Ministro da Administração Interna deve demitir-se? – Observador

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“E o Vencedor É?”, na Rádio Observador e também em vídeo, no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite de França e o Nuno Gonçalves Poças. Vamos à entrevista do ministro da Educação, Fernando Alexandre, na RTP, entrevista na qual o ministro admite regressar aos exames em papel. E também temos uma outra entrevista, neste caso de José Luís Carneiro, no Público e na Renascença, para mostrar que tem condições para deixar passar o orçamento do Estado para 2027. Mas também temos aqui a pairar a hipótese de uma eventual comissão parlamentar de inquérito aos mandatos de Luís Neves na Polícia Judiciária. E é por aqui que arrancamos. Nuno Gonçalves Poças, faz sentido pensar numa comissão parlamentar de inquérito?
Em teoria, sim. Parece uma telenovela, uma coisa meio latino-americana. Revela várias coisas, mas uma delas, que eu acho que é talvez a mais importante, e depois podemos partir para o resto, é o facto de, que eu acho que é uma evidência, se o doutor Luís Neves não tivesse sido nomeado ministro da Administração Interna, nós de facto continuaríamos na penumbra e ninguém saberia nada destas coisas. O que é bastante revelador da forma como nós escrutinamos uma grande parcela, bem mais de 90 e tal % do Estado, e de como no final do dia, neste caso estamos a falar exatamente da mesma pessoa, mas no final do dia, a responsabilidade é sempre imputada ao ministro, que é mediaticamente visível, que é politicamente mais facilmente destruído, e andamos aqui um bocadinho ao sabor disto. Depois do ministro, há toda uma cadeia alimentar que vai fazendo, imagino eu que em alguns casos, espero eu que na maioria, bem, noutros se calhar não assim tão bem, e muitas daquelas coisas que nós vamos vendo sucessivamente. Este caso é um bocadinho grotesco, mas todas aquelas histórias de tráficos de influências, favores, enfim, tudo aquilo que nós vamos conhecendo, algumas coisas do domínio criminal, outras só do domínio ético, vão acontecendo sem que nós saibamos, embora eu tenha a absoluta certeza de que a generalidade do país tem essa percepção, mesmo que beneficie dela nalguns casos diretamente ou que conheça os casos diretamente.
É o sistema.
No seu caso em concreto, nunca se passa nada de especial, mas quando se trata do quintal dos vizinhos, são coisas muito graves.
No seu caso, há sempre uma justificação forte.
Sim, exatamente. Há sempre um bom motivo.
Claro.
Este caso do Luís Neves, de facto, é surpreendente de certa forma, mas eu acho que aqueles que foram críticos da nomeação do diretor da PJ para o lugar de ministro da Administração Interna diretamente e em tão pouco tempo, todos aqueles que criticaram essa escolha, pelo menos eu vou falar por mim, estávamos um bocadinho longe.
Já quero ir a isso, deixa-me só ouvir primeiro a Judite. Quero regressar a essas críticas, nomeadamente ao que disse Pedro Passos Coelho. Judite, ouvimos aqui esta tarde Cristina Rodrigues, deputada do Chega, também Mário Morais Lopes, deputado da Iniciativa Liberal. Ora o Chega mantém esta ameaça, diz que não quer, mas poderá avançar para uma comissão parlamentar de inquérito, e Mário Morais Lopes, ou neste caso a Iniciativa Liberal, está ainda a aguardar por eventuais esclarecimentos antes de chamar o ministro ao Parlamento.
Também só lhe dá um fim de semana, não é? Mais um fim de semana.
Sim, a minha dúvida é: por que não chamam?
Pois eu percebi que chamariam já a partir de segunda-feira se até lá não houvesse nenhuma explicação.
Não é o Parlamento o sítio certo para-
É o Parlamento o sítio indicado. Eu não sei se será indicado para fazer uma comissão de inquérito, porque uma comissão de inquérito, como diz o Chega, para recuar nessa intenção, seria um escrutínio à própria Polícia Judiciária, seria um escrutínio aos mandatos de Luís Neves na Polícia Judiciária, e isso eventualmente poderia ser complicado. E, portanto, na comissão permanente, no Parlamento, seria ouvido exatamente naquilo em que há dúvidas, que são casos específicos, não é agora fazer uma espécie de prova a tudo aquilo que se passou nos últimos anos na Polícia Judiciária.
