A Era da Revolução Industrial, o Partido dos Trabalhadores e o futuro do Brasil
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- Nicolai Kondratiev dirigiu o Instituto de Conjuntura de Moscou e, na NEP, mostrou que o planejamento estatal deve obedecer às leis de mercado e à capacidade agrícola‑industrial.
- Seu conceito de ciclos longos, divulgado por Schumpeter em “Business Cycles” (1939), o consagrou como “pai da teoria dos ciclos longos”.
- Em 2023, pesquisadores chineses (Leming Hu, Gang Liu e Guiai Gao) publicaram no World Review of Political Economy análise das seis ondas longas de Kondratiev, com gráfico em formato de “V”.
- Dados da ACNUR indicam que deslocados forçados por conflitos dobraram na última década, chegando a 117 milhões e agravando a crise migratória nas fronteiras do Norte Global.
Estamos na “era da Revolução Industrial”, pois ela mudou o destino da humanidade, ao induzir a internacionalização do capitalismo como um sistema econômico e social, alcançando uma fase imperialista que se iniciou na virada do século XIX para o século XX. Ao mesmo tempo em que viabilizou o surgimento de experiências não capitalistas, que praticamente desapareceram do Leste Europeu no final do século XX, mas que ainda teimam em resistir no Leste Asiático no século XXI. Essa constatação, por si só, é uma exposição de motivos significativa, que justifica a investigação das ondas longas econômicas como manifestações produzidas pela evolução do modo de produção capitalista, refletindo tendências de longo prazo, e que desde meados do século XVIII esse processo assumiu a forma de expansão da própria Revolução Industrial.
Para analisar as atuais oportunidades de saltos no desenvolvimento industrial-tecnológico brasileiro, queremos localizar o Brasil no que estamos chamando de “era da Revolução Industrial”, através de uma breve periodização e estudo das estruturas das ondas longas econômicas. Partindo da perspectiva do materialismo dialético histórico, incluindo não só elementos da econometria, mas considerando o papel da geopolítica, da luta de classes e do maior partido que a classe trabalhadora brasileira conseguiu construir e que hoje está no poder central do país.
O futuro do Brasil está relacionado à capacidade da luta política que está em curso de encontrar uma janela de oportunidade histórica para avanços tecno-industriais e científicos, através de um projeto de nação soberana de longo prazo, que supere os velhos padrões de dependência impostos pelas relações profundamente assimétricas e abusivas com as potências ocidentais.
As Ondas Longas de Kondratiev, onde estamos e para onde vamos?
Nos círculos de estudos da economia política, a teoria das ondas econômicas longas é um ferramental de análise relativamente eficaz para observar tendências que se projetam no futuro. Uma “onda econômica longa” refere-se a um ciclo de duração aproximada de 40 a 60 anos, incluindo as duas fases de onda: recessão (B) e crescimento (A). Durante a década de 1920, o economista Nicolai Kondratiev ganhou espaço no governo soviético devido à sua brilhante competência técnica e à necessidade urgente de o regime reestruturar o país após a Guerra Civil. O Partido Bolchevique tinha carência de cientistas, especialistas e técnicos profissionais, assim Lênin adotou a política de recrutar intelectuais não necessariamente bolcheviques para gerir o Estado, oferecendo-lhes relativa autonomia científica. Nessa situação, Kondratiev liderou o Instituto de Conjuntura de Moscou, o primeiro centro de pesquisas econômicas soviético, foi um dos especialistas que contribuiu diretamente para a aplicação da Nova Política Econômica (NEP), e provou que o planejamento estatal precisava respeitar as leis do mercado, as capacidades produtivas agrícolas e sua relação com o desenvolvimento tecno-industrial.
Mas a principal contribuição de Nicolai Kondratiev que ficou para a história foram os seus estudos sobre a teoria das “ondas longas econômicas”. Embora outros estudiosos já tivessem abordado esse tema anteriormente, o reconhecimento de Kondratiev como o “pai da teoria dos ciclos longos” se deu por parte de vários intelectuais importantes como Schumpeter, especialmente em sua obra “Business Cycles” (1939), popularizando o conceito de “ciclo de Kondratiev”. Na década de 1960, Ernest Mandel foi um dos primeiros a retomar os estudos sobre ondas longas no pós-guerra e previu com precisão o fim da fase de crescimento econômico global que se deu na década de 1970. No Brasil, intelectuais como Inácio Rangel e Theotônio dos Santos também sempre utilizaram essa ferramenta teórica para fundamentar suas elaborações. Mais recentemente, a crise econômica que se abriu a partir de 2008 também voltou a impulsionar estudos preocupados com crises estruturais e ondas econômicas longas.
