Este dado assustador mostra o impacto da IA nas redes sociais, segundo pesquisa da USP

Este dado assustador mostra o impacto da IA nas redes sociais, segundo pesquisa da USP


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Um levantamento conduzido por pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) confirmou que a maioria de conteúdos sobre inteligências artificiais generativas (IAGs) nas redes sociais é acompanhado de informações incorretas. A cada dez posts em redes, quatro trazem desinformação sobre IA generativa. A análise, que examinou 5 mil postagens no Instagram e no TikTok, indica um cenário marcado por baixa profundidade, presença de informações distorcidas e pouca discussão sobre segurança. O objetivo era entender não apenas o volume de conteúdos, mas como a inteligência artificial está sendo apresentada ao público.

Elaborado pelos pesquisadores Luiz Joaquim Nunes e Victor de Sales Alexandre, o estudo revelou que o crescimento de interesse por IA, entre os anos de 2022 e 2024, veio acompanhado de distorções, simplificações e lacunas importantes na forma como a tecnologia é apresentada ao público.  Entre 30 postagens analisadas, 16 tratam das formas de uso das IAs generativas, quatro discutem seus riscos e apenas duas conseguem abordar simultaneamente aplicações e perigos. “Na minha avaliação, a mídia não ajuda a enfrentar o problema, ao contrário, contribui para agravá-lo. O alto nível de desinformação acaba potencializando esses riscos ao longo do tempo”, afirma Nunes.

A pesquisa se baseou em uma análise quantitativa de conteúdos públicos coletados a partir de hashtags populares como #inteligenciaartificial, #tecnologia e #chatgpt. O foco recaiu sobre plataformas com grande alcance entre o público geral, e não necessariamente especializado: Instagram e TikTok.

Para examinar os dados, os pesquisadores utilizaram algoritmos próprios de processamento de linguagem natural, capazes de identificar padrões, termos recorrentes e semelhanças entre postagens. O processo foi complementado por revisão humana, assegurando maior confiabilidade aos resultados. Por questões éticas e de privacidade, o estudo não armazenou os conteúdos originais das postagens, apenas suas classificações dentro das categorias analíticas.

A análise se estruturou em quatro dimensões principais:

  • Profundidade: mede se a postagem traz reflexão própria ou complemento sobre tecnologia;
  • Fidedignidade: avalia se as informações são corretas ou distorcidas;
  • Segurança: observa a presença de discussões sobre riscos e impactos sociais da IA;
  • Aplicabilidade: identifica se há sugestões concretas de uso da tecnologia no mundo real.

A partir dessas categorias, os pesquisadores conseguiram mapear padrões consistentes, e preocupantes. “As IAs não inauguraram essas relações fragilizadas, mas sim estão fazendo coro com a tendência já estabelecida culturalmente há muito tempo. Enquanto a gente não resolver algumas contradições históricas, por exemplo, na relação de produção do próprio trabalho, o que vamos observar é uma reedição do conflito com novas técnicas e novas tecnologias, porque elas acompanham o desenvolvimento da nossa cultura”, pontua Sales.

Quanto mais “profundo”, menos preciso

Um dos principais achados do estudo é a relação inversa entre profundidade e fidedignidade. Postagens que tentam ir além do básico, oferecendo interpretações ou explicações próprias, tendem a apresentar mais erros. Segundo os autores, isso indica que muitos criadores de conteúdo ampliam o discurso sobre IA sem domínio técnico suficiente, o que leva à circulação de informações imprecisas. Por outro lado, conteúdos que apenas reproduzem informações oficiais, geralmente divulgadas por empresas, tendem a ser mais corretos, mas menos críticos e menos aprofundados.

Maniqueísmo

Outro dado relevante é que discussões sobre segurança e impactos sociais da IA aparecem com mais frequência em conteúdos que contêm erros. Isso sugere que preocupações legítimas, como riscos éticos, impactos no trabalho ou uso indevido da tecnologia, acabam sendo apresentadas de forma distorcida, o que compromete a qualidade do debate público. Além disso, a segurança raramente é mencionada em conteúdos mais básicos ou promocionais, indicando que esse tema ainda não faz parte da comunicação oficial dominante sobre IA.

Aplicação prática é pouco explorada ou simplificada

A dimensão de aplicabilidade também teve limitações. Embora parte dos conteúdos apresente usos concretos da IA, isso ocorre com mais frequência em postagens que mantêm fidelidade às informações básicas. Já conteúdos mais “aprofundados” tendem a perder esse foco prático, priorizando especulações ou interpretações abstratas.

Outro ponto destacado pelo estudo é a oposição entre segurança e aplicabilidade: poucas postagens conseguem abordar simultaneamente os riscos e os usos da tecnologia. Na maioria dos casos, os conteúdos escolhem um lado ou promovem soluções práticas sem discutir impactos, ou levantam preocupações sem apresentar caminhos concretos.

Conspiração molda percepção pública

Para além dos dados quantitativos, os pesquisadores propõem uma análise crítica sobre o papel do imaginário na construção do discurso sobre IA.

Segundo o estudo, a forma como a tecnologia é percebida hoje está profundamente influenciada por narrativas ficcionais, que historicamente antecipam medos e expectativas sociais. Desde o mito do Golem até obras contemporâneas de ficção científica, a IA é frequentemente retratada como ameaça ou salvação. Essa herança simbólica se reflete nas redes sociais, onde conteúdos alternam entre visões distópicas, de controle e substituição humana, e utópicas: de solução para todos os problemas.

Um ciclo de simplificação e alienação

Os autores alertam que esse “imaginário mistificador” contribui para um ciclo problemático: a falta de compreensão técnica leva à produção de conteúdos simplificados ou incorretos, que por sua vez reforçam percepções distorcidas, processo que pode afastar o público da compreensão real sobre como a IA funciona e quais são seus limites, dificultando uma relação crítica com a tecnologia.

“Se nossa cultura não promove o desenvolvimento pleno das pessoas, não desenvolve uma relação de trabalho mais adequada, uma relação com a educação, quando a inteligência artificial é incluída nas práticas sociais, ela apenas intensifica aquilo que já está posto.”
— Victor de Sales Alexandre

O papel da educação e da regulação

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que a solução passa por múltiplos atores. Universidades, empresas, governos e produtores de conteúdo têm responsabilidade na construção de um debate mais qualificado.

Entre as medidas apontadas estão:

  • ampliação da alfabetização digital;
  • divulgação de informações acessíveis e baseadas em evidências;
  • incentivo ao pensamento crítico sobre tecnologia;
  • fortalecimento do debate público sobre ética e regulação da IA.

Com informações de Jornal da USP




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