Nunca mais saíamos daqui.
Nunca mais saíamos daqui.
Ainda tínhamos que ir ao Fernando Gomes e aquelas coisas todas.
Podia ser complicado. Se descobríssemos outras coisas igualmente cabulas como temos descoberto. E está em causa uma instituição.
Que goza de grande prestígio nacional e internacional Porém?
Porém, estes casos não abonam nada em favor nem do diretor nacional, nem da instituição em si.
E espantam-nos?
Como é que eu te dizer?
Não.
É, não é? É.
Eu acho que o facilitismo não nos espanta em nenhuma dimensão do Estado.
Não, exatamente, é isso. É uma prática que, como eu estava a dizer, é conhecida de toda a gente, que é: “Dá um jeito, não sei o quê, arranja aqui uma coisa.” Isto só se torna grotesco na medida em que nós estamos a falar, parece aquele efeito borboleta. Que de repente se dá uma pancada numa coisa e de repente há uma megaoperação de tráfico de droga que pode ser colocada em causa, o processo pode cair, prova anulada. É uma espécie de mini latino-americana, uma coisa quase de Escobar de série. O diretor da PJ, passa um outro lado que ainda tem uma coisa de um tráfico de droga, e toma lá isto, e ninguém sabe muito bem quem é aquele construtor, e depois arranjou-lhe umas coisas. Falta aparecer aqui alguém raptado. E ter o ministro da Administração Interna, ainda por cima antigo diretor nacional da Polícia Judiciária, no meio desta embrulhada. Eu consigo perceber, não sei se o senhor ministro está a ouvir ou não, não sei se vou ajudar. A ideia de lhe dar agora um fim de semana para prestar aquelas coisas que nós gostamos de dizer, que queremos esclarecimentos, que venha lá explicar, cabais, o que é que aconteceu. Eu não sei, se calhar posso estar a ter alguma falta de imaginação, porque estamos em julho e estou cansado, mas que espécie de justificação cabal é que nós estamos à espera de ouvir? Que lógica é que pode estar por trás de retirar objetos que estão apreendidos à ordem de processos, pedir aos próprios inspetores da PJ para fazer o transporte e entregá-los ao tipo a quem se adjudicaram umas obras e que por acaso fez umas coisas meio manhosas e por baixo da mesa lá na propriedade do diretor nacional da PJ. Isto provavelmente é uma espécie de grelha, que é: tens aqui o fim de semana para ficar a tostar, vais dizer qualquer coisa, vais te esticar ao comprido e depois a partir daí, acho que já não há como e vamos avançar. André Ventura deve estar a colecionar uma lista de coisas para uma moção de censura, que é para depois chegar eventualmente até antes do final do ano. Isto, isto, isto. E depois o país vai olhar para aquilo e não tem como contestar, que é uma coisa que me chateia.
Vamos regressar a Pedro Passos Coelho, que na altura, quando foi conhecido o nome de Luís Neves para Ministro da Administração Interna, criticou a opção por não entender e por achar perigoso que um responsável policial transite para o governo. Essa crítica, tu dizias aqui há pouco que estávamos longe de pensar que isto iria acontecer agora.
Que chegava a este nível de grotesco, sim. Mas a possibilidade existia de haver problemas.
Ou seja, Pedro Passos Coelho tinha razão?
Não, eu tinha razão antes de Pedro Passos Coelho.
É verdade.