O estudo sobre as ondas longas obteve avanços importantes e acumula hoje correntes de pensamento que elaboraram diferentes métodos de análise e de periodização para explicar tal fenômeno econômico. A opção desse artigo é analisar as ondas econômicas de longo prazo num viés materialista dialético histórico. Nossa referência acadêmica se encontra brilhantemente fundamentada no artigo: “The Periodization and Analytical Framework of Economic Long Waves: A New Study from the Perspective of Historical Materialism”. O trabalho foi publicado em 2023 no periódico científico World Review of Political Economy, pelos acadêmicos chineses Leming Hu, Gang Liu e Guiai Gao. Esses autores criticam a abordagem tradicional de medir os ciclos de “vale a vale” (de uma crise até a próxima). Para evitar um descompasso com os ciclos de inovação tecnológica, eles adotaram a metodologia proposta pela economista Carlota Perez, que mede os ciclos de “pico a pico”.
Para uma compreensão mais adequada do que estamos tentando apresentar, convidamos o leitor a observar o gráfico abaixo. Em seguida, vamos fazer um esforço interpretativo, analisando em que momento estamos do desenvolvimento capitalista no século XXI e quais as tendências estão se desenhando para o futuro, nos apoiando em autores que possuem uma metodologia analítica similar à nossa.
Figura 1: Ondas longas em perspectiva histórica dialética / Produção: Gibran Jordão
As seis ondas longas em forma de “V”
A imagem acima é uma representação gráfica das seis ondas longas de Kondratiev analisadas de “pico a pico”, cada onda ganha um formato de “V”, com a fase (B) representando um período de recessão ou baixo crescimento, e a fase (A) representando a banda de crescimento/ascensão econômica da onda. Assim, de 1760 a 2030 temos a sistematização de seis ondas longas, atualmente estamos localizados numa fase de recessão/baixo crescimento econômico mundial, ou seja, a fase (B) que dá início à sexta onda longa. Em geral, as fases B – recessão – são também momentos de introdução e/ou ajustes estruturais envolvendo novas tecnologias que estão sendo testadas, aprimoradas e adaptadas, sem ainda terem ganhado ampla aplicação na indústria e nos mercados globais. Superada essa fase, à medida que as novas tecnologias são incorporadas e conseguem dar respostas robustas em produtividade com menores custos, ganhando aplicação concreta em larga escala global, entramos na fase (A) da onda, com o impulso tecnológico permitindo um novo crescimento econômico e aumento das taxas de lucro, que avança até atingir um pico de saturação, superprodução, e novamente se inicia uma nova fase de recessão/baixo crescimento – fase (B). Resumidamente, essa é a dinâmica de formação de uma onda ou ciclo de longa duração, que ganha aspectos mais complexos para seu entendimento quando as colocamos em perspectiva com a Revolução Industrial.
As três Revoluções Industriais em formato de “W”…
Cada Revolução Industrial tem apresentado um intervalo de aproximadamente 100 anos, o que na prática acaba consumindo um período equivalente a duas ondas longas – “dois Kondratievs/2K” – configurando um formato em “W”. Na imagem do gráfico acima, podemos visualizar os três “W” como a representação das fases de cada Revolução Industrial – Introdução, Expansão, Coordenação, Maturação. As Revoluções Industriais envolvem mudanças no sistema tecnológico e organizacional dos meios de produção, como também das relações entre trabalho, Estado e o capital. O processo que vai da invenção à viabilidade comercial é longo, complexo, e está atravessado não só por aspectos tecnocientíficos, mas também pelas disputas geopolíticas de toda ordem. Por exemplo, a eletricidade e o motor a combustão, invenções elaboradas na Segunda Revolução Industrial, surgiram no final do século XIX, mas só foram incorporadas no setor industrial com significativo impacto na produtividade da década de 1910 em diante. Os computadores já existiam nos sistemas de algumas empresas na década de 1960, mas as tecnologias digitais só alcançaram ampla produtividade da década de 1990 em diante.
