bidons que chegaram onde chegaram sem se perceber como fazem dele uma pessoa com a qual não temos nada a ver. Até o atrelado mais os bidões se atravessarem na linha dos acontecimentos, as oposições, à excepção do Chega, mantinham-se na linha traçada por José Luís Carneiro quando, em Fevereiro deste ano, Luís Neves se tornou ministro da Administração Interna: “personalidade forte num Governo, apesar de tudo, frágil”.
Para Montenegro a mais valia de Neves era evidente: um MAI que uma parte da oposição vê como um dos seus é uma dádiva. E foi enquanto “personalidade forte num Governo, apesar de tudo, frágil” que Luís Neves se manteve. Factos como as ameaças que Luís Neves terá dirigido no parlamento a André Ventura e para as quais “o líder do Chega diz ter sido alertado por elementos do Governo e “deputados próximos” do ministro da Administração Interna” , com outro protagonista teriam gerado um escândalo, vários fat check e até o recurso a especialistas em leitura de lábios, mas consigo produziram essa forma superior de cumplicidade que se chama indiferença. E assim parecia que iria ser por muito mais tempo.
Sobre Luís Neves as palavras eram usadas com conta, peso e medida. Em relação ao restante executivo, antes pelo contrário. Há uma semana, o Bloco de Esquerda já pedia a demissão do ministro Fernando Alexandre e o PS seguia-lhe os passos — Alexandra Leitão: “Tenho muitas dúvidas que Fernando Alexandre tenha condições para continuar“; “Esse lugar já não devia ser ocupado por si” – afirmou Eurico Brilhante Dias dirigindo-se a Fernando Alexandre no debate sobre o estado da nação e o próprio José Luís Carneiro concluiu: “Se fosse Montenegro, este ministro não estaria em funções”.
Até que apareceu um atrelado apreendido na Operação Pacoba (os nomes das operações policiais em Portugal impõem que se faça um livro sobre o assunto!) — “em causa está um atrelado apreendido numa operação de tráfico de droga que acabou nas instalações da Construbarcelos, empresa pertencente ao empresário. Segundo apurou a TVI, a autorização para que o atrelado fosse retirado do parque de apreensões das autoridades foi dada pelo próprio Luís Neves, numa altura em que ainda exercia funções como diretor nacional da Polícia Judiciária“. E depois os bidões que tinham estado dentro do atrelado: “além do atrelado, também dezenas de bidões com produtos químicos utilizados no processamento de cocaína estiveram armazenados na Construbarcelos. Segundo a PJ, os recipientes não continham droga nem substâncias estupefacacientes, mas produtos químicos. De acordo com o Público, os bidões já não estavam dentro do reboque, encontrando-se armazenados nas instalações da empresa.”
E agora? Ao tempo a que escrevo, sábado à noite, Luís Neves está transformado numa matrioska de casos que desafiam o mais elementar bom senso. Até pode suceder que, no momento em que este texto estiver disponível para leitura, Luís Neves já não seja ministro da Administração Interna. Mas seja qual for o desfecho deste caso, por agora só posso tirar uma conclusão face ao que se sabe: Luís Neves não tem condições para continuar ministro. Dissolveu-se.
