Portugal prepara-se para uma crise alimentar – Observador

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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Portugal prepara-se para uma crise alimentar.
E depois um outro ponto que tem sido também muito realçado a propósito daquilo que temos vivido e que vivemos.
Esta declaração de Luís Montenegro passou quase despercebida na apresentação do PTRR, o Plano Nacional de Recuperação, há umas semanas. Basicamente, o primeiro-ministro anunciou que Portugal vai começar a preparar, como deve ser, a possibilidade de um dia sermos confrontados com a falta de alimentos. Pode ser como o efeito de uma guerra, pode ser um fenômeno climático extremo, enfim, nunca será nada de bom, mas Portugal começa a falar seriamente sobre este assunto.
Mas onde é possível reforçar a capacidade de armazenamento, quer de silos, quer de frio.
Hoje eu vou falar com a Ana San-Lees, jornalista do Observador, que investigou os planos que o governo tem em mente, o que está feito e o que falta fazer, e como é que Portugal se compara com outros países da Europa. É sobre isso que vamos falar. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 15 de maio. Olá, Ana, bem-vinda.
Olá, Pedro.
Ainda não tínhamos feito uma história do dia os dois.
É a primeira vez, desde que te faço, que eu estou aqui.
E vai ser logo uma coisa assim com um ar semicatastrofista.
Sim, impactante, não é?
Impactante. Eu estou a fazer esta história do dia um bocadinho ansioso, não vou mentir.
Espero não me tornar especialista das catástrofes.
Dr. Doom, que é um termo que às vezes na economia se usa, aqueles que preveem coisas horríveis a acontecer nas economias. Mas a verdade é que isto tem o seu lado de pessimismo ou pelo menos de realismo, preparação para o que pode vir aí.
Vem de uma perspectiva de que realmente há catástrofes a acontecer e guerras que podem vir bater-nos à porta e que é preciso estar preparado para elas, e nós não estamos.
Nós basicamente não estamos, e já lá vamos à falta de preparação de Portugal, mas para já, o que é que foi anunciado, o que é que está previsto, o que é que se vai fazer?
Então, foi anunciada numa das muitas medidas do PRR, eram quase 100 medidas. Uma delas se calhar passou um bocadinho despercebida e o objetivo é criar reservas estratégicas de alimentos, precisamente para que Portugal esteja preparado para enfrentar uma crise ou uma guerra ou catástrofes que podem não ser tempestades, mesmo uma nova pandemia, por exemplo, que afete a distribuição de alimentos e o que vai ser feito numa perspectiva de médio prazo. O médio prazo do PTRR são quatro anos, é o final desta legislatura, e o objetivo é garantir que há alimentos armazenados para enfrentar uma crise.
Ou seja, se houver uma escassez por alguma razão, porque vamos imaginar agora, temos a questão do estreito de Ormuz, que impede a circulação de navios que transportam bens. Se houver um problema desse gênero elevado à quinta casa.
Exatamente. Se Portugal, por acaso, Portugal, a Europa, deixar de receber, houver algum bloqueio no transporte de alimentos e for preciso garantir esse fornecimento à população, é preciso que estejam guardadas estas tais reservas estratégicas.
E isto foi feito, falavas também das tempestades, porque também são fenômenos naturais que também estão a intensificar-se e, portanto, também causam danos pesados, como nós vimos aqui, infelizmente, em Portugal este inverno. É isso que explica que o governo tenha finalmente falado de uma questão que até agora não aparecia propriamente no discurso público.
Sim, diria que a Kristin e os fenômenos que se seguiram levaram o governo a acelerar isto, porque já não é tanto de agora. E uma das pessoas com quem nós falámos para este trabalho, presidente das indústrias alimentares, diz-nos que já anda a falar disto com o governo desde a pandemia e que até o discurso foi acelerado na altura da guerra da Ucrânia, da invasão da Rússia pela Ucrânia, porque aí, como bem te lembras, a questão dos cereais foi bastante problemática e a escassez era um cenário admitido, não só em Portugal, como toda a Europa, o problema do acesso, da falta de produção na Europa e a dependência externa da União Europeia, foi aí bastante notório que era um problema. E começou-se a pensar. A pensar, essas coisas demoram todas muito tempo. Primeiro pensa-se, depois pensa-se, vai se pensar como é que se executa, que é o que está a acontecer agora. E a Kristin e as tempestades do inverno foram ali, como se costuma dizer nos reality shows, um abre olhos.
