Sucesso da Netflix, filme sobre Elize Matsunaga tem “erros graves”, diz advogado da família
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- Netflix lançou filme sobre Elize Matsunaga, que tem registrado alta audiência.
- Advogado da família de Matsunaga alega que a obra apresenta “erros graves” na narrativa.
- O longa retrata o caso de assassinato de 2012 envolvendo a então enfermeira.
- Críticas apontam distorções que podem prejudicar a memória da vítima e a imagem familiar.
O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que atuou na acusação contra Elize Matsunaga, afirmou em entrevista ao Metrópoles que o filme “Elize: Sombra de Uma Mulher”, da Netflix, comete “erros gravíssimos” ao retratar o assassinato de Marcos Matsunaga, ocorrido em 2012.
Segundo D’Urso, a produção diverge em pontos centrais das provas apresentadas no julgamento, desde a dinâmica do disparo até os instrumentos usados no esquartejamento, distorcendo a versão que chegou aos tribunais e influenciando a percepção pública sobre o crime.
O advogado reconhece qualidades na produção da Netflix, mas traça uma linha clara entre o mérito artístico e a fidelidade aos fatos. “O filme vale como uma obra de ficção, mas, no que diz respeito ao crime em si, comete erros gravíssimos”, disse.
Para ele, detalhes fundamentais sobre a forma como Marcos Matsunaga foi morto foram alterados ou simplesmente descartados em nome de escolhas narrativas da produção.
A avaliação de D’Urso parte de uma premissa direta: se a Netflix tivesse se baseado nas provas apresentadas durante o julgamento, o filme seria, nas suas palavras, “bem diferente”.
O advogado não questiona o direito da produção de fazer escolhas artísticas, mas sustenta que essas escolhas, no caso de um crime real com condenação transitada em julgado, têm consequências sobre como o público compreende o que de fato aconteceu.
Divergências entre filme e provas do processo
O ponto de maior atrito entre a série e a versão judicial está na dinâmica do disparo. A produção da Netflix mostra Marcos e Elize de pé na sala quando ela atira, após ser confrontada pelo marido.
Segundo D’Urso, a reconstituição feita pelas autoridades aponta direção oposta: Marcos estava agachado no momento do tiro. A trajetória descendente da bala e vestígios de pólvora encontrados na região atingida, compatíveis com distância equivalente ao comprimento de um braço, sustentam essa conclusão pericial.
A narrativa do advogado sobre a chegada de Marcos ao apartamento também contraria a cena retratada na série. “Ele entra no apartamento com a pizza em uma das mãos e abre a porta com a outra. E ele encontra com ela, com o revólver em punho, em cima dele para disparar. A única reação dele, tendo convicção de que ela iria atirar, foi se encolher”, relatou D’Urso.
Outro dado ausente da série, segundo o advogado, é ainda mais grave: a autópsia revelou que Marcos Matsunaga ainda estava vivo e respirando quando Elize começou a desmembrá-lo, e que a causa da morte foi asfixia por aspiração de sangue durante a decapitação, não o tiro na cabeça.
Quanto ao instrumento do esquartejamento, D’Urso sustenta que Elize teria comprado uma serra elétrica no Paraná e a transportado na bagagem da babá, ferramenta que nunca foi localizada pela polícia. O filme retrata uma faca, versão apresentada pela própria Elize no julgamento.
Implicações das alterações na narrativa
Para D’Urso, a omissão da serra elétrica não é detalhe menor: explicaria a precisão e a rapidez com que o corpo foi esquartejado, elemento que, segundo ele, pesou na avaliação do crime pelos tribunais.
A arma usada no disparo também merece atenção na versão do advogado. A pistola era um presente do próprio Marcos a Elize, que, segundo D’Urso, a usava, limpava e treinava com ela. Ao contrário das armas de caça do casal, guardadas em cofre, essa e outras armas ficavam distribuídas em pontos estratégicos do apartamento, medida que o advogado associa ao período de negociação da venda do grupo Yoki, concluída pouco antes do crime.
Tomadas em conjunto, as alterações apontadas por D’Urso, segundo ele próprio, distorcem a versão que chegou aos tribunais e comprometem a compreensão da dinâmica do crime pelo público. A Netflix não se manifestou sobre as críticas.
