A nova bomba-relógio no Estreito de Ormuz – Observador

A nova bomba-relógio no Estreito de Ormuz – Observador



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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a nova bomba-relógio no estreito de Ormuz.

“Operation Epic Fury”. That’s a great name, isn’t it? Epic Fury.

Quando pensávamos que o pior tinha passado, os Estados Unidos e o Irão regressaram à guerra sem que as negociações tenham chegado a bom porto. Sem solução à vista, o estreito de Ormuz volta a estar fechado ou fortemente condicionado. Voltamos a traçar cenários pessimistas sobre o que isto significa para a economia mundial. E se é verdade que até agora o petróleo não disparou como se temia, a situação agora é mais perigosa. E é sobre isso que vou conversar hoje com a Ana Suspiro, a jornalista do Observador, especialista em assuntos de energia. Vamos perceber como é que o mundo conseguiu amortecer o choque, por que os combustíveis estão a subir mais do que o petróleo e o que pode acontecer quando as almofadas de segurança se esgotarem. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 16 de julho. Olá, Ana.

Olá, Pedro.

Nós estamos aqui simpaticamente a começar esta conversa, embora vamos já aqui fazer um aviso: isto de que nós vamos falar não são propriamente boas notícias para o que aí vem. Mas enfim, às vezes as más notícias não se concretizam e foi isso que aconteceu com esta história do estreito de Ormuz. Falava-se muito que ia haver uma explosão nos preços do petróleo, um aumento generalizado das coisas, mas isso acabou por não acontecer na dimensão, pelo menos, que se antevia.

Tiveste uns picos, em março, sobretudo. O petróleo chegou aos 120 e tal dólares por barril, mas depois estabilizou o nível relativamente abaixo desse e mesmo ainda antes de se chegar a um acordo de cessar-fogo, estava ali na casa já dos 90, estava abaixo dos 100 dólares. Um nível alto, mas muito distante dos cenários mais dramáticos.

E então, o que aconteceu? Foi um excesso de dramatismo das instituições que fazem previsões, dos especialistas, ou houve, de facto, algumas coisas que explicam por que não aconteceu uma coisa tão grave como se antevia?

Aqui as previsões começaram por ser relativamente otimistas, no sentido de que isto ia durar muito pouco tempo, portanto, o mercado vai conseguir aguentar. Depois percebeu-se que não, que ia demorar mais tempo, e começaram a surgir essas visões mais catastrofistas. Tu tiveste bancos de investimento e casas de análise a falar: “Se isto se prolongar no tempo, o petróleo vai para os 140, 150 dólares por barril”. Isso não aconteceu. Não aconteceu por quê? Porque havia, de facto, esta expectativa de resolução, ou pelo menos de alguma estabilização, e porque também foram tomadas algumas medidas que ajudaram a travar o preço do petróleo. Uma delas foi a libertação das reservas estratégicas, uma megaoperação coordenada pela Agência Internacional de Energia.

Que envolveu vários países, incluindo Portugal.

Incluindo Portugal, mas a par disso, outros países libertaram as suas reservas, reservas também comerciais, e nós não temos tanta informação sobre isso. Sabe-se que a China é um dos países com mais reservas comerciais e era um grande cliente do petróleo do Médio Oriente. Portanto, eles libertaram também muitas reservas e isso conseguiu mais ou menos manter as refinarias a operar normalmente. Depois também tiveste aumentos de produção por parte de países fora do universo do Golfo. Acima daquilo que estava previsto, estas coisas normalmente demoram algum tempo, mas foi possível potenciar aqui um bocadinho a produção fora do Golfo e mesmo dentro do Golfo. Tiveste países como, por exemplo, a Arábia Saudita, a transferirem o petróleo e os produtos refinados dos navios que não conseguiam passar no estreito para pipelines. Portanto, houve aqui um conjunto de medidas.

Portanto, alternativas.

Exatamente. Ou seja, por si só nenhuma delas era suficiente, todas juntas conseguiram reduzir o déficit de produção entre a oferta e a procura, que o Fundo Monetário Internacional estima que terá sido de 4 milhões de barris diários no mês de maio.

Aquilo que aconteceu efetivamente foi que havia menos 3, 4 milhões de barris diários face à procura, mas o cenário que se tinha equacionado antes destas medidas serem tomadas era muito superior a isso e, portanto, digamos que a crise existiu, mas numa dimensão bastante controlada.

E também tens um impacto geográfico muito diferente, porque houve países na Ásia que sofreram com o racionamento das vendas de combustíveis nas bombas, por exemplo, países do sudoeste asiático, e houve efetivamente um corte no consumo de combustíveis fósseis, sobretudo na Ásia, que era o maior cliente do petróleo e desses produtos do Médio Oriente.

