Vinho bom é vinho caro? Dez fake news para tirar de sua taça

Vinho bom é vinho caro? Dez fake news para tirar de sua taça



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Umberto Eco tinha uma relação particularmente interessante com a internet. Em 2015, o escritor e filósofo italiano observou que as redes haviam dado às pessoas a liberdade de dizer em público aquilo que, antes, só tinham coragem de falar numa mesa de bar, depois de alguns goles. Eco morreu no ano seguinte. Não chegou a assistir à transformação completa da internet em uma espécie de mesa de bar global — com a diferença de que, agora, todo mundo tem microfone, plateia e, eventualmente, uma opinião sobre tudo — e o mundo dos vinhos, infelizmente, não escapa a esse besteirol digital.

Certezas absolutas de “especialistas” sobre tintos, brancos, rosés e espumantes ganham tração com velocidade impressionante, ao sabor dos algoritmos bêbados. Faz parte desse blend de bobagens as dicas “certeiras” de alguns influencers. Esse mar de mitos e mentiras que circulam pela internet desafia a famosa frase “In vino veritas” (no vinho está a verdade).

Para colocar um freio de arrumação a esse despejo incessante de desinformação nas redes, convidei Vinícius Santiago, sommelier do Grupo Víssimo, professor da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul e Italian Wine Ambassador. Ele ajudou a desvendar dez das mais persistentes fake news do universo do vinho.

A primeira é provavelmente a mais famosa: quanto mais velho o vinho, melhor. Não é bem assim. Segundo Vinícius, a maior parte dos vinhos deve ser consumida jovem, entre o terceiro e o quinto ano depois da safra. Alguns são feitos para envelhecer; outros, não. Ou seja: aquela garrafa guardada durante dez anos para “uma ocasião especial” pode ter esperado tanto que perdeu justamente a ocasião. A frase de Vinícius resume bem a ideia: ocasião especial é quando a gente abre uma garrafa de vinho — não quando decide esperar por ela.

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A segunda fake news é quase uma questão de autoestima: vinho bom é vinho caro. Essa relação é mentirosa. Há excelentes vinhos acessíveis. E existe ainda um detalhe que o preço não consegue resolver: gosto pessoal. É perfeitamente possível provar um vinho caro e simplesmente não gostar dele. Pode não ter nada a ver com o seu paladar, com o seu estilo ou com a noite de quarta-feira em que você só queria um vinho para acompanhar sua série favorita. Grife pode ser ótima, mas nem sempre condiz com seu paladar. Ninguém é obrigado a gostar daquele rótulo famoso, incensado e carésimo.

A terceira fake news muito popular no universo digital é especialmente perigosa em um país tropical: tinto deve ser servido à temperatura ambiente. Vamos pensar um pouco: de qual ambiente essa turma está falando? Uma cave? Um piquenique em um parque na Escandinávia ou um brinde ao cair da tarde em um lodge na África? Em São Paulo, uma temperatura ambiente de verão pode passar dos 30 graus. Não há vinho que mereça esse castigo. Tintos mais encorpados podem ser servidos entre 16 e 20 graus; os mais leves podem ficar ainda mais frescos. E, se você não tem adega, há uma regra amplamente difundida entre os ingleses: a vinte-vinte. Ou seja 20 minutos na porta da geladeira são suficientes para deixar o tinto em fresco, em cerca de 15 graus ou 20 minutos para os branco, mas no congelador. Mais importante: se você gosta do vinho um pouco mais gelado, beba assim. Afinal, a taça é sua.

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A quarta fake news atende pelo nome de tampa-rosca. Ainda existe quem olhe para um vinho com screw cap e conclua, imediatamente, que ali não pode haver coisa boa. Pois há. Tecnicamente, a tampa-rosca pode ser tão eficiente quanto a rolha de cortiça e é usada por produtores de excelentes vinhos, especialmente em países como Austrália e Nova Zelândia. O publisher da revista Adega, Christian Burgos nos contou no programa que até a tradicional região de Bordeaux, normalmente resistente à inovações, tem feito testes com vinhos de guarda (e bem caros) com esse tipo de vedação.

