Derrotar, eleger, libertar, anistiar, entregar
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Derrotar Lula. Eleger Flávio. Libertar Jair Bolsonaro. Anistiar os militares e os demais condenados pela tentativa de golpe de Estado. Entregar as riquezas estratégicas do país aos Estados Unidos de Donald Trump e Marco Rubio.
Na Avenida Paulista, o quinto verbo ganhou uma imagem. Um boneco gigante de Trump erguia Lula vestido de presidiário sob a inscrição, em inglês, “Trump, liberte o Brasil”. No Dia da Independência, apoiadores de Flávio pediam a um presidente estrangeiro que interviesse no país.
O projeto bolsotrumpista não termina na reconquista do Palácio do Planalto nem na salvação judicial do clã Bolsonaro. Inclui uma contrapartida aos aliados que, dos Estados Unidos, interferem na eleição brasileira: entregar a Trump e Rubio acesso privilegiado às riquezas e às decisões estratégicas do Brasil. Cinco verbos. Uma única operação política.
O Brasil como solução dos Estados Unidos
Em 28 de março, diante da plateia da CPAC, no Texas, Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como um inventário de ativos. Falou das reservas de água doce, das terras agrícolas e dos recursos energéticos “capazes de abastecer continentes”. Em seguida, chegou ao ponto principal:
“O Brasil é a solução para os Estados Unidos romperem a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente às terras raras”.
Flávio não apresentou os minerais como base para uma política de industrialização brasileira. Não falou prioritariamente em processá-los no país, dominar tecnologias ou gerar empregos qualificados. Apresentou-os como solução para um problema dos Estados Unidos e os vinculou diretamente à inteligência artificial e aos equipamentos de defesa norte-americanos.
A oferta não poderia ser mais oportuna. Os Estados Unidos dependem da China para o fornecimento e, principalmente, o processamento de minerais indispensáveis à produção de semicondutores, baterias, radares, mísseis, satélites e sistemas de inteligência artificial.
Na sexta-feira, 4 de setembro, a Reuters revelou que fornecedores chineses haviam voltado a suspender parte dos embarques de terras raras para empresas norte-americanas.
A China controla um ponto de estrangulamento da indústria dos Estados Unidos. O Brasil possui parte da alternativa procurada por Washington. E Flávio já se apresentou como o candidato a presidente disposto a entregá-la.
Desmoralizar para anistiar
Para executar esse programa, é preciso retomar o poder. E, para libertar Jair Bolsonaro e anistiar os militares, o bolsonarismo precisa retirar autoridade das condenações impostas pelo Supremo.
A ofensiva começa pela reputação de Alexandre de Moraes. Flávio o apresenta como uma “laranja podre”, mas utiliza as suspeitas do Banco Master para deslegitimar precisamente os julgamentos de Jair Bolsonaro, dos militares e dos demais golpistas. Diz proteger o STF enquanto corrói a autoridade de suas decisões.
Celso Rocha de Barros resumiu na Folha de S.Paulo o poder destrutivo do escândalo: Moraes é acusado de ter entrado no esquema de personagens que condenou pela tentativa de golpe. Se o julgador for apresentado como integrante da rede que deveria combater, os condenados poderão ser transformados em vítimas e a anistia, em reparação.
Moraes forneceu munição a essa ofensiva. As acusações são graves. Sua conduta precisa ser investigada, sem proteção corporativa. Mas as suspeitas e acusações a ele não apagam as provas que ele examinou nos julgamentos, não inocentam os condenados, nem autorizam uma potência estrangeira a interferir no Supremo e na eleição.
O roteiro é transparente: desmoralizar Moraes para atingir o STF; enfraquecer o STF para deslegitimar as condenações; deslegitimar as condenações para legitimar a anistia.
A tentativa de golpe desaparece. Desaparecem as ações para impedir a posse de Lula, abolir violentamente o Estado Democrático de Direito e executar o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Moraes. No lugar dos condenados surgem “perseguidos políticos”. Três anos após o 8 de janeiro, o STF contabilizava 835 condenados e 179 presos — a dimensão concreta da anistia pretendida. Esse é o quarto verbo: anistiar.
Na manhã desta terça-feira, 8 de setembro, Mendonça ampliou a guerra: afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, e mandou a Corregedoria investigar os dois e a produção dos relatórios usados por Moraes contra ele. A disputa entre ministros transformou-se numa disputa pelo comando das investigações. A crise atravessou as portas do Supremo e atingiu a cúpula da Polícia Federal.
