Hospitais. Maioria dos novos nomeados tem ligações ao PSD – Observador

Hospitais. Maioria dos novos nomeados tem ligações ao PSD – Observador



Alguns destes administradores abdicaram de mandatos para os quais tinham sido eleitos para aceitarem o convite de dirigir uma ULS. É o caso do antigo presidente da Câmara de Amarante, José Luís Gaspar, que agora preside ao conselho de administração da ULS do Tâmega e Sousa. Estava a menos de seis meses de concluir o terceiro e último mandato permitido por lei quando foi nomeado pelo Governo em fevereiro de 2025. José Luís Gaspar concluiu um programa avançado do ISCTE em Gestão Empresarial Hospitalar e foi administrador do Hospital de São Gonçalo, durante três anos, antes de ser eleito autarca.

Miguel Paiva estava, desde o início de 2024, à frente da ULS de Entre o Douro e Vouga quando foi nomeado pelo Governo em fevereiro deste ano para liderar a ULS de São José, em Lisboa. O militante do PSD substituiu Rosa Valente de Matos — por sua vez, militante do PS — que estava há seis anos no cargo. Miguel Paiva é um antigo membro do Conselho Nacional do PSD e foi eleito deputado do PSD na Assembleia Municipal de Vila do Conde nas últimas autárquicas.

Entre 2015 e 2024, foi presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga. Antes, tinha integrado as administrações da Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte e do Médio Ave E.P.E.. A Procuradoria-geral da República confirmou em março ao Correio da Manhã que Miguel Paiva estava a ser investigado devido a suspeitas sobre a adjudicação de contratos públicos para obras nos hospitais do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga.

Para presidir à ULS do Médio Ave também foi escolhido um homem com um percurso intimamente ligado ao PSD. Luís Vales foi líder da distrital da JSD/PSD e secretário-geral adjunto do partido durante a liderança de Pedro Passos Coelho. Integrou a bancada social-democrata no Parlamento em três legislaturas, tendo sido vice-coordenador do grupo parlamentar na Comissão de Saúde. Luís Vales também ocupou vários cargos políticos na sua cidade natal. Foi até recentemente presidente da concelhia do PSD do Marco de Canaveses, onde já tinha sido deputado municipal e vereador com pelouro.

Antes de ser nomeado para o conselho de administração da ULS do Médio Ave, em novembro de 2025, era o administrador hospitalar responsável pelos serviços farmacêuticos na ULS do Alto Ave. É licenciado em Psicologia Clínica e concluiu o curso de especialização em administração hospitalar na Universidade Nova de Lisboa em 2021. Antes, tinha sido assessor da administração da ULS do Tâmega e Sousa e gestor de produção clínica e dos serviços farmacêuticos na ULS do Alto Ave e no Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães.

Para dirigir a ULS de Castelo Branco, foi nomeado, em novembro de 2024, Rui Amaro Alves. É doutorado em Planeamento Regional e Urbano e era professor universitário antes da nomeação. No entanto, não tem qualquer formação em Saúde ou Gestão.

O convite para dirigir esta ULS, responsável pela administração de um hospital e 10 centros de saúde, não foi o primeiro por parte de um governo PSD/CDS. O executivo liderado por Pedro Passos Coelho nomeou-o, em 2014, para um ouyro cargo, que não estava relacionado com a saúde: Diretor-Geral do Território. Apesar de ter sido o candidato apoiado pelo MPT (Movimento Partido da Terra) à presidência da Câmara de Castelo Branco, em 2021, é descrito como próximo do PSD e as estruturas locais do partido apoiaram a sua nomeação para a presidência da ULS, segundo a revista Sábado.

O presidente do conselho de administração da ULS de Braga também tem experiência como eleito local do PSD. Américo Afonso foi deputado municipal em Braga entre 1993 e 2005, ano em que passou a vereador sem pelouro. Manteve-se no executivo municipal de Braga até 2013, altura em que voltou à Assembleia Municipal como deputado e depois como secretário da Mesa — funções que ocupava em março de 2025, quando foi escolhido para dirigir a ULS de Braga.