A quinta mentira: vinho brasileiro não tem qualidade. Essa talvez seja apenas uma versão vínica da velha síndrome de achar que tudo o que vem de fora é melhor. Todos os países fazem bons vinhos. E todos fazem vinhos ruins. Vinhos brasileiros já ganharam de rótulos estrangeiros em degustações. A nacionalidade, sozinha, não garante qualidade — nem condena uma garrafa. O melhor caminho é provar.

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A sexta fake news transforma a harmonização em uma tabela de matemática: tinto para carne vermelha, branco para peixe. “É uma simplificação útil, mas continua sendo uma simplificação”, contou-me Vinicius. Brancos podem funcionar muito bem com carnes mais magras, como vitelo. Tintos leves, com pouco tanino, também podem acompanhar determinados peixes. A harmonização fica muito mais interessante quando a gente começa a experimentar em vez de obedecer a regras como se fossem leis de trânsito. Claro que essa experimentação não inclui abrir um Malbec no meio do rodízio de sushi.

A sétima lorota muito difundida por aí é uma das minhas favoritas: quanto mais fundo o côncavo da garrafa, melhor o vinho. Há quem escolha a garrafa pelo tamanho daquela concavidade no fundo. Mas isso tem relação com o design e com o volume da garrafa, não com a qualidade do que está dentro. Aliás, garrafas pesadas também não são sinônimo de vinho melhor. O peso protege? Pode proteger. Mas, para a conservação do vinho, a cor do vidro é mais importante. E existe ainda uma questão ambiental: quanto mais pesada a garrafa, maior o impacto de seu transporte. Portanto, escolha pelo rótulo, pela uva, pela denominação de origem ou, melhor ainda, pelo seu gosto. Não pela profundidade do fundo côncavo.

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A oitava fake news costuma aparecer justamente quando alguém torce o nariz para um rosé: “isso é sobra de vinho tinto misturada com branco”. Não é. A maior parte dos rosés é produzida com uvas tintas que ficam pouco tempo em contato com as cascas, extraindo apenas parte da cor. Enquanto um tinto pode permanecer em contato com as cascas por dias, o rosé pode ficar apenas algumas horas.
Existem, inclusive, regiões inteiras especializadas nesse estilo. A Provence, no sul da França, é o exemplo mais conhecido. Rosé, portanto, não é o resto da festa. Pode ser a festa.

A nona falácia: colocar gelo no vinho é uma heresia. Verdade? Claro que não. Herético mesmo é alguém se sentir dono da sua taça. Em diferentes lugares do mundo, o vinho aparece em coquetéis, em sangrias e em diferentes formas de consumo. Se você gosta de gelo no vinho, coloque gelo. Se não gosta, não coloque. A regra mais importante continua sendo simples: beba como preferir. E, se alguém reclamar, Vinícius tem uma solução bastante democrática: você pode beber sozinho.

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Chegamos, finalmente, à décima fake news. Ela é de tempos d’antanhos: a colherinha dentro da garrafa de espumante conserva o gás. Meu Deus, de onde veio essa história? Difícil saber. O fato é que não conserva. A pequena colher pendurada no gargalo é um daqueles truques domésticos que atravessaram décadas com uma confiança que a ciência, aparentemente, nunca autorizou. Se quiser preservar as borbulhas depois de abrir a garrafa, use uma tampa própria para espumantes e coloque a garrafa na geladeira. Ou faça o que o bom senso recomenda: beba.

Porque, no fim das contas, talvez a principal fake news sobre vinho seja justamente a ideia de que precisamos conhecer todas as regras antes de nos permitirmos gostar dele. Como diz Vinícius, para beber vinho basta ter vontade. E vinho. O resto a gente descobre no caminho. E há uma última lição, talvez a mais importante de todas: prove. “Gostou? Continue. Não gostou? Cancele”, ensina o mestre. A vida é curta demais para beber vinho ruim duas vezes.

Na próxima terça, 8, às 21h, no AL VINO da Veja+ TV, a gente conversa sobre essas e outras verdades — e mentiras — do mundo do vinho. Sem medo de perguntar. Sem medo de experimentar. E, principalmente, sem uma gota de enochatismo.



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