Para uma compreensão pedagógica das fases de uma Revolução Industrial, vamos observar mais uma vez o gráfico anterior. Em 1870, enquanto os retornos financeiros para a indústria dominante da Primeira Revolução Industrial entraram numa fase de decadência – fase (B) do 3º Kondratiev –, uma constelação de novas tecnologias começou a provocar o surgimento de uma nova indústria, iniciando a fase de introdução, com a eletricidade, siderurgia e engenharia pesada. Quando esses elementos se generalizam e se encontram com o surgimento de grandes empresas que adotaram mudanças organizacionais como o Taylorismo, a Segunda Revolução Industrial muda de fase e entra no seu período de expansão no início da década de 1890 – fase (A) do 3º Kondratiev. Essa “era dourada” durou até a crise econômica de 1913; a fase de expansão é substituída por uma fase de coordenação – fase (B) do 4º Kondratiev – que se caracteriza pelos choques entre as novas tecnologias e as velhas estruturas, superprodução, ajustes estruturais, disputas agressivas por mercados, turbulências geopolíticas, tensões diplomáticas, rupturas políticas e guerras. Entre 1913 e 1945, o mundo sobreviveu à Primeira Guerra Mundial, viveu a Revolução Russa em 1917, a ascensão do nazifascismo nas décadas de 1920 e 1930 e a Segunda Guerra Mundial em 1940. Somente com o fim da guerra em 1945, com uma reorganização da nova ordem mundial, da nova divisão internacional do trabalho e a criação de um sistema imperialista liderado pelos EUA, foi possível à Segunda Revolução Industrial entrar na sua fase de maturação – fase (A) do 4º Kondratiev – 1945 a 1973.
No início da década de 1970, a “era de ouro” da Segunda Revolução Industrial chega ao seu fim, iniciando o período de introdução da Terceira Revolução Industrial – fase (B) do 5º Kondratiev – 1973 a 1992. O desenvolvimento da tecnologia de chips eletrônicos, computadores, internet e outras invenções digitais, acopladas às mudanças administrativas organizacionais pós-fordistas, promoveu a ruptura com o antigo modo de produção criado pela Segunda Revolução Industrial. A fase de expansão da Terceira Revolução Industrial se deu na década de 1990 – fase (A) do 5º Kondratiev – 1992 a 2008 –, que se sustentou até a eclosão da crise financeira de 2008, iniciando a fase de coordenação – fase (B) do 6º Kondratiev – 2008 até 2030?. A inteligência artificial, internet das coisas, drones, blockchain, impressoras 3D, novas tecnologias de energia e modelos organizacionais administrativos através de plataformas digitais e algoritmos estão se integrando e se difundindo no marco de um profundo ajuste estrutural, bem como uma forte tensão mundial. Assim como observamos na fase de coordenação da Segunda Revolução Industrial (1913 a 1945), o atual estágio de coordenação da Terceira Revolução Industrial apresenta um cenário similar, com altíssimas tensões entre os Estados-nações que estão numa disputa feroz para liderar a fase de maturação da Terceira Revolução Industrial – fase (A) do 6º Kondratiev. Essa fase ainda não se abriu, e não sabemos exatamente quando se dará, pois trata-se de um processo que também obedece à influência de elementos exógenos envolvendo principalmente a luta em curso entre os Estados-nações.
Ondas longas no século XXI: Fim da URSS, neoimperialismo e a transição multipolar
Segundo Mandel, em seu brilhante artigo – “Variáveis parcialmente independentes e lógica interna na análise econômica marxista clássica” –, em um dado momento do desenvolvimento do modo de produção capitalista, um dado ponto de inflexão das “ondas longas”, um grande número de descobertas científicas já aplicadas pode estar disponível, mas nem todas se prestam a generalizações amplas em toda a economia gerando rendas tecnológicas (lucros excedentes). As inovações tecnocientíficas são indispensáveis para que uma nova fase de crescimento econômico se inicie, mas para que ocorram concretamente, elas dependem de fatores “exógenos” à economia propriamente dita. A competição capitalista leva à disputa entre Estados-nações burgueses, o que leva à competição imperialista (bem como à competição entre burguesias imperialistas e dependentes). O mercado mundial é estruturado por esses Estados, cada um com um impacto específico sobre a divisão internacional do trabalho, o comércio mundial, o financiamento das indústrias e a infraestrutura em outros países. Os Estados intervêm por meio de tributação, subsídios, sistemas alfandegários, manipulações cambiais, restrições comerciais, pressão política, corrupção, alianças militares e guerras declaradas, a fim de modificar a relação econômica de forças em seu benefício. O resultado dessas guerras, por sua vez, influencia profundamente a trajetória da economia capitalista internacional por anos, produzindo mudanças bruscas no ritmo, na orientação e na estrutura de acumulação de capital. Ainda segundo Mandel no mesmo artigo, a variável “peso político-militar” é parcialmente independente da relação puramente econômica de forças entre as diferentes frações nacionais da classe capitalista internacional. A longo prazo, nenhuma nação pode manter uma posição de hegemonia político-militar no mercado e na política mundial se o seu potencial produtivo tecno-industrial for inferior ao de outras potências.