Américo Afonso tem vasta experiência na área da administração hospitalar. Quando foi nomeado pelo Governo, era vogal do conselho de administração a que agora preside. Antes, tinha dirigido o Centro Hospitalar do Médio Ave, o Hospital da Misericórdia de Paredes, a Clínica Particular de Barcelos e o Hospital de São Marcos, em Braga.

A situação em Braga tem vários pontos de contacto com a polémica mudança na direção da ULS do Algarve. Tiago Botelho foi o escolhido para liderar o conselho de administração após a Direção Executiva do SNS ter demitido por email o seu antecessor, João Ferreira, a escassas horas de celebrar um ano em funções. A ULS do Algarve é outra das administrações exoneradas ao longo dos últimos dois anos de governação da AD. João Ferreira faz parte de uma dúzia de administradores que pediram compensações ao Estado por não terem sido cumpridos os seus contratos, segundo a Sábado.

 Tiago Botelho desempenhou vários cargos como administrador hospitalar no distrito de Faro e chegou a integrar o último governo de António Guterres enquanto adjunto do secretário de Estado da Saúde. Apesar dessa ligação a um governo do PS, o presidente do conselho de administração da ULS do Algarve foi autarca do PSD. Tiago Botelho era líder da bancada social-democrata em Faro até ser nomeado pelo Governo, em outubro de 2024. Também desempenhou funções como vice-presidente da Assembleia Intermunicipal do Algarve.

Na ULS da Lezíria, o Governo exonerou o conselho de administração liderado por uma militante do PS meses após este ter sido nomeado. Para o lugar de Tatiana Silvestre foi escolhido, em dezembro de 2024, o gestor Pedro Marques, que não tinha experiência de administração hospitalar, apesar de ter estado à frente de vários centros de saúde pela região. É licenciado em gestão e tem um MBA em gestão de unidades de saúde.

Pedro Marques tem um longo percurso como militante do PSD em Abrantes, Santarém. Foi vereador na Câmara de Abrantes, entre 2001 e 2009, e deputado municipal, entre 1989 e 1993. O PSD/Santarém reagiu à nomeação dizendo que não aconteceu por Pedro Marques ser um “amigo do PSD”, mas devido à “competência técnica que lhe é reconhecida”. A estrutura local dos sociais-democratas afirmou que a mudança no conselho de administração desta ULS ia de encontro ao Programa Eleitoral do PSD “sufragado nas eleições” de 2024.

N ULS da Guarda ocorreu mais uma troca direta entre PS e PSD. Para o lugar do socialista João Barranca entrou, em novembro de 2024, a social-democrata Rita Figueiredo. Quando a anterior administração foi nomeada pelo segundo Governo de António Costa, o líder do PSD local, Carlos Condesso, criticou a “politização inadmissível” das instituições de saúde pública. Anos mais tarde, o Governo da AD escolheria para nova presidente da ULS uma militante do PSD. Aliás, Rita Figueiredo foi chefe de departamento na Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo, presidida pelo próprio Carlos Condesso.

Rita Figueiredo também desempenhou funções de diretora de departamento na Câmara da Guarda e foi dirigente do Gabinete Jurídico e de Contencioso da ULS da Guarda, até ser nomeada para liderar esta administração hospitalar. É formada em Direito e completou um curso de especialização em gestão de unidades de Saúde. No seu currículo não consta qualquer experiência profissional em administração hospitalar ou gestão em Saúde.

Nem todos os novos administradores de saúde com ligações à AD ocuparam lugares de destaque nos partidos da coligação. Sara Mota, presidente da ULS de Trás-os-montes e Alto Douro, é militante do PSD mas tem uma participação no partido mais discreta. O PSD de Vila Real reagiu nas redes sociais à sua nomeação, em dezembro de 2025, desejando à “companheira” um “excelente mandato”. Sara Mota é formada em administração hospitalar e, desde 2005, desempenha funções na área em equipamentos de saúde locais.

Luís Matos, presidente da ULS de Gaia/Espinho, é militante do PSD, apesar de também não ser uma figura destacada no partido. No entanto, em 2015, a sua militância foi motivo de notícia no Público quando este foi nomeado para integrar a sua terceira administração hospitalar diferente no espaço de um ano.

O seu nome voltaria à discussão pública em fevereiro de 2025, quando foi nomeado pelo Governo para substituir Rui Guimarães à frente da ULS de Gaia/Espinho. A contestação à não recondução do médico anestesista uniu vários partidos da oposição, desde o Bloco de Esquerda à Iniciativa Liberal, que elogiaram os resultados obtidos pela anterior administração.

