“Are you Brazilian? Oh, I love Brazilian women!” – Sexualidade
Estava trabalhando em um brunch – há 8 anos, eram poucos, mas já haviam – poucas semanas depois de ter chegado a Portugal. Ainda com uma curiosidade e ingenuidade que já não existem, fui surpreendida ao servir um latte com leite de amêndoas a um gringo que segurou a minha mão e perguntou: “where are you from?” No ápice da simpatia de quem precisava, desesperadamente, daquele trabalho, respondi: “I’m from Brazil!” Algo na minha resposta fez com que ele se sentisse à vontade para acariciar a minha mão e responder: “Faz sentido. Notei que tens um tipo de beleze exótico”.
O suposto elogio fez com que eu me sentisse uma arara azul no zoológico, disponível para visitações de olhos curiosos. Em menos de um segundo meu cérebro processou: o que ele quis dizer, o que ele achou que quis dizer e como eu sairia daquela conversa sem ter que dar uma aula de história colonial ou ser demitida. Sorri sem graça e passei o restante do meu turno pensando o que significava exótica naquele contexto.
Exótica em comparação a quem? Para quem? E, sobretudo, o que havia em mim que o fez sentir confortável o suficiente para atravessar uma fronteira de intimidade que não existia entre nós?
Pouco tempo depois, uma amiga dançava e conversava com outras amigas em uma festa quando um português a segurou por trás e se esfregou nela. Assustada, ela o empurrou. O comentário dele foi apenas: “então? Pensava que era disso que vocês gostavam”. Vocês? Vocês quem? Anos depois, já trabalhando em uma grande e renomada empresa, em um almoço de team building, o diretor do meu departamento se inclinou em minha direção e disse: “sabes, morei no Brasil quando era mais novo, trabalhei na gestão de uma plataforma de vídeos adultos. Passava o dia a ver o que vocês são capazes de fazer. Ganda tempo!” Outra vez o “vocês”. Vocês quem?
As mulheres brasileiras aparecem frequentemente nestas histórias como se fossem uma categoria única, homogênea e facilmente reconhecível – como se mais de cem milhões de mulheres pudessem ser reduzidas a uma fantasia exportável. A ideia de que somos um produto disponível para consumo internacional não nasceu na cabeça desses homens. Eles não a inventaram. Digo isto não para os absolver: eles não são responsáveis pela criação deste estereótipo, mas são responsáveis pela decisão de reproduzi-lo. A questão é que estereótipos não surgem do nada. Eles são construídos, promovidos, repetidos e vendidos até parecerem verdades evidentes.
Gláucia Assis, professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e especialista em mulheres imigrantes, aponta que a associação entre a mulher brasileira e a “disponibilidade sexual” tem raízes coloniais diretas. Os colonizadores europeus leram a nudez das mulheres negras escravizadas e indígenas sob a moral repressora que trouxeram na bagagem e concluíram que aqueles corpos eram territórios sem dono. Exploraram, abusaram e depois as culparam pela própria violência.
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Já nas décadas de 1960 a 1980, o próprio governo brasileiro, via Embratur – Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo, usou a figura da mulher sensual como cartão-postal para atrair turistas estrangeiros. O Brasil precisava de dólares. A solução? Vender a brasileira junto com a praia e o carnaval. Pacote completo: sol, areia e disponibilidade. Alguém – um homem, provavelmente – em alguma sala de reunião, decidiu que a melhor moeda de troca seria a imagem das brasileiras. O país entrou na rota do turismo sexual e nunca mais saiu completamente dela.
Em 2003, as campanhas oficiais da Embratur finalmente pararam de usar esse recurso. Mas imagens não se apagam com decretos, e o imaginário exportado por décadas continuou circulando – reforçado por telenovelas, por programas de TV e por um certo tipo de representação que colocava a brasileira sempre no mesmo papel. Em Portugal, o programa Café Central, da RTP2, chegou a ser alvo de protestos por apresentar uma personagem brasileira como prostituta, numa associação que parecia, para os seus criadores, perfeitamente natural. Houve ainda o episódio que ficou conhecido como “Mães de Bragança”, em 2003: mulheres portuguesas pediram publicamente a expulsão das brasileiras da cidade, acusando-as de destruir casamentos. Não havia evidência. Havia, porém, um imaginário consolidado e a disposição de transformá-lo em ação coletiva contra as imigrantes. E em 2019, o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, reforçou o esteriótipo e fez um convite – com todas as letras: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade.” Tratando a gente, mais uma vez, como um dos atrativos naturais do país.