No tópico anterior, descobrimos que, em relação às ondas econômicas de longa duração, o Brasil se insere num sistema-mundo no qual estamos numa fase (B) da sexta onda longa, num estágio de conflituoso ajuste estrutural ou, nas palavras de Mandel, estamos num ponto de inflexão, onde somente uma força exógena à economia propriamente dita vai determinar quando e qual potência ou aliança de Estados-nações vão liderar o estágio de maturação da Terceira Revolução Industrial – Fase (A) do 6º Kondratiev. Essa condição nos ajuda a explicar a atual agressividade das potências ocidentais que, como detentoras da hegemonia do período anterior, estão utilizando seu poderio militar para impedir que sejam ultrapassadas pelas nações que estão liderando as novas tecnologias industriais emergentes. Assim como a Inglaterra foi ultrapassada pelos EUA e Alemanha na Segunda Revolução Industrial, e assim como a URSS foi derrotada pelos americanos na Guerra Fria, nos estágios iniciais da Terceira Revolução Industrial. Agora, a China e suas alianças geopolíticas, especialmente o BRICS, se souberem aproveitar as janelas de oportunidades que estão se abrindo nesse momento de ajuste estrutural, podem conseguir liderar a fase de maturação da Terceira Revolução Industrial e quem sabe a própria Quarta Revolução Industrial no decorrer do século XXI.
Mas essa transição de um mundo unipolar – neoimperialista – para uma estrutura global multipolar não será sem dor, e essa situação repleta de incongruências pode se arrastar por mais tempo do que se espera. Desde a crise de 2008, que em primeiro lugar teve um impacto nos países centrais, estamos vendo na última década a exacerbação de instabilidades, conflitos e guerras. Entre 2016 e 2026, os EUA elegeram por duas vezes um governo de extrema direita que está desmantelando toda a estrutura do sistema imperialista criado pelos próprios americanos no pós-Segunda Guerra, na tentativa de manter a hegemonia do dólar, mercados continentais, o controle da produção energética e, ainda, em permanente força-tarefa para impedir através de guerra comercial e operações militares o avanço tecno-industrial chinês, como também qualquer iniciativa independente no Sul Global. O resultado prático foi o início de várias frentes de batalhas em aliança ou não com a OTAN, com guerras abertas e agressões bélicas contra países latino-americanos, a Rússia, o Irã e aliados no Oriente Médio (o que inclui a Síria, Líbano, Iêmen e Palestina).
Nesse mesmo período, as potências que compõem o G7 se equilibram numa corda bamba de instabilidades político-sociais, com uma ascensão de forças de extrema direita com tendências neofascistas no Japão, Canadá, Alemanha, França, Itália e na Inglaterra. No caso dos britânicos, desde o referendo do Brexit em 2016, estiveram à frente do país sete primeiros-ministros num intervalo de dez anos, refletindo o período de maior volatilidade política da história britânica moderna. Segundo dados da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), a população forçada a deixar suas casas por conta de conflitos armados e guerras praticamente dobrou em relação à década passada, alcançando uma marca de 117 milhões de pessoas, causando uma grave crise migratória que explode nas fronteiras do Norte Global. Segundo o Instituto de Pesquisa sobre a Paz de Oslo (PRIO), o número total de guerras e conflitos armados no mundo aumentou de forma alarmante, quebrando recordes históricos consecutivos nos últimos anos. O planeta vive o período mais violento e com a maior quantidade de frentes de batalhas ativas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, atingindo a marca de 65 guerras em todo o mundo, envolvendo 35 países.
No Brasil, na última década, surgiram dois movimentos golpistas reacionários com apoio de massas. O primeiro teve um retumbante sucesso, com o impeachment da presidenta Dilma, a ascensão de Temer, a prisão de Lula e a eleição de um governo de extrema direita em 2018. Embora a segunda tentativa de golpe não tenha conseguido atingir o seu objetivo no 08 de janeiro de 2023, as forças de extrema direita lideradas pela família Bolsonaro continuam com forte influência e base eleitoral, com plena capacidade de disputar de igual para igual a presidência da República em 2026. Ao mesmo tempo, estamos observando uma onda de eleições de candidaturas de extrema direita e/ou de boas relações com o trumpismo em toda a América Latina. Entre 2025 e 2026, todas as sete eleições realizadas no continente foram vencidas por forças reacionárias, incluindo países economicamente importantes, como Argentina, Colômbia, Equador, Chile, Peru e Bolívia. Somado a esse processo, em janeiro desse ano, a Venezuela sofreu uma agressão militar inédita na história do Cone Sul; o presidente do país foi sequestrado por forças militares estadunidenses que passaram a impor o controle da produção industrial petroquímica do país.