Por sua vez, Luís Matos também tem experiência em administração hospitalar. Além da formação na área, desempenhou funções executivas no Hospital CUF Trindade, no Hospital da Prelada, no Centro Hospitalar do Porto, no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro e já tinha sido vogal de uma anterior administração do Centro Hospitalar Gaia/Espinho.

O nome escolhido pelo Governo para presidir à ULS da Região de Leiria, Manuel José Carvalho, tem uma carreira dedicada principalmente aos cuidados primários de saúde, tendo sido coordenador da USF Santiago, em Leiria, entre 2007 e a sua nomeação em dezembro de 2024.

Integrou a comissão instaladora do Hospital de Leiria, entre 1993 e 1995. Foi nomeado para o cargo em dezembro de 2024, horas depois de a anterior administração, presidida por Licínio Carvalho, ter sido demitida. Manuel José Carvalho foi por três vezes eleito deputado municipal do PSD em Leiria, entre 1994 e 2013.

Ana Teresa Xavier foi nomeada no Conselho de Ministros de março de 2025 para liderar a ULS do Arco Ribeirinho, em Setúbal. À altura, cumpria o segundo mandato como deputada municipal do PSD no Barreiro. Substituiu no cargo Maria Teresa Fernandes de Jesus de Sousa Carneiro, que tinha sido chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto e da Saúde, quando Marta Temido liderava a pasta da Saúde.

Antes de ser nomeada presidente da administração da ULS do Arco Ribeirinho, Ana Teresa Xavier era diretora clínica da área hospitalar da mesma Unidade Local de Saúde, onde tinha anteriormente dirigido o serviço de oncologia. A médica oncologista também foi diretora clínica e diretora do serviço de oncologia no Centro Hospitalar Barreiro-Montijo.

Uma das mais polémicas mudanças em administrações da área da saúde que o Governo da AD promoveu foi na ULS de Almada-Seixal. A anterior presidente do conselho de administração manteve-se em funções até ao final do seu mandato, apesar de ter sido convidada a sair pela Direção Executiva do SNS. Para o seu lugar, foi nomeado o militante do PSD Pedro Azevedo.

Natural de Almada, Pedro Azevedo é médico e professor assistente convidado na Faculdade de Medicina de Lisboa. Quando foi nomeado pelo Governo, em fevereiro de 2025, era coordenador de medicina interna na CUF Almada. Anteriormente, foi assistente hospitalar de medicina interna e chefe da equipa de urgência do Hospital Garcia de Orta, assim como médico em Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER).

Para presidir à administração ULS da Cova da Beira, foi escolhido João Marques Gomes, um académico especializado em economia de Saúde. No currículo que acompanhou o despacho da sua nomeação, em outubro de 2024, não constava qualquer experiência de gestão hospitalar.

A revista Sábado escreve que Marques Gomes é militante do PSD. O dirigente máximo desta unidade de saúde da região da Covilhã integrou o gabinete do ministro da Educação, entre 2004 e 2005, anos de governação social-democrata. Por outro lado, o antecessor de Marques Gomes no cargo, João Casteleiro, é socialista e, em outubro passado, foi eleito presidente da Assembleia Municipal da Covilhã.

O parceiro de coligação do PSD no Governo também tem um militante a liderar uma ULS. Trata-se de José Manuel de Araújo Cardoso que foi nomeado em janeiro de 2025 para a presidência da ULS do Alto Minho, onde o anterior conselho de administração foi exonerado por Ana Paula Martins. José Manuel de Araújo Cardoso é militante do CDS, tendo desempenhado funções como deputado municipal em Barcelos e mandatário dos democratas-cristãos no mesmo concelho para as eleições legislativas. Foi também membro dos órgãos distritais do CDS de Braga.

É licenciado em Economia, tendo completado formações complementares na área da gestão em saúde. Foi presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Póvoa de Varzim/Vila do Conde, entre 2015 e 2018, e foi vogal não executivo da administração do Hospital Santa Maria Maior, em Barcelos. Também dirigiu um agrupamento de centros de saúde no distrito de Braga.





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