O risco de demência não começa na velhice: o que a OMS diz que você precisa fazer hoje
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- Em 2026, a OMS divulgou relatório indicando que até 45 % do risco de demência é atribuível a fatores modificáveis.
- Diabetes tipo 2 eleva em 50 %‑100 % a chance de desenvolver demência, assim como obesidade abdominal e níveis altos de LDL.
- Tabagismo na meia‑idade é um dos maiores riscos evitáveis; parar de fumar traz benefícios mensuráveis ao cérebro.
- A prevenção ao longo da vida, sobretudo exercício físico e controle da perda auditiva, é a estratégia mais eficaz para reduzir a incidência futura.
Mais de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021 e um percentual superior a 60% delas residiam em países de baixa e média renda. Esse número, já expressivo, tende a crescer nas próximas décadas à medida que a população global envelhece. Contudo, um relatório divulgado no início de julho deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS) traz uma perspectiva que muda o enquadramento da discussão: até 45% do risco de desenvolver a doença pode ser atribuído a fatores modificáveis, condições que indivíduos, sistemas de saúde e governos podem transformar.
O relatório elenca uma série de condições que elevam significativamente o risco de demência e que, em muitos casos, podem ser prevenidas ou controladas, como a hipertensão arterial na meia-idade. O diabetes tipo 2 chama atenção pela magnitude do risco, pois pessoas com a doença têm entre 50% e 100% mais chance de desenvolver demência ao longo da vida, de acordo com o relatório.
A obesidade, especialmente quando medida pelo aumento da circunferência abdominal, e a dislipidemia, com níveis elevados de LDL na circulação, completam um quadro metabólico que compromete a saúde vascular do cérebro e favorece o acúmulo de proteínas associadas à neurodegeneração. Já a depressão, frequentemente subestimada como fator de risco cerebral, é atribuível a cerca de 3% de todos os casos de demência.
Dois outros fatores merecem destaque por seu peso populacional. O tabagismo na meia-idade representa um dos maiores riscos evitáveis para o desenvolvimento de demência e sua cessação, em qualquer momento da vida, traz benefícios mensuráveis para a saúde cerebral. Já a perda auditiva, muitas vezes tratada como inevitável com o envelhecimento, é apontada pelo relatório como o fator de risco modificável com maior potencial preventivo individual.
“A perda auditiva não tratada tem impactos generalizados na qualidade de vida, nos relacionamentos e na saúde mental; ela também tem sido estreitamente ligada ao declínio cognitivo e à demência. Teoricamente, se a perda auditiva fosse reduzida a zero em nível populacional, estima-se que cerca de 7% dos casos de demência poderiam ser evitados”, aponta o documento.
O consumo pesado de álcool também está diretamente ligado ao aumento do risco de comprometimento cognitivo, e o documento ainda incorpora em suas diretrizes condições como acidente vascular cerebral, traumatismo cranioencefálico, deficiência visual, distúrbios do sono e HIV como variáveis relevantes para a saúde cognitiva ao longo da vida.
“Como não existe um tratamento ou cura modificadora da doença amplamente acessível para a demência, a prevenção ao longo do curso de vida continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir a incidência futura”, afirma o documento. A avaliação aponta que o risco de demência não começa na velhice, mas se acumula ao longo de décadas, e diferentes fatores exercem maior influência em momentos específicos da trajetória de vida.
Agir cedo, portanto, não é preciosismo, mas sim a intervenção mais eficiente disponível. E a única que, por enquanto, a ciência pode oferecer com segurança.
Corpo em movimento, mente protegida
O exercício físico ocupa um lugar central nas recomendações. Segundo o relatório, “um estilo de vida fisicamente ativo está associado a um menor risco de declínio cognitivo, doença de Alzheimer e demência por todas as causas, especialmente quando sustentado por longos períodos e em níveis mais elevados de intensidade.”
Os mecanismos, nesse caso, são tanto diretos, já que a atividade física melhora a neuroplasticidade e a produção de fatores neurotróficos, quanto indiretos, como a redução da inflamação sistêmica e os benefícios cardiovasculares que protegem os vasos que irrigam o cérebro.
Para pessoas que já apresentam comprometimento cognitivo leve, o exercício também é recomendado, ainda que com ressalvas, já que as evidências são classificadas como de certeza baixa a moderada, o que significa que os benefícios provavelmente superam os riscos, mas a ciência ainda busca determinar o tipo e a intensidade ideais. Já para quem tem diabetes tipo 2 associado ao comprometimento cognitivo leve, as indicações são mais robustas de que a atividade física beneficia a função cognitiva.
Os impactos da inatividade de uma forma geral reforçam o argumento. Se o sedentarismo global continuar no ritmo atual, são esperados quase 500 milhões de casos evitáveis de doenças não transmissíveis até 2030, com um custo estimado de 47,6 bilhões de dólares anuais. A demência representa apenas 3% desses casos, mas responde por 22% do custo total, um desequilíbrio que revela o peso desproporcional da doença sobre os sistemas de saúde e sobre as famílias que sustentam o cuidado cotidiano de quem adoece.
