Quarta-feira já tem convocação da Seleção. Deixa a gente em paz, Ancelotti!
Apenas 59 dias se passaram desde aquele fatídico 5 de julho, quando a Seleção Brasileira foi eliminada pela Noruega na Copa do Mundo. O baque ainda ressoa na cabeça do torcedor, mas o calendário implacável da FIFA não permite o tempo necessário para curar a ressaca moral. Nesta quarta-feira, Carlo Ancelotti volta aos holofotes para anunciar mais uma convocação. A pergunta que fica no ar é simples e incômoda: quem realmente está preparado ou interessado em ouvir falar de Seleção Brasileira novamente neste momento?
O sentimento que predomina entre os torcedores não é mais a raiva, mas uma profunda e perigosa apatia. O brasileiro já se acostumou com o papel de coadjuvante no cenário internacional e aceitou, a contragosto, que a camisa amarela perdeu o respeito e o temor reverencial que impunha aos adversários no passado. A frustração com o trabalho de Ancelotti, que chegou como o salvador da pátria e entregou um desempenho melancólico na Copa, torna este reencontro com o noticiário ainda mais indigesto e sem propósito.
A janela de amistosos deste mês mostra a inconveniência deste calendário. Em um intervalo de apenas 82 dias entre o fiasco no mundial e a bola rolar no primeiro compromisso, o Brasil enfrentará Austrália no dia 25, Coreia do Sul no dia 29 e o Japão no dia 3 de outubro. São partidas que atendem puramente a obrigações comerciais.
Para piorar o cenário, o próprio treinador italiano parece desconectado da realidade do nosso futebol. Recebendo salários astronômicos que superam os 5 milhões de reais por mês, Ancelotti pouco se fez notar nos estádios brasileiros acompanhando partidas do Brasileirão ou da Copa do Brasil. Enquanto esteve na Europa, assistiu a um cenário desolador: os principais jogadores brasileiros atuando por lá amargam a reserva ou desempenham papéis secundários em equipes sem qualquer expressão no continente.
Sem uma base sólida e sem acompanhamento de campo, o comandante da amarela se vê obrigado a elaborar uma lista no escuro. Fazer uma convocação nestas condições é um exercício de adivinhação. Chamar atletas agora soa como um mero cumprimento de tabela para cumprir contratos publicitários, ignorando a ferida aberta no peito do torcedor. Nós, que acompanhamos e vivemos a Seleção no dia a dia, fomos empurrados para um compromisso sem sentido e sem apelo popular.
Resta saber se Ancelotti usará este espaço para iniciar uma renovação de fato ou se apenas repetirá as velhas fórmulas que nos trouxeram até aqui.
O torcedor brasileiro, vacinado contra falsas promessas, assistirá a mais este capítulo com extrema desconfiança. Afinal, antes de pensar na próxima Data FIFA, o futebol brasileiro precisava, em primeiro lugar, de um tempo de luto e de uma profunda autocrítica que nunca aconteceu

