Quem é Karina da Gama, produtora de “Dark Horse”

Alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (10), Karina Ferreira da Gama chegou à produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL), depois de construir sua atuação no terceiro setor e em projetos ligados à literatura cristã.
Aos 46 anos, ela é dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse” e que nasceu como uma joint venture (parceria empresarial) formada pela união da brasileira GO7 (veja mais adiante) com a americana UP Tone Pictures.
Karina ainda está à frente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que, em poucos anos, passou de organizadora de eventos culturais a responsável por um contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
Nascida na Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, Karina sempre foi ligada à comunidade evangélica. Antes de entrar no mercado audiovisual, prestava pequenos serviços de produção e divulgação de eventos para igrejas da região e trabalhava com projetos de literatura cristã.
Fundado em 1990, o Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina desde 2014. A instituição começou justamente no ambiente evangélico, promovendo eventos literários com os recursos de emendas destinadas por vereadores evangélicos da capital.
A relação de Karina com o meio político aconteceu ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, por meio do deputado Mário Frias (PL-SP). Os dois se conheceram em 2020, quando Frias ocupava a Secretaria Especial de Cultura na gestão do ex-presidente.
Em 2022, uma empresa ligada a Karina, a GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, recebeu R$ 54 mil para prestar serviços na campanha eleitoral de Frias. Em 2023, já como deputado federal, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas de sua autoria para o Instituto Conhecer Brasil, a fim de que aplicasse os recursos em projetos sociais no interior de São Paulo.
A operação Make Up investiga o suposto desvio das emendas de Frias pagas ao Instituto. Depois de deflagrada a operação, o deputado – que é o produtor executivo do filme “Dark Horse” – negou irregularidades nos repasses.
Na decisão que autorizou a operação, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que as diligências preliminares apontavam para a possível ocorrência de desvios de recursos públicos por uma organização criminosa.
Segundo ele, o grupo teria direcionado verbas federais, por meio de termos de fomento custeados por emendas, ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, ambas presididas por Karina.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Frias classificou as buscas realizadas pela polícia em sua residência como uma “cortina de fumaça”. O parlamentar afirmou ainda que vai colaborar com as investigações e entregar todos os documentos necessários. Ele também disse acreditar que o caso será arquivado.
Como Karina chegou a um contrato milionário com a prefeitura de São Paulo
A mudança de escala nos negócios de Karina ocorreu principalmente por meio do Instituto Conhecer Brasil. Em 2018, a entidade começou a firmar contratos com a prefeitura de São Paulo.
Um deles visava a realização do “Encontro Literário IDE”, voltado a escritores gospel, realizado naquele ano com um contrato de R$ 2,5 milhões da Secretaria Municipal da Cultura. O evento recebeu emendas de quatro vereadores da capital.
Seis anos depois, em 2024, o ICB foi a única entidade participante de um chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas de São Paulo. A Prefeitura firmou um contrato inicialmente estimado em R$ 108 milhões com o instituto, que chegou a R$ 157,1 milhões após três aditivos.
Segundo os investigadores, o compromisso inicial previa a instalação dos 5 mil pontos em até 12 meses, mas, até o momento, 3,2 mil haviam sido instalados. A investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo levantou suspeitas sobre a contratação, a capacidade técnica da entidade, os valores pagos e a execução dos serviços.
A prefeitura da capital paulista, porém, contesta parte dessas conclusões. Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não foram pagos R$ 157,1 milhões ao ICB, como havia sido apontado na investigação, e detalhou que os valores repassados correspondem aos pontos efetivamente instalados e posteriormente mantidos.
A administração também afirmou que o chamamento público permaneceu aberto por 30 dias, que o ICB cumpriu os requisitos de habilitação e que os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município foram sanados.
Produtora chegou ao cinema com “Dark Horse”
A trajetória de Karina no terceiro setor também se conecta à produção de “Dark Horse”. A empresária é dona da Go Up Entertainment, responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro, e mantém a produtora no mesmo endereço do Instituto Conhecer Brasil e da GO7.
A PF também investiga o financiamento de “Dark Horse”. Sob a relatoria do ministro André Mendonça, a apuração foca os repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro (PL), e o destino desses recursos.
A Gazeta do Povo procurou Karina, mas não obteve respostas até o momento. Em declaração ao portal G1, anteriormente à operação desta semana, a empresária afirmou que sua atuação no caso “Dark Horse” se limitou à prestação dos serviços de produção do filme. Ela ainda disse desconhecer quem eram os financiadores do fundo Havengate, responsável pelos recursos recebidos pela produção.
Sobre os R$ 2 milhões em emendas destinados ao Instituto Conhecer Brasil, afirmou que o dinheiro ainda não utilizado permanecia em caixa e que os projetos estavam em andamento. A empresária também disse que vinha colaborando espontaneamente com a Polícia Federal e que havia entregado mais de 20 mil páginas de documentos à corporação antes da Operação Make Up.
A defesa de Karina ainda apresentou uma reclamação constitucional ao STF após a operação. Segundo o advogado Ricardo Sayeg, a medida não questiona o mérito da investigação, mas busca garantir o cumprimento de decisões da Presidência do Supremo e a competência do juiz natural.da Presidência do Supremo e a competência do juiz natural.