É realmente interessante notar como os elementos de instabilidade característicos de um estágio de coordenação/ajuste estrutural emergiram tanto na Segunda como agora na Terceira Revolução Industrial – Fase B do 4º Kondratiev (1913-1945) e fase B do 6º Kondratiev (2008-2030?).
Mas queremos chamar a atenção do leitor para elementos subjetivos de grande impacto global que diferenciam esses dois momentos e podem nos ajudar a explicar o que está acontecendo na correlação de forças mundial. Entre 1913 e 1945, o capitalismo iniciava suas primeiras décadas na fase imperialista de máxima competição entre os Estados-nações, mas é preciso destacar que havia um “estranho no ninho”, a URSS e os Estados operários, que expropriaram 1/6 da burguesia mundial e exerceram forte influência subjetiva no movimento de massas e na construção de partidos comunistas e na esquerda ocidental. Isso significa que, durante quase todo o século XX, esse elemento objetivo e subjetivo ao mesmo tempo foi um fator exógeno que contribuiu não só para a derrota do nazifascismo, mas também para determinar o ritmo e a orientação dos ciclos econômicos que se expressam no desenvolvimento da Revolução Industrial.
A fase (A) do 5º Kondratiev – 1992 a 2008 – foi um período de expansão capitalista proporcionada pela generalização das novas tecnologias de informação, somada à restauração capitalista no Leste Europeu, como também à entrada da China na OMC, consolidando o seu giro para uma orientação voltada à sua integração ao mercado global. Um momento de hegemonia unipolar liderada pelos EUA e de forte impacto subjetivo sobre as amplas massas em todo o mundo, especialmente no Ocidente coletivo. Na prática, as ideias e os partidos comunistas passaram a ter uma influência marginal no imaginário social internacional, e quase toda disputa política passou a se desenvolver dentro do regramento democrático liberal burguês, assim como a geopolítica passou a se desenvolver no marco do sistema imperialista liderado pelo G7. Os EUA passaram a ter o controle das pautas econômicas, militares e culturais – consolidando o seu privilégio exorbitante em relação ao dólar como moeda de reserva financeira mundial, monopolizando a produção, circulação e a propriedade intelectual, instalando centenas de bases militares em todo o mundo, induzindo comportamentos e ideologias em escala continental através do seu sofisticado soft power hollywoodiano e estabelecendo o inglês como uma língua global. Como nos explicam Cheng Enfu e Lu Baolin no artigo “Cinco Características do neoimperialismo: uma análise da teoria do imperialismo de Lenin no século XXI”, podemos dizer que pela primeira vez o mundo ficou diante de uma força imperialista de alcance jamais visto na história; as gerações do século XXI passaram a conviver com uma espécie de neoimperialismo, uma nova fase no desenvolvimento do imperialismo após a Guerra Fria.
Finalmente, após a grave crise financeira de 2008, que abre a fase (B) do 6º Kondratiev e o estágio de coordenação/ajustes estruturais da Terceira Revolução Industrial, o mundo mergulha num momento de instabilidade e desarmonia geral. Mas diferentemente desta mesma fase na Segunda Revolução Industrial (1913 a 1945), que contou com o impacto da Revolução Russa de 1917 e outros processos revolucionários como contraponto às forças imperialistas daquele momento, agora, no século XXI, embora existam lutas de resistência de massas em vários episódios da luta de classes mundial, precisamos reconhecer que ainda não houve e não há no horizonte possibilidades concretas de revoluções anticapitalistas. Pelo contrário, estamos registrando a cada ano a ascensão de forças de extrema direita em todo o Ocidente, influenciadas e orientadas desde um núcleo central liderado pelos EUA, que se expressa no fenômeno trumpista. Trata-se de uma resposta agressiva que tem o objetivo de defender o seu poder global num momento de baixo crescimento da economia capitalista e de articulação de Estados-nações do Sul Global que passaram a defender uma nova ordem multipolar.