O clã procura dirigir suas chamas
No Senado, parlamentares que antes rejeitavam o impeachment de Moraes já o consideram possível. Segundo aliados de Alcolumbre, ele aguardará o resultado da eleição e a composição da nova Casa. O afastamento de Moraes tornou-se a moeda capaz de comprar o apoio bolsonarista à reeleição de Alcolumbre para a presidência do Senado.
Enquanto o Supremo discute procedimentos, o clã Bolsonaro procura comandar politicamente o resultado. Flávio visitou na prisão Filipe Martins, condenado a 21 anos por participação na trama golpista, e utilizou o caso Master para atacar o ministro responsável por sua condenação. Diante da cadeia, tentou transformar um condenado pelo golpe em vítima de um julgador desacreditado.
Depois, cobrou de Cármen Lúcia voto pela investigação de Moraes, advertiu que a ministra deveria preocupar-se com sua “biografia” e afirmou que o julgamento seria um com as manifestações de 7 de setembro cheias e outro com elas vazias. No ato, tornou explícita a ambição de remodelar a Corte: “Vou indicar cinco ministros para o STF porque Alexandre de Moraes vai cair”.
Flávio pressiona uma ministra, declara que o tamanho das manifestações deve influenciar uma decisão judicial e anuncia que, se eleito, alterará a composição do Supremo. O clã já não apenas aproveita o incêndio. Procura dirigir as chamas.
“Como nos anos 60”
Segundo apuração do Brasil 247, bolsonaristas fizeram chegar a integrantes do governo Trump informações sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes. O objetivo seria convencer Washington a voltar a aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro.
Ainda não foram identificados todos os operadores. Não há confirmação de novas sanções nem prova de que Mendonça participe da articulação nos Estados Unidos. O efeito de sua decisão, entretanto, é visível: forneceu munição à campanha de Flávio e aos operadores que procuram trazer Trump e Rubio novamente para dentro da crise brasileira.
Investigar Moraes enfraquece a Corte; não o investigar poderá transmitir a impressão de proteção corporativa. O escândalo pode beneficiar Flávio e fortalecer a campanha pelo impeachment de ministros.
Lourival Sant’Anna identificou no Estado de S. Paulo um possível padrão norte-americano para a América Latina: coerção, sustentação de governos aliados e apropriação de riquezas. Ao relacionar esse modelo à estratégia de Washington para minerais críticos, advertiu para o risco de interferência caso um aliado de Trump seja derrotado por quem ameace contratos lucrativos. “Como nos anos 60”, escreveu.
O alerta une o primeiro verbo ao quinto: interferir para derrotar Lula; eleger Flávio para assegurar acesso às riquezas brasileiras.
“O Brasil não será colônia de ninguém”
Na noite de 6 de setembro, Lula utilizou seu pronunciamento pelo Dia da Independência para responder à questão material que atravessa a eleição.
“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem que voltemos a ser colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém”, afirmou.
Sem citar Trump ou os Estados Unidos, defendeu o direito do Brasil de escolher de quem compra e para quem vende. Nenhum governante estrangeiro, declarou, pode determinar as relações comerciais do país.
Lula mencionou precisamente as riquezas apresentadas por Flávio no Texas: terras raras, petróleo, água doce e biodiversidade. Mas atribuiu a elas destino oposto: produzir tecnologia, transição energética, empregos qualificados e desenvolvimento para os brasileiros.
Os dois candidatos falam das mesmas riquezas. Flávio apresenta o Brasil como solução para os Estados Unidos. Lula afirma que as riquezas brasileiras devem ser a solução para o próprio Brasil.
A alternativa não é substituir Washington por Pequim. Empresas de qualquer país poderão participar da exploração dos minerais, desde que sejam processados e industrializados no Brasil, gerando empregos e tecnologia.
Essa é a escolha encerrada pelo quinto verbo: entregar.
Flávio oferece alinhamento político, submissão diplomática, recursos estratégicos e acesso antecipado às decisões do Estado. Lula responde que o Brasil não será colônia de ninguém.
Derrotar Lula para eleger Flávio. Eleger Flávio para libertar Jair. Desmoralizar Moraes e o STF para anistiar os golpistas. Controlar o governo para entregar as riquezas brasileiras aos Estados Unidos.
Cinco verbos. Um único projeto: derrotar, eleger, libertar, anistiar, entregar.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
