Economista Maurício Borges discute prioridades para projeto de desenvolvimento do Brasil

Economista Maurício Borges discute prioridades para projeto de desenvolvimento do Brasil


O economista Maurício Borges apresentou, no Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), na segunda-feira (6), a palestra “Um Novo Projeto para o Brasil: desenvolvimento, integração e futuro”. Antes do encontro, Borges conversou com o Brasil de Fato MG

Ele é mestre e doutor em Economia Regional e Urbana pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisador e referência nos estudos sobre desenvolvimento regional, planejamento econômico e organização do território. O momento envolveu a reflexão sobre os desafios do desenvolvimento brasileiro, as desigualdades regionais e as estratégias para construir novas perspectivas para o país.

Confira a entrevista: 

Brasil de Fato MG – De que forma a sua trajetória como pesquisador se aproximou dos temas da economia regional, do desenvolvimento e da organização do território?

Maurício Borges  – A minha origem acadêmica remete ao meu mestrado na Unicamp nos anos 1970, realizado entre 1974 e 1975, e posteriormente ao doutorado. Minha preocupação central sempre foi a questão espacial. Naquela época, nos anos 1970, ficou na moda criticar a tese cepalina. 

A Cepal e o seu principal representante no Brasil, Celso Furtado, defendiam que as economias da América Latina são periféricas e possuem uma dificuldade estrutural de inserção na economia mundial, pois produzem essencialmente produtos primários, o que limita sua dinâmica e a torna dependente. Sem uma boa inserção, essas economias ficam limitadas.

Tanto os economistas de direita quanto os de esquerda descartaram as teses cepalinas, devido ao chamado “milagre econômico”, no início dos anos 1970. No entanto, nunca voltaram a resgatar essa teoria, mesmo quando, no final dos anos 1970, a economia brasileira começou a desacelerar com inflação e, nos anos 1980, entrou em crise aguda, com a inflação ultrapassando 100% ao ano.

A ditadura militar acabou e, desde 1980, a economia brasileira permanece semi-estagnada. No fundo, a tese cepalina continua de pé. Ela foi descartada porque a natureza humana não gosta de problemas difíceis. O meu livro aborda alguns fragmentos do que o Brasil poderia fazer para sair dessa situação periférica, o que exige a presença do Estado. 

O dilema é que sem o Estado é impossível, e com o Estado é quase impossível, pois ele possui suas próprias mazelas. Não existem soluções simples, sejam elas totalitárias, ditatoriais ou democráticas. A longo prazo, mostrou-se que a ditadura (seja de esquerda ou de direita) não é mais eficiente e apresenta limitações extremas. Portanto, aprimorar o Estado, ou seja, democratizá-lo, é o primeiro requisito do projeto.

O livro foi lançado em 2019 e trás a necessidade de uma reforma política. Outra sugestão discutida refere-se aos limites do crescimento. A direita argumenta que existe um problema fiscal, ou seja, um limite de espaço fiscal que impede o Estado de gastar demais. A esquerda contesta, dizendo que é possível gastar. Contudo, o problema real não é o espaço fiscal, mas sim o espaço cambial e a forma de dinamizar a inserção externa, deixando de ser dependente de produtos primários.

Sua palestra tem como tema “Um Novo Projeto para o Brasil: desenvolvimento, integração e futuro”. Qual é a principal tese dessa proposta?

Além do problema antigo que mencionei, temos um problema novo, que é geral do capitalismo: uma crise mundial, social e econômica. Na dimensão social, os empregos estão cada vez mais precários e a classe média está encolhendo em todos os países, inclusive no Brasil. 

Aquele perfil de trabalhador antigo, com salário estável em grandes fábricas, está se reduzindo a quase zero. Ainda há muito trabalho, mas ele está fragmentado em pequenas empresas, negócios por conta própria e médias empresas. Isso altera a agenda tanto da esquerda quanto da direita. 