Portanto, pandemia, guerras e agora tempestades. Portanto, não há como não olhar pra realidade e pensar: temos que fazer qualquer coisa para resolver isto. Isto não é uma questão que esteja a ser pensada em exclusivo em Portugal e, na verdade, de certa forma, nós acordamos um bocadinho tarde para esta realidade, não foi?
Sim, há países, até por razões históricas, países mais acostumados, digamos assim, a ter guerras à porta, e não só à porta, mesmo guerras dentro de portas, que já têm estes armazenamentos estratégicosHá anos, há décadas. A Alemanha tem um sistema muito bem montado, que é dos mais curiosos, que há 150 armazéns secretos, por razões de segurança, a população não sabe onde é que eles ficam.
Para não serem atacados no caso de uma guerra, por exemplo.
Exatamente, e para não haver tentação de assaltos e de desabarcamentos se haver algum problema. Há uma estratégia para os cereais e depois nesses armazéns há outros alimentos, inclusive leite condensado, por exemplo, pela quantidade de energia, do valor energético, calórico.
E proteíno, imagino, tudo a ter leite.
Arroz, leguminosas. E é uma estratégia que a Alemanha até já está a levar para outra fase, porque o que existe é tudo público, que eles agora até vão alargar ao privado, porque mesmo nesses países onde já existem estas reservas, parece que este momento que estamos a viver agora está a ser encarado muito a sério pelos governos de que é preciso fazer ainda mais e ter ainda mais reservas disponíveis para a população.
Isto é curioso, porque nós falamos, nesta fase, da necessidade da Europa se preparar em termos de defesa, porque o mundo mudou, porque estamos mais sozinhos, de certa forma, e porque temos de fazer qualquer coisa, porque efetivamente há um mundo perigoso lá fora, por assim dizer, mas há também esta questão dos alimentos e as guerras às vezes também hoje em dia passam por este tipo de ataques.
Ter estas reservas faz parte da estratégia de defesa dos países. A Suécia, na sua revisão da estratégia de defesa que fez agora recentemente nos últimos meses, reforçou o orçamento disponível para as reservas alimentares como parte da sua estratégia de defesa. Portanto, é um tema incontornável.
E Portugal está a começar a falar dele. Na segunda parte, nós vamos olhar especificamente para que planos exatos é que Portugal tem e que se compromete a pôr em prática nos próximos anos. Até já. E estamos de regresso à conversa com a Ana San-Lees sobre isto de Portugal se preparar para ter armazenamento de alimentos para a eventualidade de haver uma escassez por alguma razão que seja, já falámos sobre isso na primeira parte. Agora, o que é que exatamente Portugal definiu como prioritário para entrar nestes armazéns? Já agora, como é que vai ser este armazenamento, vai ser feito como? Silos.
Então, o que está previsto é usar os silos existentes, criar novos silos, talvez recuperar alguns que já existem e que estão ao abandono, porque Portugal já produziu cereais e continua a produzir, mas já produziu mais quantidades, mas muitos dos silos, sobretudo no sul do país, acabaram por ser abandonados. Acho que ainda se vai estudar se essas estruturas ainda são viáveis, terão sempre de ser modernizadas, até por questão do transporte da matéria-prima. É uma das coisas que se vai fazer. Primeiro, identificar os sítios e o que fará sentido é ter esses silos junto à produção, junto ao processamento, ou seja, as empresas, porque os cereais, que é o que nós vamos armazenar, para serem úteis, têm que ser processados, têm que ser transformados em alguma coisa. E o que faz sentido é que esses silos, onde os alimentos vão ser armazenados, sejam perto das empresas que os vão processar. Essa é uma parte da estratégia. Basicamente, o que está aqui em causa é: isto passa sempre por privados e os privados terão de criar espaço de armazenamento, e vai haver uma compensação paga pelo Estado, porque os privados têm um custo, primeiro, de comprar uma parte adicional de matéria-prima.