As Janelas de Oportunidades no Século XXI e o Papel do Partido dos Trabalhadores no Futuro do Brasil
O caminho dos países em desenvolvimento para encontrar janelas de oportunidades simplesmente não existe sem uma aposta na pesquisa e inovação tecno-industrial. O que significa dizer que é necessário construir uma estratégia para negociar a transferência de tecnologias maduras, como também montar um sistema próprio de instituições especializadas em ciência e tecnologia que serão capazes de aprimorar e reinventar tal tecnologia adquirida. Mas só isso ainda é completamente insuficiente, pois é absolutamente necessário identificar o momento-chave da fase de “destruição criativa” que permita a mudança de paradigma tecnológico para dar saltos. Os estudos e publicações da economista Carlota Perez nos ajudam a acender luzes sobre esse tema; em seu artigo “Mudanças Tecnológicas e Oportunidades para o Desenvolvimento como um Alvo Móvel”, é possível seguir o fio de um complexo novelo para compreender como tirar proveito ao máximo de oportunidades que surgem para dar saltos tecnológicos que não se dão automaticamente sem uma agressiva e consciente política de Estado.
Após países centrais alcançarem uma inovação tecnológica que pode ser introduzida no mercado e gerar uma nova indústria, à medida que esse novo produto interage e começa a se expandir nos mercados, outras inovações tecnológicas são feitas para incrementar e aprimorar a qualidade desse produto e a produtividade dos processos, atraindo investimentos e proporcionando crescimento econômico. Essa nova tecnologia atinge então um pico de maturação, suas margens de produtividade diminuem, como também seus ganhos financeiros. Nesse estágio já estarão irrompendo a introdução de novas tecnologias com potencial de produzir uma mudança de paradigma e, segundo os estudos de Carlota Perez, é nesse momento que países em desenvolvimento com centros de pesquisas qualificados com excelente integração e cooperação regional ou global podem encontrar uma janela de oportunidade para alcançar e até ultrapassar países centrais em desenvolvimento tecnológico. Pois enquanto os países centrais estão administrando a crise gerada pelo processo final de maturação das velhas estruturas e ao mesmo tempo fazendo um esforço para sustentar investimentos para que novas tecnologias possam superar a fase de testes e ganhar aplicação viável para ser absorvida pelos mercados, os países em desenvolvimento podem entrar nessa fase em que muitas vezes nem mesmo as patentes ainda foram consolidadas para cocriar e/ou, através de uma “imitação criativa” própria, participar de alguma forma da gênese de tecnologias disruptivas com potencial de aumentar os índices de complexidade da sua indústria nacional, agregando valor na sua pauta de exportações e aumentando a renda média da população. Foi exatamente esse movimento que o Japão, Coreia do Sul e a China conseguiram fazer; enquanto alguns países estavam presos a modelos industriais antigos, a Ásia soube ler o “alvo em movimento”. Por exemplo, enquanto a Coreia do Sul na década de 1980 saltou rumo ao novo paradigma da microeletrônica com pesados investimentos estatais, passando a disputar mercados com lideranças globais, o regime militar no Brasil, embora tenha completado a industrialização no marco da Segunda Revolução Industrial, não preparou o país para as possibilidades tecnológicas que se iniciavam nos anos 70 e 80 na fase (B) do 5º Kondratiev, que abriu a Terceira Revolução Industrial. O Brasil viveu a chamada década perdida, endividamento externo, hiperinflação, baixa capacidade de investimentos, crises políticas e adesão ao Consenso de Washington. O resultado foi o início de um processo de desindustrialização neoliberal que se intensificou na década de 90, posicionando o país como exportador de matéria-prima barata, preso a uma estrutura industrial antiga de baixo valor agregado, gerando estagnação da renda média da classe trabalhadora.
O que o socialismo chinês elaborou na virada dos anos 70 para os 80 através das reformas lideradas por Deng Xiaoping e o que o socialismo soviético burocratizado não conseguiu fazer nesse mesmo período também contribuiu para determinar o destino desses sistemas não capitalistas no século XXI. A China conseguiu aproveitar a janela de oportunidade de forma cirúrgica na transição do 4º Kondratiev (petróleo, siderurgia, infraestrutura pesada, automóveis e produção em massa) para o início do 5º Kondratiev (Microeletrônica, TI e Telecomunicações) na década de 1980. A URSS, embora fosse uma potência altamente bem-sucedida na lógica do 4º Kondratiev, teve sua estrutura colidindo frontalmente com as necessidades da era da informação digital, e a fase (B) do 5º Kondratiev (1973-1992) teve o seu final com a dissolução da experiência soviética, que gerou o início da fase (A) do 5º Kondratiev, com a restauração capitalista nos anos 1990 no Leste Europeu. Demonstrando que Estados-nações não capitalistas, embebidos num sistema-mundo capitalista na sua fase imperialista, ao não conseguirem se adaptar às flutuações das ondas tecnológicas e interagir com as regras dos mercados globalizados como tática de sobrevivência em correlações de forças desfavoráveis, não terão outro destino senão a restauração capitalista integral na era da Revolução Industrial.
