Pelo direito ao cuidado de si
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- Mulheres brasileiras dedicam em média 21,3 h semanais a cuidados domésticos, quase o dobro dos homens (11,7 h) – PNAD 2022.
- 91,3 % das mulheres realizam trabalho doméstico, contra 79,2 % dos homens, gastando 73 % mais tempo em cuidados.
- Cris Ramalho (36, São Paulo) e Margarida Pinho (65, Rio) afirmam que “fomos feitas para servir” ao lar, refletindo a realidade cotidiana.
- O desequilíbrio evidencia desigualdades de gênero e raça, segundo IBGE e Departamento Intersindical, que apontam mulheres como únicas responsáveis pelo sustento familiar.
“Há tanto que acontece na vida da gente que a gente se esquece de ser mulher”. Essas foram as palavras de Cris Ramalho, 36 anos, paulistana, olhando para as lentes da câmera fotográfica. Em outra ocasião, Margarida Pinho, 65 anos, carioca, completaria, diante da mesma lente: “Fomos feitas para servir: cama, família, cuidados”.
Os dados históricos reforçam a fala de Cris e Margarida, mulheres de diferentes lugares e contextos sociais, mas atravessadas por uma mesma realidade contemporânea brasileira. Em uma sociedade em que mais de 50% da população é composta por mulheres, que chefiam quase 60% dos lares, esquecer de si pode ser mais comum do que parece. Os números das pesquisas parecem dar razão às falas dessas mulheres: fomos criadas para servir. Nas casas brasileiras, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens — quase o dobro do tempo. Além disso, 91,3% das mulheres realizam trabalho doméstico, contra 79,2% dos homens, e elas dedicam cerca de 73% mais tempo ao cuidado do que os homens (PNAD, 2022).
No necessário recorte de raça, a questão se agrava. Em uma estrutura profundamente racista, onde mulheres negras constituem a parcela majoritária tanto no sustento dos lares quanto nas profissões do cuidado, mesmo naquelas com menor índice de regulamentação e proteção social. Trata-se de uma economia sustentada pelo cuidado realizado por corpos femininos, mas que não se reflete em equidade salarial. Ao contrário: reforça um ideário naturalizado do cuidado com o outro em detrimento do olhar para si, particularmente no que tange ao nebuloso ideal da maternidade. Mães são apresentadas como exemplos de abnegação, sacrifício e entrega. Onde resta espaço para o cuidado de si?
São discursos que se mostram eficazes tanto para fomentar pautas conservadoras — especialmente no que diz respeito aos direitos reprodutivos das mulheres sobre seus próprios corpos e vidas — quanto para sustentar um conglomerado de produtos e narrativas em que o amor ao outro se sobrepõe ao amor e à liberdade de si. Sobretudo no universo de significados que envolve a palavra maternidade. Vem de nossas avós e bisavós a máxima de que “ser mãe é padecer no paraíso”. Um paraíso frequentado essencialmente por mulheres, revezando-se entre o cuidado da prole e profissões como enfermagem, educação e trabalho doméstico.
Cabe lembrar que, no Brasil, o trabalho de cuidado está profundamente ligado às desigualdades de gênero e raça. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos ajudam a compreender a realidade de grande parte das famílias brasileiras, onde mulheres sem outro apoio além de suas próprias forças são as únicas responsáveis pelo sustento dos lares. Entre as trabalhadoras domésticas, por exemplo, 46% são chefes de família.
Entre as consequências desse acúmulo de funções disfarçado de amor e cuidado estão as dificuldades de inserção das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres apresentam maior presença em empregos de tempo parcial, acumulam trabalho remunerado e não remunerado e enfrentam maiores dificuldades de progressão profissional. Como consequência, há menor renda média e maior precarização das condições de trabalho.
Mesmo no desenvolvimento das carreiras, no que tange às chamadas profissões do cuidado — como trabalho doméstico, enfermagem, cuidado de idosos, trabalho de babás e docência na educação básica — a dura realidade não muda. O trabalho doméstico ilustra essa desigualdade: reúne cerca de 5,6 milhões de pessoas, sendo 92% mulheres e 68% mulheres negras. Além disso, essas trabalhadoras recebem, em média, 59% menos do que outras ocupações, e 76% atuam sem carteira assinada (IBGE,2024).
Alheios a toda essa realidade de cuidados, discursos publicitários, filmes e narrativas televisivas seguem nos mostrando imagens inteiramente sustentadas no amor e no cuidado materno, em detrimento do autocuidado. Mães, enfermeiras, cuidadoras e empregadas domésticas sustentam lares, criam seus próprios filhos e os dos outros, sustentando, com sua força de trabalho, todo um sistema produtivo que reverbera a economia do cuidado travestido de amor e reforça desigualdades de gênero e raça, historicamente atravessadas pela imposição do sacrifício e pela abnegação materna. Narrativas que encontram sua apoteose no mês de maio em países como França, Espanha, Estados Unidos e, entre eles, o Brasil.
