Se PS viabilizar OE dá espaço para Governo “elevar ataque” – Observador

O secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, considera que se o PS viabilizar o próximo Orçamento do Estado estará a dar condições ao Governo para “elevar o ataque” e liberta o Chega de ter de o fazer.
Este aviso aos socialistas foi feito por Paulo Raimundo durante o comício da Festa do Avante!.
O líder comunista afirmou que, se o PS viabilizar o Orçamento do Estado para o próximo ano “confirma a sua cumplicidade com a política de direita e oferece ao Governo PSD/CDS, ao Chega e à IL, mais espaço para elevar o ataque”.
“Se o PS o fizer terá ainda de assumir a responsabilidade pelo desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, o ataque à escola pública, a especulação imobiliária, o ataque aos salários, às reformas e à Segurança Social, pelas privatizações, pelo aumento dos preços”, defendeu.
Raimundo considerou também que, ao fazê-lo, o PS “mais uma vez não só liberta um Chega, comprometido até ao espaço com a política em curso, de ter de o fazer, como lhe dá mais espaço para continuar a enganar o povo”.
Num discurso de mais de meia hora, o secretário-geral do PCP afirmou também que os problemas do país não são fruto “de incompetência, da chico-espertice ou de casos que envolvem ministros, cujas explicações deixam muito a desejar”.
O secretário-geral do PCP salientou que o “problema é mesmo a política do Governo, uma política de desastre, que merece censura”, e acrescentou que também “são censuráveis” aqueles que a apoiam, nomeadamente Chega, PS e IL.
“Uns e outros, à vez ou em conjunto, dão a mão, dão o braço, dão o corpo todo à política desastrosa que está em curso. E não há gritaria ou linhas vermelhas, não há manobras ou desvio de atenções que iludam a questão central: a política ao serviço dos grupos económicos é incompatível com as necessidades e com as respostas da maioria, as necessidades e as respostas para o país”, salientou.
De fora do discurso do secretário-geral comunista ficou a moção de censura ao Governo apresentada pelo Chega, que será debatida e votada na terça-feira. No sábado, Paulo Raimundo recusou condicionar este momento do partido “à agenda de outros”.
No ano em que passam 50 anos da aprovação da Constituição, o comunista acusou ainda a direita de querer, “a mando do capital, reconfigurar, rasgar mesmo” a Lei Fundamental.
Sobre a situação nacional, Raimundo considerou que o primeiro-ministro fala em aumento de rendimentos, mas “a sua propaganda esbarra na realidade do dia a dia, em que os salários e as reformas são comidos pelo brutal aumento do custo de vida”.
“Lutemos pela regulação dos preços dos alimentos, da energia e dos combustíveis, pela fixação da botija de gás em 20 euros, pela descida do IVA para 6% na energia e telecomunicações. Que ninguém falte à exigência do aumento da oferta de transporte público no caminho da sua gratuidade”, apelou.
Sobre os 50 anos da Festa do Avante!, o secretário-geral do PCP destacou a festa como um momento “ímpar que ao longo de décadas marcou e marca o país e sucessivas gerações na cultura, nas artes, na afirmação dos valores de Abril e nas grandes causas da humanidade”.
“Esta não é uma celebração virada para o passado, é sim, uma grande afirmação do futuro, do futuro que queremos e vamos construir. E ainda com mais força, e ainda com uma festa mais bonita, cá nos encontraremos a 03, 04 e 05 de setembro do próximo ano, aqui na Atalaia, Amora, Seixal”, salientou.
Paulo Raimundo acusou ainda o Governo de estar a preparar um “assalto à Segurança Social” e apelou aos trabalhadores que deem “um forte sinal de rejeição”, considerando que só assim será possível travar essa intenção.
Paulo Raimundo classificou o Governo PSD/CDS como “mestre da propaganda e da ilusão”.
“Um Governo que jura a pés juntos que não o fará mas, caso tenha espaço para isso, tudo vai fazer para que o capital ponha a mão no dinheiro dos trabalhadores e assaltar a Segurança Social”, acusou.
Raimundo disse que não é tempo de ilusões e defendeu que “só não avançarão se os trabalhadores, os reformados e a juventude derem, como estão a dar, um forte sinal de rejeição face a este assalto que está em marcha”.
O líder comunista deu como exemplo o que aconteceu com as alterações à lei laboral, que tiveram muita contestação na rua e acabaram rejeitadas no Parlamento, o que classificou como uma “grande vitória dos trabalhadores” e “uma vitória do PCP, do partido que nunca desistiu, que nunca vacilou, o partido de confiança e da confiança que nunca faltou do princípio até ao fim desta batalha”.
Paulo Raimundo acusou o Governo de querer “mesmo assaltar a Segurança Social comprometer as reformas de novas gerações” e considerou que “a proposta aprovada com o apoio do PS sobre a Prestação Social Única não é apenas para limitar o acesso à proteção social, estigmatizar a pobreza ou reduzir apoios”.
“Não surpreende que PSD e CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal, estejam, a partir das suas conceções reacionárias, unidos nestes objetivos. O que não se entende é a disponibilidade do PS para aparar o assalto que está em curso, um assalto que é preciso, de facto, levar muito a sério”, afirmou.
Raimundo apelou à mobilização para “travar o assalto à Segurança Social, o ataque às pensões, o prolongamento da idade da reforma” e reiterou as propostas para um aumento intercalar das pensões em 50 euros, com retroativos a julho, e pelo direito a uma reforma sem penalizações quando o trabalhador completar 40 anos de descontos.
O secretário-geral comunista considerou que se trata de um “confronto claro entre projetos”.
“Um confronto entre os que, ao serviço de uma minoria, querem continuar o processo contrarrevolucionário e os que, como nós, tomam nas mãos o projeto dos valores de Abril, dos direitos de quem trabalha, de quem trabalhou uma vida inteira, os direitos da juventude e a soberania do nosso país”, sustentou.
A resposta, disse, passa pela mobilização e a “luta de massas, para interromper esta política e a ação deste Governo”.
“Este não é um tempo para experimentações sem percurso nem futuro e muito menos para ilusões que na primeira curva se transformam, como sabemos, em desilusões. Este não é o tempo para a armadilha do mal menor, essa armadilha que mantém tudo na mesma e alimenta ainda mais as forças reacionárias. Este é o tempo de apontar com clareza o rumo de que o país precisa, é o tempo da coragem, da mobilização e da luta pela alternativa que não abdica do país e do seu povo definirem o seu próprio caminho e onde os direitos dos trabalhadores e do povo estão no centro da ação política”, defendeu.
Paulo Raimundo dedicou também parte do seu discurso à situação internacional, destacando o que está a acontecer em Cuba, na Venezuela ou na Palestina.
Antes do discurso de Raimundo, foi transmitida uma mensagem do Presidente cubano, que é também primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba.
Miguel Díaz-Canel agradeceu o apoio do PCP e disse que Cuba, que classificou como “um país de paz”, “resiste heroicamente” a um “genocídio silencioso” dos Estados Unidos da América.
A rentrée comunista, que este ano comemora 50 anos, arrancou na sexta-feira e termina este domingo, na Quinta da Atalaia, no Seixal (distrito de Setúbal).