Esse é um problema trazido pela era das tecnologias de informação (TI) e, para o Brasil, esse é mais um problema a ser pensado. Isso não está no livro original, mas publiquei no ano passado a minha tese de doutorado sobre a dinâmica centro-periferia e eu incluí um pós-fácio discutindo esse problema da era da TI.

Outro ponto crítico atual é a Câmara dos Deputados, que se tornou um caso de polícia. Precisamos de uma reforma política porque o sistema de voto proporcional adotado no Brasil é um resquício do antigo voto coronelista e de curral. Ele difere do voto distrital, no qual cada eleição funciona como um plebiscito. 

No sistema proporcional, muitos eleitores não sabem em quem votaram, o que facilita a compra de votos e o surgimento de um novo coronelismo nas regiões periféricas. Esse novo coronelismo mistura alguns segmentos de igrejas evangélicas, milícias e tráfico de drogas. Como exemplo, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro foi preso por ligações com o comando do tráfico. A Câmara dos Deputados Federal, eleita pelo voto proporcional, reflete essa mesma estrutura. Portanto, a reforma política é indispensável.

Em segundo lugar, quando o Estado constrói estruturas, a possibilidade de esquemas de corrupção é muito grande. É preciso encontrar mecanismos alternativos. O livro discute algumas alternativas e concessões, sem apresentar uma solução única, mas sugerindo caminhos. 

Discute-se a necessidade da presença do Estado para o setor produtivo, o que requer um câmbio competitivo, ou seja, desvalorizado. Esse problema cambial existe desde a chegada de Dom João VI em 1808 e a fundação do Banco do Brasil. Politicamente, o câmbio mais fácil e conveniente é o mais valorizado possível. Contudo, com o câmbio valorizado, o país fica preso apenas aos setores em que possui vantagens comparativas naturais, como os recursos naturais, resultando em semi estagnação. Esse é o problema estrutural.

O economista Bresser Pereira retomou as teses cepalinas e passou a defender a desvalorização cambial. Economicamente, a proposta dele é correta, mas politicamente é inviável a princípio, pois um câmbio muito desvalorizado gera inflação como processo corretivo, o que a sociedade não aceita. 

Um exemplo radical disso é a Argentina, que vive ciclos recorrentes. Atualmente, a Argentina está com o câmbio valorizado, apresentando um déficit enorme em transações correntes e tornando-se cara demais, o que reduz o turismo de brasileiros. Quando falta dólar, o sistema entra em colapso; a Argentina só não quebrou recentemente porque o Fundo Monetário Internacional (FMI) repassou recursos ao governo Milei.

Esses dilemas são visíveis no cotidiano, como na discussão sobre a “taxa das blusinhas”. O câmbio efetivo inclui os impostos, e uma das soluções propostas é justamente o uso de mecanismos tributários. A taxação sobre as compras internacionais foi implementada, gerou desgaste político explorado pela extrema direita, foi revogada e agora será retomada. 

Outro exemplo envolve os chineses, que estão construindo uma fábrica de automóveis elétricos na Bahia. Eles vinham importando muitos veículos prontos, alegando a necessidade de criar uma base de consumidores antes de iniciar a produção interna. A taxação de 50% sobre esses importados foi adiada por mais seis meses devido à pressão do governo da Bahia, após os chineses ameaçarem cancelar o projeto da fábrica caso a cobrança não fosse postergada. 

Esses exemplos mostram como lidar com o câmbio efetivo e dar competitividade à produção nacional é politicamente complexo. O livro oferece sugestões para mitigar esses problemas, mas a solução definitiva passa pela política.

Sobre a era da TI, há também um desafio para a esquerda. Ela está desconectada do mundo do trabalho porque a luta sindical tradicional perdeu relevância. O mundo do trabalho atual é composto majoritariamente por trabalhadores por conta própria e pequenas unidades. 