O que você come protege seu cérebro
A alimentação também aparece como fator de proteção de múltiplas camadas. “A dieta pode influenciar o risco de demência diretamente através de efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes e do apoio à plasticidade cerebral, e também indiretamente ao reduzir outros fatores de risco, como a hipertensão e a obesidade”, aponta o relatório. Padrões alimentares como a dieta mediterrânea, a DASH, desenvolvida originalmente para controle da pressão arterial, e a MIND, que combina elementos das duas anteriores com foco específico na saúde cerebral, estão associados a melhores resultados cognitivos em estudos com diversas populações.
O documento ainda faz uma ressalva importante para um mercado saturado de suplementos e promessas nutricionais, destacando que “abordagens de dieta integral são provavelmente mais eficazes do que focar em nutrientes isolados.” Não existe um alimento ou composto capaz de substituir a qualidade geral do padrão alimentar; a proteção vem do conjunto e da consistência ao longo do tempo.
Solidão como fator de risco clínico
Um dado do relatório merece atenção especial no contexto de uma sociedade cada vez mais fragmentada e digitalizada. Se o isolamento social fosse eliminado, estima-se que cerca de 5% dos casos de demência poderiam ser prevenidos. “As evidências sugerem que a conexão social, como o envolvimento em atividades sociais, pode proteger contra o declínio cognitivo e a demência e pode atrasar o início da demência em até cinco anos”, pontua a OMS.
O mecanismo envolve o aumento da reserva cognitiva, ou seja, a capacidade do cérebro de resistir ao dano antes de manifestar sintomas, além do estímulo a comportamentos saudáveis e a redução do estresse crônico, que tem efeitos neurotóxicos documentados.
Um informe da entidade divulgado em 2025 mostra que a solidão afeta uma em cada seis pessoas no mundo, alcançando um em cada quatro idosos. O isolamento está associado a cerca de 100 mortes por hora, somando mais de 871 mil óbitos anuais.
“Para reduzir especificamente o risco de declínio cognitivo e/ou demência, o engajamento em intervenções de atividade social pode ser recomendado para adultos com cognição normal ou comprometimento cognitivo leve. Embora a causalidade não possa ser totalmente estabelecida devido à predominância de evidências observacionais, os achados consistentes em diferentes populações estabelecem a falta de atividade social como um fator de risco modificável”, orienta a OMS.
A poluição que afeta o cérebro
Pela primeira vez colocada no centro de diretrizes globais de prevenção da demência, a poluição do ar figura como um risco invisível e ainda subestimado pela maioria das pessoas.
Partículas finas com diâmetro de até 2,5 micrômetros, as chamadas PM2.5, afetam 99% da população mundial e, segundo o relatório, “podem atravessar a barreira hematoencefálica e desencadear neuroinflamação e estresse oxidativo, caminhos implicados na neurodegeneração.” Em teoria, eliminar a poluição do ar poderia prevenir cerca de 3% dos casos de demência globalmente.
O relatório é explícito sobre os limites das ações individuais nesse campo. Recomendações como evitar atividades ao ar livre em dias de alta poluição ou substituir combustíveis sólidos por fontes limpas em ambientes domésticos têm valor, mas são insuficientes sem políticas públicas de controle de emissões, planejamento urbano e regulação do transporte. Garantir ar limpo é, em última análise, uma responsabilidade coletiva e governamental, e tratá-la como escolha individual é uma forma de transferir para os cidadãos o ônus de uma falha estrutural dos Estados no mundo atual.
“Intervenções para reduzir a exposição (por exemplo, melhor planejamento urbano, controles de emissão de tráfego e políticas de energia limpa) podem ter um impacto generalizado. As políticas de redução da poluição do ar oferecem uma situação de ‘ganha-ganha’ para a saúde pública e para a mitigação das mudanças climáticas (tanto a curto quanto a longo prazo)”, pontua o relatório.
O todo é maior que as partes
A entidade recomenda ainda o engajamento em atividades de estimulação e treinamento cognitivo como estratégia de prevenção do declínio cognitivo e da demência. As atividades indicadas vão desde hábitos simples do cotidiano, como leitura, jogos de mesa, quebra-cabeças, contação de histórias, aprendizado de instrumentos musicais e aquisição de novas habilidades, até programas estruturados de treinamento cognitivo que trabalham domínios específicos como memória, atenção, raciocínio e função executiva, disponíveis em formato presencial ou por plataformas computadorizadas.
Embora a recomendação seja classificada como condicional, baseada em evidências de certeza baixa a muito baixa, a avaliação da OMS é de que os benefícios superam os possíveis danos e que manter o cérebro ativo e desafiado ao longo da vida contribui para o fortalecimento da reserva cognitiva.
Ao fim, a recomendação que sintetiza toda a abordagem do relatório é também a mais desafiadora de implementar: “Fatores de risco para demência devem ser abordados de forma holística, porque múltiplos riscos frequentemente coexistem e se acumulam ao longo da vida”, sustenta a OMS.
O relatório se refere ao que chama de intervenções multidomínio, a prática de atingir múltiplos fatores de risco de demência simultaneamente, em vez de focar em apenas um isoladamente. De acordo com as novas diretrizes, essas intervenções devem ser personalizadas, adaptadas às necessidades e ao contexto específico do indivíduo, selecionando componentes que possam abordar os riscos modificáveis presentes em cada pessoa, ajustando a intensidade e levando em conta as restrições culturais e socioeconômicas.
