Com eleições e recorde de emendas, apoio a Lula recua no Congresso, mostra levantamento
O Congresso Nacional entrou em recesso no último sábado, 18. O retorno dos parlamentares a Brasília está previsto apenas para 10 de agosto, data de início da primeira das duas semanas de esforço concentrado que deputados e senadores farão antes das eleições. Com isso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá uma janela curta para tentar aprovar seus últimos projetos de forte apelo social. A tarefa, no entanto, não deve ser fácil.
É o que aponta levantamento da Ética Inteligência Política, que mede semestralmente a governabilidade do petista. Segundo a consultoria, o apoio aos projetos prioritários do governo no Senado caiu de 75%, no primeiro semestre de 2025, para 38,5% no mesmo período deste ano. Na Câmara, o índice também recuou, de 58% para 38,1%. O resultado foi influenciado pelo distanciamento entre o Palácio do Planalto e partidos do Centrão, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos.
A queda no índice de governabilidade de Lula também é explicada pelo aumento das emendas parlamentares, que ampliam a independência do Legislativo em relação ao Executivo. Como mostrou o Estadão, até 4 de julho, o governo havia pago R$ 33,89 bilhões em emendas a deputados e senadores, o maior valor da história para um período pré-eleitoral.
“Com os números recordes de emendas parlamentares e, consequentemente, maior autonomia do Congresso, o governo tem enfrentado mais dificuldades para articular suas prioridades, dependendo cada vez mais de acordos construídos em torno de cada pauta. O levantamento apresentado na Conjuntura Política Semestral evidencia essa mudança de comportamento”, disse a sócia da Ética, Carolina Venuto.
Segundo ela, embora exista um núcleo de partidos com posicionamento mais previsível, uma parcela significativa das bancadas decide seu alinhamento de acordo com o contexto político de cada votação, considerando a repercussão do tema, o custo eleitoral da decisão e os acordos firmados entre as lideranças. “E em ano eleitoral, essa lógica se intensifica. Além das negociações entre Planalto e Congresso, também entram nas negociações os interesses das disputas estaduais, das alianças eleitorais e da construção de narrativas para a campanha”, acrescentou.
Apesar do volume recorde de emendas, o governo não conseguiu aprovar algumas de suas prioridades no Congresso antes do recesso. O principal destaque é a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho. O texto recebeu o aval dos deputados no fim de maio, mas teve a tramitação travada no Senado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Outras propostas defendidas pela gestão petista também seguem paradas, como os projetos que regulamentam a inteligência artificial (PL 2.338/2023) e os mercados digitais (PL 4.675/2025), além da PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025).
Carolina Venuto avalia que, com Câmara e Senado em ritmo mais lento até outubro, projetos que exigem grandes negociações só deverão ser analisadas depois das eleições, quando as prioridades tendem a ser reorganizadas a partir do resultado do pleito.
“Com a definição do próximo presidente e com a renovação da Câmara dos Deputados, essa dinâmica naturalmente se reorganiza. Se Lula for reeleito, a tendência é que o governo retome pautas que enfrentaram maior resistência ao longo da legislatura e busque consolidar sua agenda para os próximos quatro anos. Se houver alternância de poder, o novo presidente terá que articular suas prioridades com o novo Congresso, que contará novamente com grande quantidade de recursos em emendas parlamentares”, afirmou.
“Em ambos os cenários, o resultado das urnas redefine a correlação de forças, influencia as negociações políticas e pode mudar o ritmo de tramitação de propostas que hoje estão paralisadas”, disse.
Estadão Conteúdo
