Mourinho não ganhou como gosta mas ganhou como quer – Observador

Com o FC Porto, ganhou tudo e apresentou-se ao mundo. Mais de duas décadas depois, no Benfica, teve essa oportunidade de representar o clube de coração. Pelo meio, Manchester United e Roma foram as passagens relevantes que mostraram que o fenómeno Special One que começou no Chelsea continuava vivo. O recente documentário de José Mourinho na Netflix passa por todos esses capítulos da carreira, deixando claro que os dois momentos em que passou por Londres foram dos mais especiais do trajeto. Depois, o Inter. Mesmo não tendo todo aquele glamour de outros projetos, foi marcante. Inesquecível. Irrepetível. Bastaram dois anos para ganhar duas Serie A, uma Taça, uma Supertaça e uma Champions superando alguns colossos do futebol europeu da altura como Chelsea, Barcelona ou Bayern. Ali, se não foi tudo perfeito, não andou longe.
Depois de um primeiro ano com contratações como Muntari, Mancini, Quaresma ou Hernán Crespo, o verão de 2009 foi a chave para dar o salto com as contratações certas: um pensador de jogo, Wesley Sneijder, dois avançados que superassem a saída de Ibrahimovic para o Barcelona, Samuel Eto’o e Diego Milito, ainda mais líderes com personalidade para reforçarem o coletivo, Lúcio e Thiago Motta. Com isso, todas as condições que desejava estavam cumpridas – e também ele cumpriu, vencendo o título europeu no final da temporada. Foi aí que apareceu o Real Madrid, um colosso que desviou o português do Giuseppe Meazza, onde estava talhado para continuar a ganhar. 16 anos depois, tendo do outro lado no banco um antigo jogador desse período de ouro dos nerazzurri, Cristian Chivu, chegava o reencontro… de novo com algo a provar.
“Tenho sempre de ganhar o próximo jogo. Acho que comecei este ciclo há mais de 20 anos – um ciclo do qual só vou sair quando o abandonar de vez, mas é um ciclo de ‘Quero ganhar o próximo jogo’, ‘Qual é a competição mais importante?’. Nunca tenho a resposta certa para essas perguntas, porque se tivermos um jogo da Taça do Rei, então a Taça do Rei torna-se a competição mais importante. Depois, se o próximo jogo for do campeonato, então o campeonato torna-se a competição mais importante. A minha ambição volta sempre e não o faz de vez em quando, mas sim jogo a jogo. Se ontem ganhei, quero ganhar outra vez. Se ontem perdi, não quero perder outra vez; em vez disso, quero ganhar neste ciclo em que essa ambição volta sempre. Essa é a minha verdadeira natureza”, tinha explicado numa entrevista ao site oficial da UEFA.
“Se é especial defrontar o Inter? Neste momento, sim. Durante o encontro, não. Um claro não, durante o jogo é só mais um. Quero ganhar. Podia dizer que quero jogar bem. Mas não quero jogar bem como contra o Betis e perder. Quero ganhar. Estamos numa fase em que jogamos oito jogos e o objetivo é qualificarmo-nos. Acredito que vamos conseguir. Mas quero pensar neste jogo de forma isolada desse contexto. Quero pensar como um jogo único, não que teremos mais sete. Quero ganhar”, reforçou na conferência de imprensa antes do jogo que vinha no rescaldo da primeira derrota da temporada do Real Madrid, em Sevilha frente ao Betis, que deixou o técnico português a fazer críticas à arbitragem e à não repetição de um penálti de Mbappé.
“Como reagiram os jogadores à derrota? Vi-os como gosto de os ver. Vi-os mortos no balneário em Sevilha, vi-os já bastante recuperados no treino de domingo e agora vi-os perfeitamente normais. Depois de analisarmos o encontro que fizemos, cada vez mais tivemos a convicção de que fizemos um bom jogo, de que jogámos como equipa, de que os golos que falhámos foram uma anormalidade. Estamos bem. Claro que temos problemas conhecidos para o jogo de amanhã [terça-feira] mas vamos competir e queremos ganhar”, acrescentou, falando das ausências por lesões e castigos de jogadores como Bernardo Silva, Arda Güler e Camavinga entre os regressos de Tchouaméni, Endrick e Thiago Pitarch, que recuperavam de lesão.
O Inter chegava ao Bernabéu depois de um motivador triunfo diante do Nápoles no Giuseppe Meazza após ter estado a perder por 2-0 mas havia um ligeiro favoritismo do Real neste arranque da Champions também por “culpa” de… Mourinho. “Conheço a relação que tem com o Florentino, que tem grande confiança no José. Ele vai fazer o que melhor sabe: assumir todas as responsabilidades e converter-se na única referência. O melhor que ele tem é colocar qualquer jogador a sentir que é um dos seus e a dar tudo em campo. Em campo, ficas disposto a morrer por ele”, salientou o ex-central campeão europeu Marco Materazzi, que foi treinado pelo português, jogou com Chivu e via neste Real esse ADN de conexão entre técnico e atletas.
Até pode ser assim mas nem sempre as coisas correm da melhor forma. No final, depois dessa derrota a jogar bem frente ao Betis, o Real Madrid teve vários períodos em que jogou mal diante do Inter mas acabou com um triunfo na estreia desta Liga dos Campeões. Mais: quando tudo parecia resolvido e com Jude Bellingham a falhar de forma escandalosa um golo apenas com o guarda-redes contrário pela frente, os nerazzurri ainda conseguiram reabrir a partida e deixaram o Bernabéu a assobiar à beira de um ataque de nervos.
Com uma grande novidade na equipa que passou pela colocação de Trent Alexander-Arnold mais à frente no campo, os italianos entraram melhor, viram Courtois ter duas intervenções decisivas mas acabaram por ficar atrás no marcador com dois erros clamorosos da defesa: primeiro Kylian Mbappé aproveitou uma saída errada a partir de trás para inaugurar o marcador (14′), depois Fede Valverde conseguiu intercetar a bola quando o guardião Josep Martínez tentou a finta na área e aumentou para 2-0 (23′). Curtis Jones ainda teve uma bola na trave (36′), o início da segunda parte voltou a ter um Inter melhor assumindo um jogo mais partido que estendeu a passadeira em várias ocasiões para o Real “acabar” em definitivo com a partida mas o 2-1 de Carlos Augusto acabou por deixar tudo em aberto até ao final (77′), sendo notória toda a tensão que se instalou nos adeptos blancos até ao derradeiro apito acompanhado por um suspiro de alívio.
