Um conto ao pé da letra – 18/07/2026 – Muniz Sodré

Um conto ao pé da letra – 18/07/2026 – Muniz Sodré


“O Conto da Aia”, uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem “aias”, reprodutoras de membros da elite dirigente.

Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, “O Conto da Aia” ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.

O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: “mulheres votam mal, especialmente as solteiras”.

O mais grave de toda essa situação é que as próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina leve à autopunição.

O fenômeno já tinha sido observado por Erich Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que “alguns indivíduos só ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel” (em “Estudos sobre a autoridade e a família”, 1936). De fato, esposas de direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do Alcorão: “Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns em relação a outros”.

Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do patriarcado branco. “O Conto da Aia” é mera antecipação do recado num país em que a infertilidade é problema real.


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