EUA vs China – Observador

No momento em que a NASA anunciava os planos para a base lunar, foi confirmada também a descontinuação da Lunar Gateway, o projeto para uma estação espacial que ficaria na órbita lunar a servir de apoio para as operações na superfície da Lua. Ricardo Conde explica que, apesar de já existirem compromissos e contratos de colaboração com agências espaciais europeias — a juntar-se ao facto de os Acordos Artemis exigirem transparência entre signatários —, esta “decisão foi tomada unilateralmente pela NASA“, o que pode afetar os “compromissos financeiros brutais nestes ciclos de desenvolvimento muito longos”.
“Os acordos Artemis, como são não vinculativos, são uma cooperação em torno de um bom espírito. Mas vamos ver o que é que sobra desse bom espírito afinal“, reflete o presidente da Agência Espacial Portuguesa.
Do outro lado da moeda — o outro “bloco geopolítico” — está a International Lunar Research Station (ILRS, na sua sigla em inglês). Este é um compromisso mais vinculativo que os Acordos Artemis, mas que define uma clara visão estratégica para a exploração da Lua. Esta ILRS será, como o nome indica, uma base lunar — seja ela à superfície ou em órbita —, mas como uma sede para a exploração aprofundada da Lua. O projeto foi fundado pela Rússia e pela China e anunciado em 2021, um ano após a criação dos Acordos Artemis.
Desde então, 11 países já se juntaram aos planos destas duas potências espaciais. Entre eles estão o Azerbaijão, a Bielorrússia, a Sérvia, o Cazaquistão, o Paquistão e a África do Sul e todos já se comprometeram com algum tipo de contribuição concreta para a futura base lunar internacional que ainda não tem um lançamento previsto, mas que Pequim e Moscovo prevêem instalar nos próximos 10 anos — tal como os “rivais” norte-americanos.
Esta segunda versão da corrida espacial, tal como a primeira, foi lançada por motivos geopolíticos. Afinal, como afirmou Gregory Mann, o representante da NASA na Europa, o primeiro a chegar à Lua acaba por ter a opção de preferência de todo o território lunar para montar as suas instalações para a exploração do satélite. E uma vez que a agência espacial norte-americana está legalmente proibida de trabalhar em conjunto com a chinesa — devido à emenda Wolf, de 2011 —, os esforços para chegar e colonizar a Lua terão de ser feitos individualmente.
Na década de 1960, o panorama espacial, apesar de significativamente menos desenvolvido tecnologicamente quando comparado com a era atual, era muito semelhante. A União Soviética conseguiu colocar o primeiro homem no Espaço e Yuri Gagarin foi a primeira pessoa de sempre a ver a Terra de fora. O próximo objetivo era a Lua, com o intuito de, anos mais tarde, marcar uma presença permanente naquele local para continuar as operações de exploração espacial de forma mais ativa.
Foi com o lançamento do primeiro satélite soviético, o Sputnik, que a administração norte-americana decidiu estabelecer uma agência espacial civil que, no espaço de uma década, viria a colocar o primeiro homem na superfície da Lua, naquele que ficou assinalado como o ponto final naquela corrida espacial. “É engraçado, porque algumas pessoas dizem que, como já lá estivemos, que já ganhámos a corrida. ‘Porque é que estamos numa corrida outra vez? Já ganhámos’, perguntam. Mas já se passaram 57 anos e uma grande parte da população não estava viva naquela altura e não o viu acontecer — outros nem sequer acreditam que realmente aconteceu”, afirmou Gregory Mann em entrevista ao Observador.
Mas fechada a corrida espacial com a União Soviética, nasceu uma oportunidade de colaboração com a ROSCOSMOS, quando foi criada a Estação Espacial Internacional no início do milénio. No laboratório em órbita terrestre baixa, neste momento a cerca de 400 km de Terra, estão reunidos módulos exclusivos da NASA e da ROSCOSMOS, mas também da ESA e da JAXA (agência espacial japonesa). Mas ainda assim, todos os astronautas a bordo desta estação, independentemente do país que representam, são obrigados a trabalhar em conjunto.
