Será que Putin está a tentar manipular Donald Trump? – Observador

Será que Putin está a tentar manipular Donald Trump? – Observador



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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Boa noite, Martim, muito obrigado pelo convite.

Queria começar por falar sobre o Oriente Médio. Nos últimos dias vimos um escalar enorme de tensões, vários ataques entre Irão e Estados Unidos, civis mortos por causa de ataques norte-americanos em Sirik, no Irão, um casamento que fez, pelo menos desde a última contagem, mais de 15 mortos. O Irão diz que matou soldados norte-americanos também, apesar de a Casa Branca não confirmar esses dados. Sabemos também que têm saído várias notícias e reportagens de investigação que ditam que os Estados Unidos estão com falta de armamento defensivo, neste caso, mísseis Patriot. E é sobre isto que vamos falar precisamente. Donald Trump diz hoje que as Forças Armadas norte-americanas têm todo o armamento necessário para combater e principalmente defenderem-se dos ataques iranianos. No entanto, negou o envio de mísseis Patriot à Ucrânia porque os Estados Unidos precisavam desses mísseis para a guerra contra o Irão. Também o secretário do exército norte-americano, Dan Driscoll, demitiu-se do cargo há uns dias e uma das grandes razões era precisamente a falta de preparação das Forças Armadas americanas para entrar nesta guerra, para além de outras divergências. Driscoll era conhecido por ser o homem da tecnologia no Pentágono e chateou-se com Hegseth porque o secretário da Defesa não lhe dava ouvidos em relação a sistemas militares que Driscoll avisou que eram necessários. Estas novas declarações de Donald Trump a dizer que os Estados Unidos têm todo o armamento necessário e as ações que tomou com a Ucrânia mostram uma espécie de incongruência. Em que é que ficamos? Há ou não armamento suficiente do lado dos Estados Unidos?

O primeiro comentário é que seja qual for a realidade dos factos e aquilo que efetivamente acontecer neste momento, será difícil termos acesso à informação mais privilegiada, confidencial, obviamente, porque são temas muito sensíveis e portanto aquilo que vamos sabendo é aquilo que vamos conseguindo ler através das notícias e acompanhando nas notícias que vão saindo, qualquer um dos cenários é bastante inquietante. Por um lado, não há muitas dúvidas de que, de facto, esta demissão mostra aquilo que há muito tempo vinha sendo evidente aos olhos de qualquer pessoa, de qualquer analista, que é a clara incompetência e a clara impreparação de Pete Hegseth para o cargo que ocupa, que leva a um clima de grande desconfiança das lideranças militares e até mesmo da liderança política que era subordinada em relação à sua postura, à direção e ao rumo que pretendia conferir à ação militar dos Estados Unidos, isso já vinha sendo notório. Também dificuldades de compreensão relativamente à pressão que é exercida sobre os próprios serviços secretos de inteligência que acabam por condicionar, de certa maneira, a fiabilidade dos factos que são transmitidos aos líderes e aos decisores políticos, porque acabam por se transformar quase em veículos de repetição de uma propaganda que o poder político pretende divulgar e propagandear, o que obviamente retira qualquer credibilidade à informação confidencial ou de inteligência que os serviços secretos deveriam estar a fornecer ao poder político, isso é obviamente muito inquietante. E por outro lado, é de certa maneira preocupante assistir a este declínio, seja ele factual ou aparente, daquela que foi e daquela que é ainda, estou em crer, a maior potência militar mundial, com todo o peso que isso representa do ponto de vista dos equilíbrios geopolíticos, até das próprias relações conosco, com a Europa, e a forma que isso pode implicar alterações muito significativas do equilíbrio de poderes entre as grandes potências. E obviamente, este arrastar do conflito com o Irão a demonstrar até hoje uma grande preparação do ponto de vista defensivo, de entender os tempos e a forma de exercer pressão política e militar sobre o atacante, neste caso os Estados Unidos, mas também afetando os seus aliados e toda uma conjuntura internacional que nós sentimos diariamente nos nossos bolsos, através do aumento do preço das commodities, é uma agravante adicional que demonstra que, de facto, não há ou não está a haver uma boa gestão da parte dos Estados Unidos de toda esta invasão e não se antevê como é que os Estados Unidos podem de facto encarar com estas lacunas que agora se vão reconhecendo por um tempo muito mais prolongado.

