Minhas aventuras no rio Negro – 10/05/2026 – Giovana Madalosso
Eu só havia entrado na Amazônia via Rio Branco. Há duas semanas, entrei via Manaus. Foi igualmente bom, mas foi outra história. Minha língua, a primeira a sentir, amaciada pelo jambu, rendida pelo x-caboquinho.
Meu destino era o porto, de onde nosso navio partiu, deixando para trás o horizonte da cidade. Navegar pelo rio Negro foi como atravessar um portal, onde já não havia internet, a única conexão possível: com a floresta.
Éramos cinco escritores e um músico, escalados para falar de literatura e afins durante um cruzeiro. Na primeira parada, descemos em uma praia. Eu mergulhava e saía no meio de uma rodinha: falavam de Clarice Lispector. Eu mergulhava e saía no meio de outra rodinha: falavam de Machado de Assis.
Nunca nadei em tão boa companhia e isso incluía até os iletrados: botos-cor-de-rosa que passavam de um lado para o outro, inclusive pelo meio das minhas pernas, com uma narina longa e torneada que me fez entender de onde nasceu a lenda do cetáceo que engravida as mulheres em noites de lua cheia.
Se embarrigar de um animal que certamente não dividiria comigo as tarefas domésticas parece tenso, o que dizer do segundo passeio? Íamos em uma lancha pelo meio dos igarapés, fascinados com a beleza das sumaúmas e dos angelins, quando as nuvens começaram a se adensar.
Tal qual um prenúncio, um fruto grande e pesado caiu entre as fileiras de assentos, rachando-se ao meio. No banco à minha frente, estava Itamar Vieira Júnior que, imediatamente, começou a proteger o seu valioso coco, colocando as mãos sobre a cabeça.
Coloquei sobre a minha o colete salva-vidas, mas não pude escapar da tempestade que parece ter vindo para mostrar quem manda no planeta —não a Amazon, como muitos pensam, mas a sua quase homônima, que seguirá dando as cartas na Terra quando de nós não restar mais copo Stanley sobre copo Stanley.
A chuva era tão forte que precisei botar o queixo no peito para proteger o rosto. Estava assim, de olhos cerrados, respirando fundo, quando ouvi o barulho de uma enorme explosão e, curiosamente, enxerguei tudo vermelho, mesmo estando com as pálpebras fechadas. Pelos testemunhos dos meus colegas, descobri que foi um raio que caiu bem ao lado de nós.
Em menos de vinte e quatro horas, eu escapara de uma gravidez indesejada e da morte, mas provavelmente não escaparia do anonimato. Antônio Prata, também presente, nos lembrou do conselho de seu pai: nunca pegar um voo com alguém mais famoso do que você porque, se o avião cair, você vira “Garrincha e centenas de outros”, “Fernanda Torres e centenas outros”. Ou, no meu caso, “Itamar Vieira Júnior e alguns outros”.
Não foi dessa vez. E, como não foi dessa vez, segui me deleitando com os passeios amazônicos. No dia seguinte, visitaríamos uma comunidade e nos dividiríamos novamente em diversas lanchas para navegar pelos igapós. Na hora de deixar o navio e pegar as pequenas embarcações, as crianças que estavam a bordo se penduraram em mim: “queremos ir com a Giovana, queremos ir com a Giovana!” Estranhei, não sou do tipo brincalhona, aquelas pessoas populares entre os petizes. Um dos meninos apertou meu braço e, me olhando como se eu fosse um poderoso talismã, rematou: “Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