Ou seja, são os privados que vão passar a ter a obrigação de fazer reservas daquilo que recebem, precisamente para a eventualidade.
Esta estratégia nacional passa muito pelos privados, aos quais o Estado vai pagar uma compensação, tanto pelo armazenamento, como pelas quantidades extra.
Extra que tiveram que comprar.
Vai ser uma espécie de renda para compensar esse esforço que os privados-
Um bocadinho como se faz com os combustíveis, por exemplo.
Um bocadinho. E para os combustíveis há uma reserva definida, uma reserva mínima nacional que está definida, que temos que ter.
Diz isso porque para os alimentos não há.
Para os alimentos não há. Esse trabalho nunca foi feito. As empresas têm as suas reservas. Ou seja, se hoje acontecesse alguma coisa, Portugal não ia ficar sem cereais, por exemplo.
Mas não porque houvesse um plano público para isso.
Não, porque parte delas, e elas próprias têm essa iniciativa, mas não há nada que diga que têm que o ter. E a partir de agora, o objetivo é esse. O Estado paga as empresas para aquela parte fica de lado para uma emergência. E depois, claro, tem que haver rotação, porque os alimentos também passam de validade. E, portanto, tem que haver uma rotação para se ir comprando mais e daí que terá de haver essa compensação pública para que as empresas prestem o serviço público.
Sendo que há uma questão que ainda me está aqui na cabeça, que é o fato de nós não termos definido metas. É normal não se definir metas? Os outros países que têm já estes sistemas bastante avançados também não têm metas definidas? Como é que isto funciona?
Têm metas definidas. Se fores ver, por exemplo, países como a Suíça, que tem um sistema de reservas estratégicas muito avançado, tem o número mínimo da quantidade que tem de estar armazenada de certos alimentos. Por exemplo, o açúcar, tem x toneladas, café, x toneladas. Nós ainda não fizemos esse trabalho. Esse trabalho vai ser feito, avaliar os locais, as quantidades, para quanto tempo. Acho que esse estudo ainda será feito. Isto é um trabalho que está muito no início. Há quatro anos para fazer.
Quatro anos para fazer e já vamos aqui um bocadinho atrás.
E 200 milhões de euros.
Um bocadinho. Já têm orçamento, pelo menos, já não é mau.
Têm orçamento no PTRR, que são 200 milhões de euros.
E estamos um bocadinho atrás do prejuízo. Falaste dos cereais, mas também falaste noutros países que armazenavam, por exemplo, leite condensado, portanto, produtos enlatados. Nós também temos produtos enlatados, ainda por cima, a nossa indústria conserveira é uma das mais conhecidas do nosso polo industrial.
E está no PTRR também, não só os silos, mas também o apoio à indústria conserveira, que também foi ouvida quando o PTRR estava a ser feito e deu mesmo essa sugestão, porque as conservas são dos alimentos mais fáceis de conservar. Está um bocadinho implícito, porque ocupam pouco espaço, é proteína, alimento.
Sardinha é tida como um grande alimento.
Exatamente. E a indústria conserveira sugeriu que as conservas de peixe, especificamente, fossem incluídas nesta estratégia de armazenamento, dando prioridade, se possível, isso ainda não é certo, mas dando prioridade às espécies nacionais que são capturadas em Portugal, sardinha e cavala. Portanto, se houver uma reserva de conservas, será possivelmente sardinha em lata e cavala.
Pronto, esperemos que não tenhamos que chegar a esse dia em que tenhamos de ficar a alimentar-nos de cereais processados de alguma forma e também sardinha e cavala. Espero que não. Espero que tu não venhas aqui-
Esperamos todos que não.
Sim, é isso, Ana, que é para virmos aqui mais vezes falar de outras coisas mais alegres.
Que não sejam tragédias.
Obrigado, Ana.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei com a Ana San-Les sobre os planos do governo para criar reservas nacionais e regionais que deixem o país preparado. Preparado para um daqueles cenários que ainda há poucos anos pareciam coisa de filmes pós-apocalípticos. Mas neste mundo de guerras, tempestades e apagões, quando um país começa a guardar cereais e latas de sardinha para uma emergência, já não soa tanto à paranoia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.