Tem algum fim à vista esta guerra, tendo em conta, por exemplo, os Estados Unidos decidiram fazer a pressão econômica ao Irão. O Irão diz que está preparado para pelo menos dois anos, que já tinha previsto que essa pressão econômica existisse, então está preparado durante dois anos. Em termos defensivos, o Irão também tem sempre dito que seja por modo aéreo vão se defender, até incentiva uma invasão terrestre a dizer que se defendem bastante bem e sabemos que geograficamente o Irão tem a cordilheira montanhosa e tem o estreito de Ormuz, é muito difícil de entrar, portanto, tem essa vantagem geográfica também. Há algum fim à vista? Como é que os Estados Unidos agora podem abordar esta guerra, esta ofensiva que iniciaram com Israel? O que é que pode ser feito para colocar um fim a isto?

Eu desde o início que sou muito cético em relação a qual é que poderá ser, ou tenho muita dificuldade em identificar qual é que poderá ser o desfecho deste conflito do ponto de vista dos Estados Unidos, de poder sair com pelo menos a possibilidade de vender ao seu eleitorado ou eleitorado americano uma vitória ou algum ganho estratégico neste conflito, porque eu nunca consegui entender qual foi o racional Que esteve na origem desta invasão.

Não acredita na questão nuclear?

Esse é o único argumento efetivamente utilizado que tem alguma racionalidade no meu entender, mas que é um argumento que Benjamin Netanyahu usa há mais de 20 anos para tentar-

30, aliás.

Há 30, exatamente, para tentar convencer as sucessivas administrações americanas a envolverem-se num conflito desta natureza e por algum motivo que não é despiciendo, não houve até este momento, ou não tinha havido até este momento, nenhuma administração americana disponível para aceder a uma ação deste nível. Ia dizer uma loucura, porque é quase isso que acabou por acontecer. E, portanto, eu não consigo antever como é que Donald Trump venderá ao seu eleitorado, que obviamente sofrerá imenso e terá muita dificuldade em aceitar. Enfim, nós vimos a movimentação do eleitorado a sair e a fugir de Donald Trump pela primeira vez com esta invasão, porque representava uma quebra muito significativa de todas as promessas eleitorais sólidas que Donald Trump sempre apresentou, mas a chegada de corpos de militares americanos aos Estados Unidos, vítimas desta guerra, terá consequências absolutamente nefastas do ponto de vista da popularidade do presidente norte-americano e que dificilmente ele conseguirá explicar e até, de certa maneira, reconquistar esse eleitorado que será perdido irremediavelmente, estou convencido.

Eu queria agora pegar em declarações de Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro israelita disse há pouco, com toda a certeza, que Israel tem a capacidade de derrotar o regime iraniano. Ora, tendo em conta também que Israel é altamente financiado pelos Estados Unidos, seja financiamento militar, neste caso, uma ajuda militar muito grande, diria que Netanyahu inclui os Estados Unidos nesta suposta vitória. O Financial Times reportou esta semana que os russos estão a ajudar o Irão a desenvolver mísseis e a enviá-los também. Portanto, fica aqui comprovada oficialmente uma ajuda militar por parte da Rússia ao Irão, porque antes sabia-se que existia uma ajuda, mas era apenas em ajuda de serviços de informação. É possível, como Netanyahu diz, Israel derrotar o Irão, tendo em conta que há uma confirmação de que a Rússia está envolvida militarmente? E se sim, como?

É difícil. Eu acho que essa é a maior incógnita. Isto porque nós estamos também em Israel a aproximar-nos a passos largos das eleições parlamentares. As sondagens neste momento, enfim, obviamente ainda com alguma distância, põem Benjamin Netanyahu atrás, se houver uma coligação de forças mais progressistas com o apoio das forças partidárias palestinianas em Israel, o que poderia obviamente ter algum impacto do ponto de vista da inversão da própria política externa israelense. Não acho que mudasse radicalmente. Não acho que seja esse o cenário político do ponto de vista da política externa israelita, mas obviamente poderia ter consequências muito significativas. Isso, no meu entender, pode conduzir a que da parte do governo de Netanyahu e dos seus apoiantes, que estão também na sua coligação ou no espectro da sua coligação, radicalizarem ainda mais a sua ação e utilizarem a ação militar direta sobre o Irão como forma de, primeiro, prova de que a sua política está correta e, portanto, há ameaça real ali e é preciso continuar os esforços para eliminar a ameaça que Israel vê como a número um, o Irão. E em segundo lugar, demonstrar que essa vitória era possível e, portanto, redobrar os esforços para que ela possa ser possível antes das eleições e conseguir com isso um ganho. Isso tem um perigo enorme, porque obviamente arrisca a que o Irão aumente o apoio aos seus proxies, que tem feito através do Iêmen, mas também no Líbano, através do Hezbollah, e isso leva a uma escalada da violência e um aumento dos conflitos indiretos e diretos, porque o Irão obviamente continuaria os seus esforços defensivos e ofensivos também contra Israel. Isso terá consequências trágicas para a região, para as populações, para os civis, que acabam sempre por ser aqueles que são mais afetados no meio de tudo isto.

