Flip: Socorro Acioli fala sobre insólito na Casa Folha – 24/07/2026 – Ilustrada
Em compensação, encanta-se com as histórias mais aleatórias que lhe chegam, às vezes do nada. Como o homem que interrompeu seu jantar, sentou-se à mesa e contou: “Sabia que eu fui dentista do Fagner?”.
“Mandei uma mensagem para o Fagner com a foto: ‘esse cara foi seu dentista?’. Aí o Fagner respondeu que sim.”
É esse tipo de episódio improvável que alimenta a literatura de Socorro Acioli, que conversou com Walter Porto, editor de Livros do jornal, na Casa Folha, nesta sexta (24). Autora de “A Cabeça do Santo” e “Oração para Desaparecer”, ela lança nesta Flip “Amar É Inadiável”, coletânea de textos que escreveu entre 2015 e 2022 para jornais.
A audiência riu muito. Socorro mais ainda. Mas não se engane. “Eu choro muito fácil, então tenho essa estratégia de já colocar tudo na chave do humor para me proteger”, afirma. “Quando tem psicanalista na plateia, saca na hora.”
A graça convive com inseguranças pouco conhecidas de uma autora consagrada. Desde que passou a escrever sua coluna semanal na Folha, diz atravessar um ritual que se repete a cada entrega.
“Toda semana tem crise. Acho que vão dizer que dessa vez não vai dar para publicar.”
Ela conta que demorou para entender qual seria seu lugar em meio ao noticiário pesado do jornal. Depois percebeu que seus textos podiam funcionar como uma pausa na avalanche de notícias, recuperando acontecimentos quase inacreditáveis.”
“Entendi que existe um espaço para essas histórias, esse respiro”, disse a única brasileira selecionada por Gabriel García Márquez para uma oficina de contos, em 2006.
Segundo ela, há uma resistência particular quando mulheres fazem elogios a si mesmas, ainda que em tom evidentemente bem-humorado. “Porque, em geral, quando uma mulher se posiciona se elogiando de alguma maneira, sempre vem um homem para dizer: ‘nossa senhora, está errado, não pode’.”
Socorro disse ter medo da Folha e até de Walter Porto, que edita suas colunas no jornal —no que foi uma das primeiras interações entre os dois, a escritora disse que havia tido um pesadelo em que ele assinava uma reportagem pedindo um basta à “literatura aciolista”.
A relação com o jornal começou com um tabefe. Ela lembra de uma crítica publicada pelo jornal quando seu primeiro romance foi lançado. Não era particularmente generosa. O título: “‘A Cabeça do Santo’ tenta, mas não alcança gênero fantástico”.
“Eu acreditei nele. Pensei: ‘é isso mesmo, o livro é ruim’.” Virou best-seller.
Hoje trata o episódio com o humor que, como já adiantou, tanto usa como mecanismo de defesa. Diz que aquela talvez tenha sido a pior crítica que poderia receber e conclui, rindo, que dali em diante só havia espaço para melhorar.
Brinca ainda que, no Ceará, “é muito fácil contratar pistoleiro”, mas faz questão de acrescentar que críticos têm todo o direito de escrever o que pensam.
Embora rejeite transformar a própria biografia em assunto, reconhece que seu jeito de levar a vida aparece filtrado em quase tudo o que escreve. A morte de muita gente querida, como os pais e a avó, lhe deixou uma espécie de compromisso íntimo.
“Eu fiz um pacto com quem já foi. Tenho que viver tudo o que eles não viveram. Tenho que ser feliz por mim e mais quatro. Tenho que ser muito alegre.”