Porque no dia em que soube que o doutor Luís Neves tinha sido nomeado, eu estava aqui sentado nesta cadeira e eu também disse que me cheirava a esturro e que não achava grande ideia. E portanto, o doutor Pedro Passos Coelho só falou disso dias depois. Mais uma vez, Pedro Passos Coelho é possista e concordou comigo. E esteve muito bem. Eu acho que claro que tinha razão. Eu sei que o senso comum e o bom senso não são necessariamente a mesma coisa. Mas neste caso em concreto, acho que são. Bom senso e senso comum são. Eu sei que agora muita gente está chateada, e até já houve quem eu tivesse dito de forma mais ou menos direta, que: “Eu estava tanto a contar com este ministro para fazer o combate ao Chega.” Eu estava a contar com este ministro, com este ou com outro qualquer, para garantir a administração interna e a segurança pública dos cidadãos. Normalmente, é para isso que serve o ministro da Administração Interna e não para combater o André Ventura. E portanto, percebo que isto agora esteja muita gente a roer os nós dos dedos porque não era bem isso que estávamos à espera. Mas isto é o princípio que tem que estar por trás disto. Claro que não é boa ideia o ministro das Finanças ser governador do Banco de Portugal. Claro que não é boa ideia o diretor da PJ ser ministro da Administração Interna. Quer dizer, qual é a dúvida?
Qual é a dúvida? Diz.
Eu confesso que na altura, também não tenho tantos estudos como tu, não cheguei aí.
É porque és melhor pessoa.
Não conseguia antever problemas desse cruzamento de funções. Mas objetivamente agora, e agora é fácil também.
Totó Bola à segunda-feira.
Exatamente. Agora é fácil dizer, de facto, não foi grande ideia.
Ou se calhar foi.
Porque acanheta uma série de problemas, aparentemente.
Não sei, eu ainda continuo aqui. Acho que nos podemos todos tornar um pouquinho conspiracionistas com este episódio todo. Se calhar foi uma boa ideia, não sei. Eu continuo a não achar que a ideia tinha sido ingênua, de levar alguém que era altamente conectado com o PS para um governo da AD.
Mas isso seria-
Com ideias muito diferentes daquela que era a política da AD, nomeadamente em termos de imigração e de segurança. E portanto, nada disto bateu certo desde o primeiro dia.
Mas aí podia ser um fator de congregar, digamos, de alguma forma, de não hostilizar totalmente o Partido Socialista. Na altura foi assim que eu li.
Para quê?
Com o BA?
Não, porque há um Orçamento de Estado e não se pode contar com o Chega para ele.
Sim, mas há um Orçamento de Estado na mesma e agora o Orçamento de Estado afinal aparece em outras condições.
Pois, há outras condições para o Orçamento de Estado, é um facto, mas também na altura não era possível antever esta trapalhada.
Querem dar alguma nota?
Não sei, acabámos por não falar de José Luís Carneiro.
Não, já lá vamos.
Já vamos.
Temos sete minutos na segunda parte.
Ainda temos que ir ao ministro da Educação.
Não, o ministro da Administração Interna vai atrelado.
Eu ao ministro da Administração Interna, depois das declarações outra vez a dizer que vai explicar tudo, mas que não explica nada, dou-lhe um 2.
Judite, vamos à entrevista do ministro da Educação na RTP, onde admite que poderá voltar ao papel?
Sim, basicamente foi uma grande entrevista ao Vítor Gonçalves, foi uma hora de entrevista e a dada altura admitiu que caso os problemas persistam na segunda fase, então admite recuar na prova digital.
Seria um bom sinal.
Seria um bom sinal.
Não, segundo o próprio, que seria um péssimo sinal.
Seria um péssimo sinal, claro.
Não o põe como hipótese.
Sim, quer dizer, não afasta a hipótese.
Sim.
Mas sim, seria um péssimo sinal depois de tudo isto voltar atrás. Era sacrifício e sofrimento em vão. Depois teve momentos da entrevista que eu achei importantes. Um deles foi assumir-se como o último responsável pelas falhas no processo de avaliação dos exames nacionais, mas afastou o cenário de negligência grosseira. Eu acho que ninguém acusa o ministro de negligência grosseira. Eu acho que houve, de facto, muitos problemas no processo, mas acho que não houve dolo na forma como isto foi feito.
Sabes que há uma diferença entre negligência consciente e dolo eventual.