Uma vez que eram mais dependentes daquilo que ali estava, tiveram que tomar medidas para reduzir o consumo.

Inclusive há medidas em termos de jornada de trabalho, do próprio mix de combustíveis no setor dos transportes. Esses países foram, de facto, aqueles que tomaram medidas mais agressivas, digamos assim, porque eram aqueles que estavam na linha da frente dos impactos.

Portanto, eles sentiram a crise de uma outra forma que, apesar de tudo, nós não sentimos.

Sentimos, sobretudo, no bolso.

Certo. Sendo que, falando no bolso e falando de combustíveis, quem nos está a ouvir a dizer: “O preço do petróleo não subiu assim tanto como se pensava”, há muita gente que se lembra bem, mas eu sei bem o que nós andámos a pagar para encher o depósito do carro, porque há aqui uma diferença, isto não é uma relação direta ou imediata.

Não. O que acontece é que quando o petróleo sobe, os combustíveis sobem, isso não há muita volta a dar. Mas desta vez o petróleo e os seus combustíveis não desceram na mesma proporção. Há razões que explicam isso. Há, de facto, um problema na refinação. Por quê? Por um lado, porque há menos petróleo para processar e algumas refinarias já não estão a receber o petróleo e estão a produzir menos produtos refinados. Por outro lado, o que tem havido é ataques a refinarias e a infraestruturas de combustíveis no Golfo. Praticamente todos os países ali à volta foram atacados pelo Irão com bombardeamento.

E vão atacar aí, exatamente?

Exatamente, o Abu Dhabi, Arábia Saudita.

Já com o objetivo também de que se sinta o impacto.

Exato. As próprias refinarias do Irão. E depois aconteceu, isto aqui é um pouco uma coincidência, mas a Rússia começou a ter ataques às suas refinarias praticamente diários por parte da Ucrânia. E a Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de petróleo e de produtos refinados, sobretudo de gasóleo. E esta, de facto, é a razão pela qual os preços dos combustíveis, sobretudo do gasóleo, não baixaram, porque a Rússia travou as exportações de gasóleo, é o maior exportador mundial e agora as refinarias estão-

Precisa disso internamente.

Precisa disso, está com uma crise de abastecimento interno e suspendeu as exportações de gasóleo no mês de julho. Também no jet fuel dos aviões, também tiveste alguns problemas de falta de produto.

Sim, aí sentiu-se também um impacto grande.

Exatamente. São os dois produtos que estão a ser, do ponto de vista do preço, mais pressionados por esta crise, que são aqueles onde existe maior dependência, por um lado, do Médio Oriente, por outro lado, a Ásia, que também fazia muito jet fuel, deixou de receber o petróleo do Médio Oriente e as suas refinarias já não podem produzir jet fuel, que vendiam à Europa. E depois tens a Rússia, que fornecia gasóleo e um subproduto usado no gasóleo, que é o VGO, a vários países do mundo e que agora não está a fazer. Portanto, o que é que isto faz? Faz com que haja menos produtos refinados, portanto, tiveste uma quebra na oferta mundial de petróleo, mas tiveste uma quebra muito acentuada na oferta de produtos refinados. Nós, na nossa vida, no nosso dia a dia, a gente não consome petróleo.

Claro.

Nós consumimos combustíveis. E as empresas consomem produtos-

E para isso dependemos das refinarias, precisamente

…que são processados em refinarias, produtos petroquímicos, que não é diretamente o petróleo. Portanto, até pode haver petróleo, mas se os produtos não estão lá, os preços sobem e há impactos na economia.

Em Portugal, nós também temos refinarias.

Temos uma.

Temos uma. Sim.

Temos a refinaria.

Temos a refinaria, precisamente, de Sines.

E esta crise apanha-nos num momento muito complexo, porque a Galp está a negociar uma fusão com uma empresa espanhola que envolve a transferência da refinaria para uma empresa que já não é controlada pelos acionistas da Galp.

E nós fizemos uma história do dia sobre isso, precisamente, há uns meses.

Antes ainda desta crise.

E não estávamos a antever este cenário, o que torna a coisa um pouquinho mais-

Até porque o discurso do governo mudou. Agora o governo está muito preocupado com a segurança.

Os ativos estratégicos.

Está mais preocupado do que estava, se calhar, nessa altura.

Quando fez esse acordo. Um dia temos que voltar a falar sobre isso para ver em que ponto é que isso está, porque agora com o desenrolar das coisas isto tem-

Para já, trisou. O acordo passou para-

Que surpresa.

Exato.