Nos parece que o Partido Comunista Chinês acertou na sua readequação tática e o “Socialismo com características chinesas” sobreviveu e prosperou. A China deixou de ser apenas a “fábrica de montagem do mundo” para se tornar uma superpotência inovadora na fronteira da inteligência artificial, redes 5G e 6G, transição verde, corrida espacial, entre outros nichos tecnológicos. Mas fez mais: está liderando a construção de uma articulação geopolítica defensiva fundamental, envolvendo nações do Sul Global numa transição multipolar da ordem internacional, desafiando a hegemonia imperialista unipolar estadunidense no atual estágio de desenvolvimento da onda tecno-industrial – Fase (B) do 6º Kondratiev – estágio de coordenação/ajuste estrutural da Terceira Revolução Industrial, no qual predomina a eclosão de instabilidade política, rupturas diplomáticas, conflitos comerciais, guerras e crises humanitárias.
O Brasil e a atual janela de oportunidades – A análise do desenvolvimento atual das ondas longas econômicas como expressão da evolução da Terceira Revolução Industrial no século XXI nos permite dizer que uma janela de oportunidades já se abriu. Em entrevista à Confederação Nacional da Indústria (CNI), a economista Carlota Perez confirma que o Brasil tem potencial para ser o dínamo do desenvolvimento na América Latina: “A oportunidade é muito mais ampla, pois inclui a descarbonização de toda indústria de materiais e da agricultura, além da saúde e outros setores. É um dos conjuntos de oportunidades mais amplos e desafiadores que o Sul Global, e particularmente o Brasil, já enfrentou” (28/10/2024 – Portal da Indústria).
Para aproveitar a atual janela de oportunidades e preparar o país para dar um salto tecnológico capaz de aumentar os índices de complexidade da indústria nacional, através de agressivas negociações para transferência de tecnologia, como também de processos endógenos de pesquisa e inovação próprios que tenham capacidade de disputar mercados com líderes globais, será necessário consolidar no Brasil uma articulação política em torno de um projeto soberano de desenvolvimento que esteja focado e que tenha continuidade nas próximas décadas. Diante dessa tarefa, não há dúvidas de que a força política mais capaz, de maior influência nacional e que tem condições de encabeçar um polo consciente desse desafio é o Partido dos Trabalhadores. Infelizmente, não estão colocadas para a conjuntura imediata as condições para uma revolução socialista; os partidos e as ideias revolucionárias são hoje no Brasil restritos a círculos de vanguarda. O que não permite, pelo menos no curto e médio prazo, uma ruptura brusca com o capital parasitário e de pensamento colonial que tem amplos poderes hoje no país.
Mas isso não significa que não há nada mais a fazer; taticamente existem possibilidades reais de mobilizar amplos setores da classe trabalhadora e da sociedade brasileira em torno de um projeto de nação que coloque hierarquia para os investimentos em ciência e tecnologia, em infraestrutura estratégica, em indústria avançada e em formação de batalhões de cérebros altamente capazes de elaborar inovações disruptivas. Para converter nossa abundância em recursos naturais e biodiversidade em indústria tecnológica autônoma para dar saltos em produtividade, aumentando a renda média da classe trabalhadora brasileira, será necessário travar uma batalha política externa e interna. No terreno da geopolítica, a relação do Brasil com a China, o BRICS e a promoção de iniciativas de integração regional a exemplo do MERCOSUL, entre outras, nos parece um caminho consequente para superar os padrões de dependência históricos nas relações assimétricas com potências ocidentais. Parece simples e até insuficiente, mas o cenário internacional atual está nos mostrando que todas as movimentações ofensivas do governo estadunidense têm o objetivo de destruir qualquer articulação entre as nações do Sul Global e aprisionar as nações latino-americanas no papel de pobres fornecedoras de recursos naturais, eternas dependentes de tecnologia avançada produzida no Hemisfério Norte.