Eu queria agora falar sobre a guerra da Ucrânia, uma guerra que nos afeta mais diretamente. Se bem que o Médio Oriente também nos afeta muito diretamente. O João há bocado falava da questão das comodidades, do petróleo, do gasóleo e da gasolina, que nos afeta, mas esta guerra está mais perto de nós e com a nova acusação por parte da Alemanha de que a Rússia esteve envolvida com uma tentativa de ataque ao aeroporto de Leipzig, depois aumentar um pouquinho as hostilidades com a Rússia, e também com a visita do diretor da CIA a Moscovo, que supostamente John Ratcliffe foi falar com as secretas russas e avisar de que sabiam que a Rússia planeava atacar um país do Báltico da NATO, pelo menos em 2029. Portanto, existe aqui um escalar de tensões. E agora Zelenskyy há poucos minutos, há pouco menos de meia hora, afirma que os representantes dos Estados Unidos vão visitar Kiev e Moscovo nos próximos dias. A Rússia já tinha dito que estaria, neste caso não foi a Rússia, foi mesmo Vladimir Putin, portanto o maior representante possível da Rússia, Vladimir Putin, na conferência que esteve no Quirguistão, disse que queria chegar a uma solução de paz estável e duradoura, qualquer que seja essa solução para Putin, mas que estaria disponível apenas para falar com os Estados Unidos. Os Estados Unidos seriam o único país a negociar essa paz com a Rússia Donald Trump também tem aproximado muito os Estados Unidos e a Rússia. Já no primeiro termo que teve como presidente, aproximou essa relação entre os Estados Unidos e a Rússia. Também já teve algumas declarações onde defendeu Putin. Relembro, por exemplo, numa entrevista em fevereiro de 2022, que disse que Putin ia ser um peacekeeper, alguém que ia manter a paz quando enviou as tropas russas sob esse pretexto. Os Estados Unidos são mesmo a única alternativa para um fim deste conflito? Acha que os Estados Unidos conseguem mesmo chegar ao fim deste conflito ou acha que a Europa tem que entrar na mesa de negociações?

Eu acho que os Estados Unidos têm um papel a desempenhar, sobretudo porque há pontos de contacto entre a administração americana e o Kremlin, e isso tem se verificado ao longo do tempo, embora esses contactos e essa proximidade, em alguns pontos até ideológica, apesar das diferenças do ponto de vista estratégico e das rivalidades do ponto de vista estratégico que existem, nunca se traduziram em grandes resultados ou grandes avanços na aproximação a um fim de um conflito, até mesmo a um cessar-fogo. Houve alguns momentos em que esse cessar-fogo foi possível, muito limitado, com continuação até de algumas ações que, em teoria, deveriam quebrar esse cessar-fogo, mas houve alguns aspetos positivos. No entanto, sempre fez parte da estratégia de Putin e do Kremlin, por um lado, deslegitimar Zelensky como interlocutor. Putin tentou sempre, de forma sucessiva, dizer que Zelensky não poderia ser o seu interlocutor porque já deveria ter havido eleições na Ucrânia e que conduzissem eventualmente à substituição de um novo líder, de um novo presidente ucraniano, e sempre fez parte da estratégia tentar deslegitimar Zelensky ou pelo menos diminuir o seu apoio e a sua projeção política internamente na Ucrânia. E, em segundo lugar, fragilizar a Europa e dividir a Europa de forma que permita diminuir ou enfraquecer os efeitos das sanções aplicadas por parte da União Europeia e, de certa maneira, enfraquecer a capacidade de apoio que a Europa pudesse prestar à Ucrânia. Não o conseguiu, conseguiu parcialmente durante algum tempo, na medida em que a Hungria foi um cavalo de Troia durante algum tempo no Conselho Europeu com o Órban. E agora que isso está ultrapassado e parece haver mais união no seio do Conselho Europeu para que as sanções possam ser aplicadas, para que as medidas relativamente ao apoio à Ucrânia possam avançar de uma forma mais célere, Putin obviamente tenta novamente criar divisão, deslegitimar o papel e a intervenção que a União Europeia pode ter na mediação do conflito. E fá-lo de uma forma direta, através destas declarações, recusando-se reconhecer o intermediário europeu para qualquer tipo de mediação, mas também de forma indireta e não assumida, como é em particular os ataques híbridos que tem feito, que causam obviamente muito temor da parte dos Estados europeus e que provocam reações como esta mais direta e enérgica do chanceler alemão, mas também através de interferência de contrainformação e de interferência direta nas eleições. Recentemente, o Observatório Europeu de Cibersegurança já observava um aumento muito significativo da interferência russa nas eleições suecas que estão prestes a acontecer, não serão neste fim de semana, serão no próximo. E para o ano, em 2027, teremos eleições em vários países europeus, em particular em França, em Itália, na Polónia e em Espanha, que obviamente serão alvos muito particulares e muito apetecíveis para o Kremlin de poder interferir e com isso alterar o curso e o resultado dessas mesmas eleições. Obviamente, a Europa tem que ter um papel ativo nesta mediação, porque dela depende a sua própria segurança interna e a Ucrânia faz parte dessa estratégia.