Bom, mas não vamos desviar aqui daquilo que é o assunto que nos trouxe aqui a esta conversa. Nós falamos aqui das refinarias. As próprias refinarias até tiveram um efeito no preço do petróleo, curiosamente.

Tiveram, porque não podem produzir, não compram o petróleo, ou seja, a pressão sobre o petróleo reduz-se. Se as refinarias não têm capacidade para produzir ou se, por exemplo, têm os estoques cheios, aconteceu no Médio Oriente, que a produção toda estava armazenada, eles não conseguiam escoar aquilo que já tinham processado e portanto, deixaram de produzir, porque não conseguem tirá-lo do Golfo e já não têm sítio para guardar e portanto, reduziu-se a procura de petróleo bruto.

E portanto, teve este efeito, que é um pouquinho irônico.

Que atingiu também os preços.

Atingiu também os preços.

Exato, dos preços do petróleo.

Do petróleo, no caso.

Exato.

Entretanto, a situação no Estreito de Ormuz, o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, parecia estar numa fase de negociação, a começar a resolver-se, mas as coisas voltaram todas para trás. Estamos novamente numa fase de grande tensão, de ataques de parte a parte e novamente o Estreito de Ormuz no centro do conflito. O que isso nos diz sobre a possibilidade de voltarmos a conseguir evitar, atenuar uma eventual crise que necessariamente pode vir deste conflito como já veio do passado?

Algumas das estratégias que foram usadas no passado recente para responder a esta falta de petróleo e de produtos continuam operacionais. Nós podemos continuar, os países podem continuar a fazer aquilo que fizeram na primeira metade do ano. Só que uma dessas estratégias vai ter menos poder de ataque, digamos assim, poder de força, que é as reservas, a partir do momento em que tu esgotas as reservas e não as consegues reconstituir, porque não há produto no mercado ou porque ele está muito caro, vais perdendo a margem para, no fundo, almofadar aqui.

Lançar os tais barris para algum mercado.

Libertar barris para compensar a falta de produto no mercado ou os preços demasiado altos.

O próprio FMI já deu um aviso relativamente a essa matéria.

O FMI diz que o mundo agora está menos protegido contra um novo choque do lado da oferta de petróleo e de produtos refinados.

Portanto, nós tivemos previsões pessimistas. Apesar de tudo, os mercados conseguiram coordenar-se, reagir e atenuar essa possibilidade, mas agora, se houver um novo choque, estamos menos preparados para isso.

Estamos menos preparados para isso e a única resposta que pode ser dada, que foi aquela que foi dada em alguns países logo no início desta crise, é que, se calhar, a procura vai mesmo ter que cair.

Há um termo, não sei se é técnico.

É a destruição da procura.

Destruição da procura. Dá exatamente a ideia. Isso significa o quê na vida das pessoas?

Pode significar muita coisa. Isso pode significar, de facto, que as pessoas deixam de usar o carro por iniciativa própria. Há países que implementaram medidas relacionadas com o teletrabalho.

Para que as pessoas não tenham que andar a deslocar-se tanto.

Isso chegou a ser discutido na União Europeia, mas acabou por não ser adotado. Nós, na Europa, fizemos uma coisa no setor da aviação, que foi cancelar milhares de voos, sobretudo voos de curta duração, por causa dos custos do jet fuel. Isso são tudo medidas que correspondem à destruição da procura.

Sendo que a destruição da procura depois também tem efeitos na economia que são muito duros e depois tudo isso traz uma série de consequências. Não é uma mensagem otimista.

Não é bom para um país, no caso da aviação, que vive do turismo como Portugal. Essa foi, aliás, uma das grandes preocupações. O governo nunca defendeu esse tema da redução da procura.

Porque evidentemente ia atacar um setor estratégico para a economia portuguesa.

Exatamente.

Portanto, é neste cenário que estamos, com o mundo a dar várias voltas. Já agora, vou só esclarecer que nós estamos a gravar isto na tarde de quarta-feira e as coisas têm mudado com uma grande velocidade. Não sabemos o que vai acontecer na altura em que os nossos ouvintes estiverem a ouvir esta conversa.

Se calhar já vamos saber quanto é que os combustíveis vão subir na próxima semana.

Vamos ver. Ana, obrigado.

Obrigada eu, Pedro.

Eu conversei com a Ana Suspiro, jornalista de economia do Observador, sobre a forma como o mundo conseguiu adaptar-se a esta crise no Médio Oriente e sobre como tudo agora ficou mais complicado do que antes. O mundo conseguiu ganhar tempo nestes quatro meses, mas o relógio voltou a contar e quando na equação temos Donald Trump e o Irão, é de acreditar que o tempo começa a esgotar-se rapidamente. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do João Werner, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.





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