A resposta para organizar esses trabalhadores e as médias empresas é o cooperativismo. Na era da TI, o principal adversário não é o capital financeiro tradicional ou o imperialismo, mas sim as Big Techs, que detêm o monopólio da informação e se apropriam dos dados de produtores e consumidores. Se o Estado auxiliar na organização de cooperativas, inclusive cooperativas de empresas e de trabalhadores autônomos, será possível oferecer incentivos e segurança a eles.

Essa organização é fundamental para enfrentar a ameaça da extrema direita, que cresce explorando o ressentimento social em tempos de crise estrutural do capitalismo, assim como o fascismo e o nazismo cresceram nos anos 1920 e 1930. A extrema direita não possui um projeto real de desenvolvimento, mas canaliza o ressentimento. Onde se instala, como na Hungría de Viktor Orbán, tenta se consolidar, mas enfrenta resistências devido à conectividade da internet. Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil perderam as eleições e tentaram golpes de Estado muito semelhantes.

Precisamos entender que a mudança na estrutura social altera o comportamento eleitoral. No Barreiro, em Belo Horizonte, região onde o PT historicamente vencia com facilidade, Lula perdeu em 2022. Isso ocorreu porque a base trabalhadora antiga se aposentou e os novos postos de trabalho são precários, restando um grande contingente de trabalhadores por conta própria. 

O mesmo ocorreu em Ipatinga, no Vale do Aço, onde o PT governou por seis mandatos (24 anos) e, em 2022, Bolsonaro venceu em toda a região. A redução dos empregos na Usiminas e o aumento do trabalho autônomo criaram uma base de ressentidos que é capturada pela extrema direita, especialmente os jovens.

As soluções são difíceis; na reforma política, por exemplo, é difícil convencer um deputado eleito pelo voto proporcional a mudar as regras que o elegeram. Por expor isso, minhas análises costumam desagradar tanto a esquerda quanto a direita.

O Brasil continua convivendo com profundas desigualdades regionais. Na sua avaliação, quais são hoje os principais entraves para uma estratégia nacional de desenvolvimento que integre o país de forma mais equilibrada?

Diante da grave ameaça que a extrema direita representa para a democracia, o primeiro passo é construir um bloco democrático comum, unindo a direita democrática e as esquerdas em torno de pontos básicos e razoáveis. Esse bloco precisa ter a clareza de que é necessário realizar a reforma política e democratizar o Estado, eliminando suas mazelas.

Em seu livro Espaço e Capital: um estudo sobre a dinâmica Centro x Periferia, lançado em nova edição em 2025, você afirma que busca preencher uma lacuna da teoria econômica, ao explicar como o capital organiza o espaço. Qual é essa lacuna e por que ela permanece pouco debatida? 

Imagine uma região isolada que produz e exporta apenas mandioca, sem conseguir desenvolver nenhuma outra atividade. Essa região ficará estagnada porque o seu crescimento é determinado exclusivamente pelo nível dessa exportação, sem uma dinâmica interna que puxe a economia. Para romper isso, é preciso criar incentivos para industrializar o produto, como produzir farinha de mandioca, o que requer capital e a atuação do Estado para apoiar o empresariado ou cooperativas. Isso daria mais robustez à exportação e permitiria produzir outros insumos, como adubo orgânico.

A dificuldade na relação centro-periferia é a falta de escala. O Brasil enfrenta problemas de escala. A China, por sua vez, desenvolveu-se de forma dinâmica e capitalista, embora alguns ainda a considerem socialista,  e hoje enfrenta os problemas típicos do capitalismo na era da TI, como a superprodução. Para escoar essa superprodução, a China exporta o problema e faz pressões políticas, como no caso da fábrica de automóveis na Bahia.

A obra tem sido apontada como uma referência para economistas que estudam desenvolvimento regional. O que ela acrescenta ao debate em relação às teorias mais tradicionais?

