Viva os cromos da bola! – Observador

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Bem-vindos ao “Porque Sim ou Em Resposta” com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de cromos da Bola. Olá, Eduardo. O que acontece naquele instante exato em que uma criança rasga uma saqueta sem saber o que está lá dentro?
Olá, Edite. Eu não sei se estamos a falar só de crianças.
Sim, é verdade.
Faço de conta que sim. É uma situação fantástica. Eu acho que é uma situação absolutamente fantástica, de estar ali a tomar um primeiro contacto com os cromos, de ficar entre o espantado e o desolado, porque quando já se tem muitos, aqueles que acabaram por sair nunca correspondem bem àquilo que nós queríamos. E depois o requinte de estar a pôr cromo a cromo, de rabo virado pro ar, com uma delicadeza e ao mesmo tempo uma paixão fora do lugar, eu acho lindíssimo. E ainda acho mais engraçado, porque depois à tarde, nos centros comerciais, ao sábado e ao domingo, é uma multidão de pessoas a trocar cromos. E eu acho uma delícia, porque são pessoas de todas as idades, de todas as condições, de todas as cores, que é uma coisa absolutamente fantástica. E depois há sempre uma senhora que trata os cromos com uma delicadeza enorme e diz: “Olhe, estes não são meus, são de um sobrinho”. E toda a gente percebe e condescende que são dela, mas ela tem, de certa forma, alguma inibição pra assumir isso. E entretanto, eu já vi muitas reações em relação a isso e às vezes parecem reações muito críticas, como se, no fundo, isto de se poder fazer uma coleção e de repente a vida parece ter andado não sei quantos anos pra trás, e as pessoas aproximarem-se por uma coisa que é, de facto, insignificante, mas que se torna muito importante pra elas, fosse uma coisa que não devesse acontecer. Eu acho isto uma perfeita tolice, porque é bonito. É muito bonito, porque de repente parece que o mundo, afinal, não tem não sei quantas guerras a acontecer, os dias não parecem entediantes pra muitas pessoas, a crise econômica deixou de existir, porque as pessoas de todas as idades quando brincam umas com as outras, o mundo fica tão mais bonito, porque afinal nós somos muito mais simples do que à primeira vista parece acontecer.
Há um prazer muito particular em organizar os repetidos, ordenar por número, completar a caderneta. Esse gesto de colecionar e de querer completar, o que é que revela sobre nós, crianças e adultos?
Olhe, Edite França, às vezes revela que há pessoas que têm um toque obsessivo que vai ao limite. Isto é, desde a folhinha de Excel, onde país a país estão lá os cromos todos em falta e depois risca-se, etc. Àquelas pessoas que põem os seus cromos de uma determinada seleção num envelope à medida, que é uma coisa fora de lugar, e depois os outros noutro envelope. Ou seja, não é um colecionismo como colecionar selos ou moedas, por exemplo, mas é, de facto, este lado lúdico de quem, de repente, pega numa paixão pelo futebol e partilha essa paixão com estranhos, que é uma coisa que eu acho notável, porque de repente, um mundo que às vezes é tão xenófobo e tão alarmado, de repente, faz com que as pessoas, independentemente das suas referências, se aproximam em função do mesmo brincar. E isto é que eu acho que alguns artigos aí muito assanhados contra tudo isto, às vezes não tomam em consideração. Isto é só um brincar, mas é um brincar muito sério que não tarda nada vai terminar, porque quando os jogos voltarem, começarem, acho que é a partir de hoje, ainda por cima, hoje ou amanhã. Se calhar os cromos não existem, mas eu acho uma ternura passar por tabacarias e está lá o Público, a Bola, o Record, o Jornal de Notícias e um letreiro logo abaixo dizer: “Não há cromos”. Eu acho tão bonito que de repente o mundo fique simples quando às vezes nós o complicamos, que eu acho que já ganhamos o mundial, já ganhamos todos o mundial, só por causa dos cromos.
