Milhares de euros, segredos e uma arma: as buscas ao espião – Observador

Milhares de euros, segredos e uma arma: as buscas ao espião – Observador



Há outros dois bolsos na mala de viagem que ainda não foram explorados, um de cada lado. No do lado direito, os inspetores encontram 67 notas de 100: 6.700 euros. No outro há 13 notas. Mais 1.300 euros.

Além daquela mala de viagem, no roupeiro estão penduradas várias peças de roupas: calças, camisas e casacos. Um inspetor coloca a mão no bolso interior de um blusão verde e encontra mais um envelope branco, desta vez com uma referência ao “Grand Cehavir Hotel” — um cinco estrelas, em Istambul, na Turquia. Dentro do envelope, o inspetor encontra mais dinheiro. Entre notas de euro e francos suíços, só ali, estão mais 15 mil euros.

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Ao todo, a PJ encontra 36.400 euros em dinheiro nesta casa. Os responsáveis pela investigação não têm dúvidas de que aquelas notas só podem ter uma explicação: é parte do dinheiro que Frederico Carvalhão Gil foi recebendo, ao longo de vários anos, para passar informações classificadas aos russos.

Ainda há outro elemento naquela divisão a reforçar as convicções dos inspetores. E, tal como as notas, está espalhado um pouco por todo o lado. São as dezenas de documentos classificados.

Em cima de cómodas, no chão, junto ao roupeiro, ao fundo do quarto, em cima de uma arca. São os papéis com que os inspetores se depararam assim que se aproximaram da porta do quarto de Carvalhão Gil. Muitos dos documentos estão marcados como “confidencial”. São informações classificadas, que nunca deveriam ter saído da sede do SIS, e muito menos poderiam estar ali, num apartamento residencial no Lumiar, sem qualquer tipo de controlo sobre quem tem acesso a eles.

“Havia aqui uma atividade deliberada, consentânea com todo o comportamento que ele teve. Gravou pessoas dentro do serviço e não foi por acaso, como ele também diz. Porque não é. Trouxe a informação que tinha no quarto, na casa dele, pilhas de papéis que não podia ter e documentos altamente confidenciais e, portanto, abandalhou completamente o cargo que exercia”, defende Manuela Santos, antiga coordenadora da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da PJ e que também esteve ligada a este caso.

No chão, entre a mesa de cabeceira e o roupeiro, a PJ encontra outras sete folhas suspeitas. A inscrição no cabeçalho deixa a equipa ainda mais apreensiva sobre a dimensão das informações passadas aos russos. O documento está classificado como “NATO Secret Limited.” É de outubro de 2015. Trata-se de informação recente, que foi produzida apenas um mês antes do encontro de Frederico Carvalhão Gil com o espião russo Sergey Pozdnyakov, em Liubliana. E é extremamente sensível — é o próprio SIS quem transmite essa informação ao Ministério Público.

À mesma hora, uma outra equipa da Polícia Judiciária está no Cacém, na segunda casa que o espião tem em nome dele e onde vive uma mulher de origem russa que se apresenta aos inspetores como “amiga” de Carvalhão Gil. Conta-lhes que vive ali há anos e que não paga renda — é um favor que o homem das secretas lhe faz, revela.

Aí, a Judiciária vai encontrar mais documentos classificados. Na sala, num móvel ao fundo, está um relatório da Unidade de Ação Contra Terrorista da PJ. As 17 folhas estão dentro de um envelope A4, castanho pardo, onde se lê a indicação: “CONFIDENCIAL.” No quarto, há mais um documento “CONFIDENCIAL”. Um relatório interno do SIS, com três folhas tamanho A4. Estão rasgadas numa das extremidades.

Há também vários cartões de memória que os inspetores recolhem. Num móvel da sala, encontram mais telemóveis e vários cartões SIM. Por entre alguns livros, dissimulado numa das divisórias, está um revólver. Um Taurus, modelo 32, Long. Não tem qualquer munição.

Um especialista em informática da Unidade de Contra Terrorismo da PJ vai analisar o conteúdo das dezenas de cartões de memória encontrados nas casas de Carvalhão Gil. No interior, há muitas fotografias. Algumas já tinham sido apagadas, mas o inspetor consegue recuperá-las.

Nas imagens, veem-se várias zonas no interior da sede do SIS: a sala de formação, os departamentos operacionais, o interior do bar do torreão, no Piso 0 do Forte da Ameixoeira, e até a área de receção do gabinete do secretário-geral do SIRP, que tutela todas as secretas.

Há pelo menos uma dezena de funcionários nas imagens. E algumas fotos parecem ter sido obtidas de forma dissimulada, sem que os espiões portugueses se apercebessem de que estavam a ser fotografados.

Confirmam-se as suspeitas. Seis meses antes desta operação de buscas, o secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa, responsável máximo das secretas em Portugal, enviou uma carta à então procuradora-geral da República a denunciar Carvalhão Gil: os serviços estavam convictos de que o homem do SIS estavam a ser pago pelos russos para lhes entregar informações sensíveis e, ao mesmo tempo, suspeitava-se de que tivesse andado a recolher dados e imagens de outros funcionários dos serviços e que essa informação também tivesse chegado às secretas russas. Agora, os inspetores tinham a certeza.





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