Se por um lado, a cultura brasileira tem uma relação relativamente confortável com o corpo: moda, música, dança e entretenimento frequentemente incorporam elementos sensuais; o carnaval expõe a pele; a praia é um ambiente cotidiano. Por outro, a sociedade brasileira é profundamente conservadora em diversos aspectos. Grande parte da população segue valores cristãos tradicionais, o aborto continua amplamente ilegal e os direitos LGBTQIA+ enfrentam resistência política constante. Existe uma cultura persistente de julgamento moral, especialmente direcionada às mulheres e às pessoas queer. Ou seja, o Brasil não é um espaço unidimensional onde todos vivem em uma festa sexual permanente como é pintado por aí. É, na verdade, uma sociedade diversa onde valores conservadores coexistem – e frequentemente entram em conflito – com manifestações culturais mais livres.
Talvez a questão não seja então, se as brasileiras são ou não promíscuas mesmo. Talvez o problema seja a própria pergunta que pressupõe que centenas de milhões de pessoas possam ser reduzidas a esse rótulo único. O questionamento deveria ser outro: por que as mulheres brasileiras ainda são constantemente sexualizadas pela imaginação global? Como as relações de poder influenciam quem é chamado de promíscua e quem é chamado de livre?
E antes que culpemos o funk e a Anitta (quase) sempre seminua, Gláucia Assis argumenta que expressões culturais como o funk não são as responsáveis pela discriminação das brasileiras no exterior. Ela afirma que as mulheres são discriminadas devido ao imaginário colonial estereotipado pré-existente, e não por causa de gêneros musicais, que são frequentemente vistos com preconceito por virem de grupos populares urbanos, frequentemente vindo das favelas.
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Resumindo em algumas palavras: o problema nunca foi a sexualidade brasileira; o problema foi transformar essa sexualidade em produto sem o nosso consentimento.
As consequências disso não são abstratas e são sentidas até hoje. O assédio se infiltra no transporte público, no ambiente de trabalho, nas entrevistas de emprego. E também impacta a vida afetiva; quando o primeiro olhar que recai sobre você é o da fantasia e não o da curiosidade genuína, torna-se muito difícil confiar que alguém está interessado na pessoa real. Relatos reunidos pelo projeto Brasileiras Não Se Calam mostram mulheres que desenvolveram barreiras afetivas profundas depois de experiências repetidas de objetificação. Mulheres que demoraram anos para conseguir confiar em alguém. Que aprenderam a ocupar menos espaço como estratégia de proteção. Que mudaram o sotaque para não serem identificadas antes de serem ouvidas.
A liberdade sexual real não tem nada a ver com performar para o olhar alheio. Não é a disponibilidade que nos impuseram. É exatamente o oposto: é o direito de escolher. O direito ao próprio corpo, ao próprio prazer, ao próprio “não” e ao próprio “sim” dito em plena posse de si mesma. É poder ser sensual sem que isso seja lido como convite deliberado. É poder ser tímida e reservada sem que isso decepcione ninguém. É, acima de tudo, existir em terras distantes do nosso país sem precisar justificar as nossas escolhas, o nosso comportamento e a nossa existência.
O que resta, diante de tudo isso, não é uma solução simples – e seria desonesto oferecer uma. O que existe são mulheres que, apesar de todo esse peso estrutural, seguem construindo carreiras, relacionamentos, vidas inteiras em territórios que as recebem com um estereótipo antes de qualquer outra coisa. Que criam projetos coletivos. Que se recusam a mudar o sotaque. Que decidem, a cada dia, não pedir autorização para existir além da categoria que alguém inventou para elas.
Somos tão diversas quanto o país que nos formou. Viemos de favelas, de apartamentos de classe média, de cidades que você jamais encontraria num roteiro turístico. Estudamos, trabalhamos, construímos, amamos, erramos, tentamos de novo. Saímos do Brasil pelos mesmos motivos que qualquer pessoa sai de qualquer lugar: oportunidade, aventura, necessidade, amor, fuga, esperança.
Viemos para cá para viver. Não para ser um destino fantasioso.