No texto, o Eduardo diz que os pais se enternecem por causa dos cromos e que ao invés de comprarem os filhos com prendas, sentem-se a trocar e a negociar com eles quase como iguais.
Sim, eu perco a conta, Edite, mas perco literalmente a conta às mães e aos pais que deixam os filhos na escola e depois vão bater à porta de várias tabacarias a perguntar se têm cromos, só para que depois, quando os vão mais tarde buscar às escolas, façam o figurão do gênero: “Sou ou não sou a melhor mãe do mundo?” Exage. Vamos lá pegar nos cromos. Eu acho que isto é de uma ternura absolutamente sem fim. Um dia devíamos falar disso. Acho que as escolas não permitem que os miúdos brinquem e agora parece uma epidemia. Proíbem-nos de jogar à bola, mas que parvoíce proibir de jogar à bola. Mas depois, à boleia dos cromos, lá estão eles todos a meterem-se uns com os outros e a abafar cromos uns aos outros. Às vezes a impressão que dá é que nós não percebemos como é que eles brincam e às vezes não lhes damos oportunidades para brincar.
E o que é que ao longo da vida de adulto se vai perdendo na capacidade de nos espantarmos? E se consegue-se reaprender, por exemplo, nestas fases?
Consegue. Edite, é bem a prova de que nós não perdemos qualidades. Afinal de contas, adormecemo-las ou deixamos que às vezes nos adormeçam para elas, porque brincar não é um exclusivo das crianças, sejam os cromos, seja outra coisa qualquer. Ainda outro dia nós conversávamos acerca disso. E são tão poucas as oportunidades onde as pessoas de várias idades brincam em torno de interesses comuns e brincam debatendo distâncias. Deixam de ser relações oblíquas. Não é uma pessoa muito crescida e uma pessoa muito pequenina. Não, são pessoas a dividir gostos, que eu acho que é muito engraçado, tirando muitas vezes os episódios desportivos em que quando é preciso, todas elas se levantam para gritar um golo e de repente, tudo aquilo parece uma questão de vida ou de morte, porque é de tal forma grande o êxtase e tão importante que uma pessoa se alegra imensamente e nem sequer se preocupa quem é a pessoa que está ao lado, grita com ela e esbaçaça. E de facto, tirando estes pequeninos episódios, acontece muito poucas vezes e é porque nós andamos muito mais distraídos do que devíamos ser. Isso sim, é uma perda muito grande.
E perdemos isso também enquanto pais, enquanto pessoas?
Sim. Sempre me preocupou muito. Lembro-me do Dr. Brazelton, porque sempre tive uma admiração imensa, dizer que os pais tinham que ler todas as noites uma história. Claro, tinham, vale que vale. Mas eu sempre me inquietei um bocadinho, porque uma coisa é terem de ler, ou seja, uma obrigação. Ler uma história com alma ou lê-la de uma forma funcional era quase como se fosse a mesma coisa. E não é. E de facto, nestas questões dos cromos, os pais ficam tão enternecidos que não questionam o valor dos cromos, que já agora são caríssimos. Acho que é um valor absolutamente especulativo. A FIFA e os irmãos Panini agradecem, mas é como se tudo valesse, ou seja, eles ficam tão agradecidos por ver aquela luz no olhar dos filhos que, de uma forma rigorosamente oportunista, como os pais fazem, criam com toda a ternura condições para que aquela luz se alimente. E é tão bonito ver o olhar de orgulho dos miúdos quando trazem mais um maço de cromos ou quando conseguiram trocar 20 cromos por um muito difícil. E de repente, aprendem tantas coisas à boleia daquilo que aparentemente é insignificante. Eu acho que os pais deviam mais convictamente envolver-se nos gostos dos filhos, porque assim brincavam mais vezes com eles e de uma forma convicta, e isso, sim, faz a diferença.
Viva os cromos, Eduardo.
Viva os cromos.
Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Edite.
