Rede Smart Hotéis Reserva vira tech provider e desafia gigantes das OTAs

Rede Smart Hotéis Reserva vira tech provider e desafia gigantes das OTAs


Meu telefone tocou às sete e quarenta da manhã, eu ainda de roupão, e, do outro lado, uma fonte do setor hoteleiro sussurrando como quem entrega segredo de família: “Kátia, a Reserva virou empresa de tecnologia”. Larguei o café. Porque, minhas queridas, quando uma rede de hotéis boutique decide que também vende software, isso não é firula de release. É mudança de casta. É a mocinha da novela descobrindo que herdou a fazenda.

Vamos ao enredo. A Rede Smart Hotéis Reserva anunciou o lançamento oficial da plataforma proprietária que nasceu há oito anos dentro da Reserva Ilhabela, no litoral norte paulista, a primeira unidade da casa. Passaram quatro anos apanhando em silêncio, testando, prototipando, descobrindo o que funciona de verdade quando o hóspede reclama do ar-condicionado às onze da noite. Só depois expandiram para a Reserva Campos do Jordão, a Reserva Santo Antônio do Pinhal e a Reserva Camburi, em São Sebastião. Praia, montanha, mata fechada. A plataforma aguentou os três climas, que, em tecnologia, é o equivalente a passar no teste do sogro, da sogra e da cunhada invejosa.

Vista de uma das cabanas da Reserva Santo Antônio, em Santo Antônio do Pinhal, SP - Foto Jéssica Aquino
Vista de uma das cabanas da Reserva Santo Antônio, em Santo Antônio do Pinhal, SP – Foto Jéssica Aquino

Agora vem a parte que interessa ao bolso. O pacote reúne Web Check-in Inteligente integrado ao Ministério do Turismo, um Agente de IA exclusivo por hotel treinado para responder sobre destino, tarifa e experiência local, uma régua de comunicação automatizada que acompanha o hóspede da cogitação da viagem até a pós-estadia e um CRM centralizado com histórico e campanha de recompra. Costurado a isso, o módulo de Marketing & Revenue Management, com venda direta, distribuição em OTAs, flutuação tarifária dinâmica e a promessa de subir ocupação e diária média. Traduzindo o subtexto: a hotelaria independente brasileira vive há anos ajoelhada diante das grandes agências online, entregando de 15% a 20% de comissão por reserva e sem enxergar quem é o próprio cliente. Quem controla o CRM controla o recasting. Sempre foi assim.

Uma das suítes da Reserva Ilhabela, no litoral norte de São Paulo - Divulgação
Uma das suítes da Reserva Ilhabela, no litoral norte de São Paulo – Divulgação

O proprietário Márcio Franco diz que testaram tudo dentro de casa durante anos e que agora sabem o que funciona, entregando ao mercado uma solução validada para aumentar resultado, reduzir custo e melhorar a experiência do hóspede. O executivo voltou recentemente do SXSW, em Austin, e afirma ter saído de lá com certeza absoluta de que a plataforma é o caminho da hotelaria. Eu adoro uma certeza absoluta adquirida no Texas, é o mesmo fenômeno de quem volta de Miami convertido ao jejum intermitente. Mas há substância aqui: o mercado de tecnologia hoteleira no Brasil é povoado por gente grande e por sistemas legados que fazem hotel pequeno perder reserva por incompatibilidade de calendário. Uma solução nascida na operação, e não no laboratório de startup com quadro branco, chega com uma vantagem rara, que é conhecer a dor por dentro.

Reserva Campos está localizada a cinco minutos do centro do Capivari - Foto Reginaldo Pupo
Reserva Campos está localizada a cinco minutos do centro do Capivari – Foto Reginaldo Pupo

E os primeiros protótipos já rodam em um hotel em Ilhabela e em um empreendimento na Flórida, o que significa que a Reserva já cruzou fronteira antes mesmo do lançamento esquentar. É pouco para gritar unicórnio e é muito para ignorar. Fico de olho em duas coisas: se a plataforma vai suportar hotel de terceiro, que reclama diferente do hotel próprio, e se a rede aguenta a esquizofrenia de ser hoteleira e fornecedora ao mesmo tempo, vendendo tecnologia para quem disputa o mesmo hóspede na mesma praia. É novela boa. Já separei a taça.



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