No terreno da luta interna, sem a construção de um pacto social coeso em torno de um projeto de soberania nacional, a burguesia nacional, sócia menor do imperialismo, terá seu trabalho facilitado em manter o país na condição de subdesenvolvimento, gerando lucros a curto prazo, mas sem desenvolver capacidade de pesquisa e desenvolvimento doméstica. Portanto, na atual etapa de desenvolvimento das forças produtivas – Fase (B) do 6º Kondratiev/estágio de coordenação e ajustes estruturais da Terceira Revolução Industrial, com a exacerbação de turbulências geopolíticas e diante de uma correlação de forças desfavorável com ascensão de forças de extrema direita em todo o mundo ocidental –, o desafio que está colocado para todas as forças de esquerda, progressistas e democráticas não é destruir o PT para superá-lo! Mas sim contribuir para que o Partido dos Trabalhadores lidere um polo social consciente no Brasil e consequentemente na América Latina, seja com a reeleição de Lula em 2026, mas que vá além…
As condições históricas para a construção de um Partido dos Trabalhadores com influência de massas só se tornaram possíveis com as mobilizações operárias em aliança com setores médios descontentes nos grandes centros urbanos, por meio de uma revolução democrática na década de 80 que acelerou o final da ditadura militar. Mas o PT só conseguiu chegar ao poder central do país no início do século XXI, que por sua vez iniciou a retomada de políticas de incentivo à inovação e à indústria, que tinham sido completamente abandonadas por toda a década de 90, fortalecendo estruturas já existentes, como a indústria petroquímica, naval e de construção civil. Os avanços nas articulações geopolíticas com o Sul Global também só foram possíveis por meio dos governos Lula e Dilma, na aproximação com países latino-americanos, como também na fundação do BRICS. Iniciativas importantes, que tentaram preparar o país para atingir uma janela de oportunidades, mas que não foram suficientes. Isso se deu por limitações programáticas e políticas, como também pela agressividade de setores da burguesia nacional e internacional que travaram uma batalha permanente para interromper o primeiro ciclo de governos petistas no Brasil. Logrando êxito logo no início da fase de recessão econômica que se abriu depois de 2008 nos países centrais e abateu a América Latina alguns anos depois, levando a uma grave crise econômica e política que permitiu o sucesso de um golpe contra a primeira mulher presidenta da República.
Um novo ciclo se abriu com o retorno de Lula ao poder em 2023, numa situação de forte polarização e tentativas de golpe que atingiram seu pico nos acontecimentos do 8 de janeiro. É visível o amadurecimento de projetos que envolvem a questão nacional nas políticas desenvolvidas pelo atual governo com o novo PAC, a Nova Indústria Brasil (NIB), as Rotas Sul-Americanas, o Plano de Transformação Ecológica, as políticas de financiamento via BNDES, entre outras iniciativas que estão integradas e em parcerias com outros projetos do Sul Global. Mas, ao mesmo tempo, também são flagrantes os obstáculos e limitações, como a alta taxa de juros, a baixa capacidade de investimentos estratégicos, as limitações impostas pelo arcabouço fiscal, o poder do capital financeiro e do agronegócio em capturar o orçamento público e a ausência de mais empresas estatais comprometidas com o desenvolvimento nacional.
Ainda temos uma montanha para escalar, e desgraçadamente uma boa parte das organizações e figuras públicas da esquerda brasileira está envolvida com questões de baixa relevância estratégica, ou apenas fazendo propaganda de um programa máximo que o povo trabalhador brasileiro não está disposto a apoiar como produto da crise de subjetividade que abateu as gerações do século XXI após a derrota histórica do socialismo soviético. As declarações e iniciativas do governo Lula sobre a questão das Terras Raras, a defesa do PIX, o fortalecimento da EMBRAER, os avanços do projeto SIRIUS, a ampliação das capacidades petroquímicas da PETROBRAS, os embates com Trump na guerra tarifária, a preocupação em dar hierarquia ao tema da soberania nacional no programa do partido em seu último congresso, a recente iniciativa da Fundação Perseu Abramo em produzir um curso sobre um projeto nacional de desenvolvimento são exemplos de que o Partido dos Trabalhadores está começando a entender o seu papel na atual etapa histórica e em relação ao futuro do Brasil. As responsabilidades da direção do Partido dos Trabalhadores, dos seus quadros dirigentes, da intelectualidade séria ao seu redor, da sua juventude e da militância em geral ganham uma perspectiva estratégica, especialmente num momento de transição geracional, no qual uma camada de quadros dirigentes já está chegando ao final de suas vidas, com o mérito de terem contribuído com a construção de um dos instrumentos mais importantes para a classe trabalhadora brasileira.
* Gibran Jordão é Historiador, analista de geopolítica e mestrando do Instituto de História da UFRJ.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