Agora, só muito rapidamente e vou fazer aqui uma ponte a 2024, neste caso aos debates que existiram nos Estados Unidos para a eleição do presidente norte-americano, neste caso ganhou Donald Trump, mas como adversário tinha Kamala Harris. E Kamala Harris num dos debates disse que Donald Trump ia ser, é a melhor expressão que posso utilizar, ia ser uma espécie de comido pelos ditadores, neste caso por Vladimir Putin, e que entregaria a Europa a Putin. Donald Trump tem criado esses laços com a Rússia, entre os Estados Unidos e a Rússia. Teme que esse seja um dos casos, tendo em conta que Donald Trump, por exemplo, já elogiou bastante vezes Putin, quando esteve na invasão ucraniana disse que ele era um génio, também diz sempre ter uma boa relação com Putin. Teme que Donald Trump possa ser manipulado por Putin como Kamala Harris sugeriu? Muito rapidamente.

Manipulado talvez seja demasiado forte. Há obviamente laços que eu acho que são ideológicos do ponto de vista da visão política que ambos preconizam nos seus países, e parece ter havido já ao longo do tempo alguma capacidade de interferência ou de influência de Vladimir Putin, algum ascendente sobre o presidente americano. Eu acho que o presidente americano, de certa maneira, aderiu um bocadinho à teoria das esferas de influência, em que o território americano, o continente americano, Norte e Sul, fazem parte da esfera de influência norte-americana. Isso depois abrange também o Ártico e toda a navegação do Atlântico Norte, e entregaria a Europa, ou pelo menos uma parte da Europa, à esfera de influência russa, com a Ásia e a cesta asiática recaírem sobre a esfera de influência chinesa. Isto é uma perversão completa daquilo que é a ordem internacional, o direito internacional, e eu acho que em nenhuma circunstância a Europa pode aderir a esta visão, não adere de maneira nenhuma. E, portanto, a visão de Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano, é tão importante nesse sentido porque aponta um caminho alternativo, que não se deixe cair nesta lógica de vários polos de influência e várias superpotências que exercem a sua influência de acordo com a força que têm e dispõem num determinado momento.

E apenas muito rapidamente, porque não consegui fazer essa questão na questão que fiz antes, acha que isso é uma das razões para Putin querer precisamente os Estados Unidos para negociar? Acha que Putin acha que consegue fazer essa manipulação?

Não só porque tem ascendente, mas porque a segurança e a defesa da Europa deixaram de ser uma prioridade do ponto de vista da política externa americana. Eu até argumentaria que esse movimento não começou só com Donald Trump, vem de trás, mas que atingiu o seu pico máximo com esta administração americana. Veja essa postura que tem tido em relação à NATO, as declarações de Marco Rubio e Pete Hegseth em relação aos líderes europeus e o desdém com que veem as lideranças europeias. Portanto, há obviamente aqui um afastamento muito significativo entre os dois lados do Atlântico, que eu acho que Putin tenta explorar na forma como vê a possibilidade de pensar um futuro pós-guerra na Ucrânia.

Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o “Gabinete de Guerra” hoje com a análise de João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Muito obrigado pela análise.

Muito obrigado, Martim Bobone.

O “Gabinete de Guerra” está de regresso amanhã. Fica disponível, como sempre, em podcast.





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