Não sei se há uma boa recepção. Considero que minha obra é vista como “maldita”, porque toca em assuntos difíceis e desagradáveis que nem à esquerda nem à direita gostam de enfrentar. Eu não apresento uma solução mágica, mas aponto onde estão as feridas, sugerindo caminhos a partir das críticas às teorias tradicionais.

Pensando especificamente em Minas Gerais, quais são os principais desafios e oportunidades para um modelo de desenvolvimento menos dependente da exportação de commodities e mais baseado em inovação e agregação de valor? 

Minas Gerais possui uma base rica de cooperativismo, especialmente no agronegócio, que pode ser utilizada para dinamizar outros setores. A culinária mineira, por exemplo, pode ser mais industrializada e valorizada, abrangendo produtos como queijo, goiabada e cachaça. Além disso, a base de recursos minerais, como o nióbio, oferece nichos importantes que devem ser explorados com novas tecnologias, superando os modelos ultrapassados das décadas de 1960 e 1970.

Contudo, o principal entrave de Minas Gerais é financeiro. O estado está estruturalmente falido, ao lado do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Esses três estados possuem folhas de pagamento que consomem 90% ou mais de suas receitas. Esse problema vem desde o final dos anos 1980.

Embora tenham sido afetados pela Lei Kandir, que desonerou exportações, a compensação federal foi transformada em emenda constitucional em 2021. Além disso, a crise financeira desses estados já existia dez anos antes da criação da Lei Kandir, no final dos anos 1980.

O atual governador de Minas Gerais, Romeu Zema, adota um discurso de bom gestor, mas a verdade é que ele simplesmente parou de pagar a dívida com a União e não realizou uma negociação definitiva. Recentemente, foi apresentada uma proposta de acordo com o governo federal que é bastante favorável ao estado, mas a gestão estadual tem sido negligente.

Em 2019, primeiro ano da gestão Romeu Zema, a dívida consolidada de Minas Gerais era de aproximadamente R$ 113 bilhões. Ao final de 2025, o valor ultrapassou R$ 201 bilhões. Por que você acredita que a dívida aumentou tanto nesse período?

A dívida aumentou porque o governo estadual não pagou as parcelas e não negociou o saldo devedor. Pagou-se apenas o mínimo indispensável, sem resolver o problema estrutural. O governador evitou assumir a responsabilidade pela situação financeira.

Minas Gerais sempre foi reconhecida historicamente pela estabilidade política e por governadores eticamente razoáveis, mesmo durante o período da ditadura militar, como Aureliano Chaves, Ozanam Coelho e Francelino Pereira. A gestão atual destoa desse padrão histórico, o que é preocupante.

Nas eleições presidenciais, o PT e Dilma Rousseff venceram em Minas Gerais no passado graças ao voto nos municípios menores e no interior, compensando as perdas na Região Metropolitana de Belo Horizonte e no Vale do Aço. Essa votação no interior é sustentada por populações que dependem de programas sociais, como o Bolsa Família, e de aposentadorias rurais. 

Essa população possui memória política, e o reajuste real do salário mínimo promovido pelo governo Lula reforça esse vínculo, o que ajuda a equilibrar o cenário político no estado, embora a eleição para governador não tenha o mesmo caráter plebiscitário da eleição presidencial.

Poderia indicar três prioridades para um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento?

A primeira prioridade é a reforma política, para sistematizar a estrutura de representação do país e definir como o Estado deve atuar sem gerar efeitos colaterais negativos, como a corrupção. 

A segunda é a busca por um câmbio competitivo, o que é politicamente difícil, mas necessário para a competitividade do setor produtivo. A terceira prioridade, no âmbito econômico e social, é o fortalecimento do cooperativismo. 

Um setor cooperativo forte, que integre desde pequenos produtores até trabalhadores por conta própria, tornará o país mais competitivo e sustentável, permitindo que a sociedade se aproprie das informações e evite o monopólio das Big Techs.





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