Sei. Mas eu assumi que ele estava a referir-se a isso.
O dolo para quem vai no carro e não sabe, não há uma intenção maldosa no fundo.
Não é bem isso, mas vamos demorar imenso tempo. Desculpem.
Pronto. Ainda bem que há um advogado no estúdio.
Exato. Eu queria deixar uma nota porque hoje estava a ouvir mais uma estudante que tinha ido ver a sua prova e que na prova detetou uma série de erros. E eu acho que isto de ver o exame é uma possibilidade que não existia antes. Antes não tínhamos acesso aos exames.
Ainda bem. Desculpa.
Não sei.
Estou a brincar.
Aparentemente serve para encontrar muitos erros.
Se alguém tiver exames meus, destrua-os.
A questão é: é erros a mais do que antigamente ou o facto de agora os alunos poderem ver a prova é que faz com que se encontrem mais erros que antigamente, essa possibilidade não existia? Eu fico na dúvida. Em relação à questão do prazo de candidaturas ao ensino superior, eu acho que o ministro ainda não se dedicou a isso porque está a pensar ainda nesta segunda fase, mas eu continuo a achar que o prolongamento do prazo de candidaturas por razões de segurança do processo devia acontecer e o adiamento de um ou dois dias da segunda fase dos exames nacionais também não prejudicaria ninguém. A razão é que não há ainda uma segurança total nas classificações atribuídas e há alunos a pedir a reapreciação, a revisão das provas. E portanto, eu acho que nesse caso, num contexto mais amplo de muita instabilidade, muita imprevisibilidade, eu acho que aumentar os prazos seria do mais elementar bom senso.
Queres deixar já uma nota?
Eu gostei da entrevista de Fernando Alexandre e fiquei com uma melhor impressão depois desta entrevista daquilo que o ministro tem tentado fazer para resolver esta trapalhada, portanto vou lhe dar um 10.
Sim, eu acho que vou manter o meu 12 que eu tenho dado ao ministro desde o início. E ontem, de facto, eu concordo, acho que a entrevista foi muito boa e acho que nos dá, em primeiro lugar, de facto, a sensação de que há um ministro que está a tentar.
Eu acho que ele está mesmo a batalhar.
Está a tentar fazer qualquer coisa e, de facto, aquilo não é como outros, mas o Ministério da Educação há muitos anos que não é a coisa mais fácil de se gerir e tentar fazer alguma coisa. O próprio Nuno Crato, acho que o professor Nuno Crato esta semana falava sobre isso, que se calhar o ministro podia ver ganhos de eficiência que podiam não ser justificados com o risco que isto comportava. E de facto, eu percebo a lógica, mas é uma visão também já de alguém pessimista que também já passou pelo cargo e que percebe perfeitamente a dificuldade que aquilo comporta. Esta não é uma espetacular reforma, é um processo de simplificação que introduz aqui uma mudança e isso nunca foi discutido. Traz transparência, traz mais rigor, equidade, etc. E portanto, teremos acho que também enquanto sociedade, e a comunicação social também tem um papel importante nisso, nós também temos aqui um lado importante que é de percebermos que este é um processo importante e portanto terá as suas fases de ajustamento e que passará inevitavelmente por dificuldades. Não podemos é fazer com que este processo, que não é a última coisa do mundo, que seja destruído logo, matar o bebê logo com a água do banho. E portanto, eu dou-lhe uma nota positiva. Vou só dizer isto para terminar. Deu ali uma coisa que de facto eu acho que é notável e que explica tudo o resto, que não tem necessariamente a ver com isto, que é quando diz que só para recursos humanos, no Ministério da Educação, havia três diretores-gerais. E quando perguntou aos três quantos professores havia no Ministério da Educação, nenhum lhe soube responder. Se isto não explica o estado em que o Estado funciona, então deixe o homem tentar fazer qualquer coisa.
E amanhã mais “E o vencedor é”, nas manhãs, 360, depois das 08h30, amanhã com a Ana Sanles e Alexandra Machado, a juntarem-se ao Jamil Fernandes e ao Bruno Vieira Amaral.