Em telas e redes mundo afora, o ano de 2026 não será diferente. Assistiremos, em áudio e vídeo, a campanhas que reforçam a narrativa que responsabiliza mulheres pelo amor incondicional, sem fronteiras, sem limites e sem tamanho, cujo peso se faz sentir, em grande parte, sobre corpos e vidas de mulheres periféricas e negras. Mães e cuidadoras igualmente pressionadas e exaltadas pela façanha de abrirem mão de suas próprias vidas em nome do cuidado, principalmente em relação a si, fortalecendo o sistema produtivo capitalista, na medida em que enfraquecem os laços de pertencimento e o olhar consciente para si. Defendemos que, na contramão das engrenagens do capitalismo, o cuidado de si guarda uma potência transformadora, que parte de nós e alcança toda a sociedade. Não por acaso, a escritora beel hooks identificara a importância do autocuidado na relação com o mundo, característica fundamental para o tão falado amor próprio. Reverberam as palavras de Hooks, quando a autora identifica: “Quando nos vemos através dos olhos dos outros, aprendemos a duvidar do nosso valor. […].Amar a si mesmo é o fundamento de nossa capacidade de amar os outros” (HOOKS.2021).
Enquanto mulheres e autoras deste texto, somamos nossas vozes ao ideário de Hooks para compreender a potência do amor próprio relacionado a mulheres, diversas em seus corpos e desejos, igualmente potentes. E, inevitavelmente atravessadas pelo discurso da abnegação e do sacrifício. Diante da proximidade da celebração das mães, convidamos a um movimento contrário ao comum: que o Dia das Mães seja celebrado também pelo direito feminino ao cuidado de si, ao encarar o espelho e oferecer a si mesma o mesmo amor e cuidado que nos é compulsoriamente exigido diante das narrativas dessa data. Direito, inclusive, de optar por outras histórias, papéis e lugares que não passem necessariamente pelo cuidado e pela maternidade. Histórias que tentamos contar no projeto *Através do Espelho*, uma iniciativa que surge em 2020, em meio à crise humanitária provocada pela pandemia de COVID-19. E que intencionava, desde o início, dar sentido ao atravessamento que estávamos passando à época. Ali começamos a expor nossas narrativas e passamos a convidar outras mulheres a igualmente mergulharem em si, olhando para suas próprias vidas. Mulheres cujos corpos, identidades e histórias, traziam as marcas de violências cotidianas, silenciamentos e invisibilidades.
Em seis anos, dezenas de mulheres foram fotografadas por nós, em uma iniciativa sustentada sem patrocínio ou editais. Mulheres que falam, olham e escutam umas às outras, propondo-se a sair do lugar de quem apenas cuida do outro para também olhar para si com amor e cuidado.
Por meio da fotografia, de exposições, encontros culturais, saraus, rodas de conversa e produções audiovisuais, o projeto promove reflexões sobre identidade, memória, autocuidado, resistência e pertencimento aos territórios urbanos. Ao longo de sua trajetória, o projeto Através do Espelho, consolidou-se como um espaço de escuta, criação e fortalecimento coletivo, valorizando experiências femininas e construindo narrativas de empoderamento e igualdade de gênero. Entre suas ações, destacam-se exposições presenciais e virtuais, ensaios fotográficos comunitários, iniciativas com mulheres de diferentes territórios do Rio de Janeiro e São Paulo, desenvolvimento de projetos culturais que articulam: arte, memória e transformação social.
São histórias de mulheres que ousaram e se permitiram olhar para seus corpos e para suas próprias vidas. Mulheres como Cris, Margarida e Maria. Mulheres brancas, negras, indígenas, trans, jovens, idosas, mães, filhas e avós, atravessadas por muitos corpos, desejos e narrativas possíveis. Mulheres como nós, que reexistem e resistem diante de estruturas misóginas e das inúmeras interdições do patriarcado. Mulheres que somam suas vozes às nossas para desejar que, neste domingo e em todos os outros, sejamos capazes de reivindicar nosso direito ao autocuidado e à apropriação de nossas próprias narrativas por cada uma de nós e por todas.
Projeto Através do Espelho: @fotoatravesdoespelho
Referências:
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). *Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas*. Agência de Notícias IBGE, Rio de Janeiro, 2023.
EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO (EBC). *PNAD: mulheres gastam quase o dobro de tempo no serviço doméstico*. Agência Brasil, Brasília, 2022.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). *IBGEeduca lança informativo com dados atualizados sobre mulheres*. IBGE Educa, Rio de Janeiro, [s.d.].
DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (DIEESE). *Trabalhadoras domésticas*. São Paulo: DIEESE, 2026.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). *As mulheres do Brasil*. IBGE Educa Jovens, Rio de Janeiro, [s.d.].
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). *Mulheres brasileiras na educação e no trabalho*. IBGE Educa Crianças, Rio de Janeiro, [s.d.].
*Angela Pingo é mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Professora titular do Instituto Infnet, do Ibmec e da Faculdade FACHA. Atua principalmente nas áreas de criação, artes visuais, fotografia, cinema, percepção visual e cibercultura. É fundadora do projeto Foto através do Espelho.
**Tatiane Mendes é professora e pesquisadora em Comunicação Social, Cinema e Fotografia. Jornalista e fotógrafa, realizou pós-doutorado em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense, com pesquisa em desinformação científica e linguagens audiovisuais. É pesquisadora do INCT-DSI e membro do Centro de Referência de Ensino do Combate à Desinformação. Doutora em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Também é fundadora do projeto Foto através do Espelho.
***Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum
