O pior já passou nos exames nacionais? – Observador

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. O pior já passou nos exames nacionais?
Obviamente, preferíamos que tivéssemos lançado as notas mais cedo. Se tivemos que esperar até às 19h, 19h30 para as notas chegarem às escolas, foi o tempo que foi necessário para que as equipes do júri nacional-
Mas chegam às escolas, mas não chegam aos alunos, não é?
Devem chegar aos alunos. As escolas, os diretores têm essa obrigação.
Sexta-feira, o ministro da Educação parecia hesitar entre a confiança e a fé. Mas já de noite, as notas dos exames do 12º ano lá foram publicadas, embora isso tenha sido só o começo de uma série de novos problemas.
Dizia “suspenso”.
Este domingo à tarde, eu gravei uma conversa com o presidente da Associação de Diretores de Escolas sobre aquilo que se espera para esta segunda-feira. Conversamos sobre a forma como o caos que se instalou na correção dos exames pode prejudicar os alunos. Falamos sobre o apuramento de responsabilidades, sobre o papel das escolas e, sobretudo, falamos de como o desejo de todos é que esta novela acabe de vez. Eu sou o Pedro Gonçalves e esta é a história do dia de segunda-feira, 20 de julho. Filinto Lima, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Tendo em conta tudo o que já aconteceu, eu já não digo antes, mas desde sexta-feira, o último dia do prazo dado pelo ministro da Educação para serem publicados as notas dos exames. Tudo aquilo que foi acontecendo, e nós sabemos como esse processo não correu espetacularmente. Qual é que é o seu maior receio para esta segunda-feira?
O meu maior receio é que hoje o Júri Nacional de Exames não envie a todos os diretores cujos alunos, nas pautas das classificações, apareceu com a palavra suspenso, o algarismo que eles querem ver, de 1 a 20. Eu queria que fosse 20, o melhor possível, com certeza. Esse é o meu grande receio, porque se isso não acontecer, eu penso que podemos ter alunos, poucos, mas por poucos que sejam, que podem ficar, na verdade, prejudicados.
Numa situação de desvantagem face aos outros, certo?
Desvantagem porque com o suspenso, a prova, o documento N, que é um documento que permite o aluno candidatar-se ao ensino superior, está deficiente, está deficitária. A faculdade o que quer saber é qual foi o algarismo, qual foi a classificação que o aluno teve às disciplinas. A palavra suspenso não vale nada e é impeditiva do aluno de, na verdade, se candidatar ao ensino superior.
Então vamos imaginar que corre tudo bem desta vez, que as notas são lançadas. Portanto, esta segunda-feira, dia em que os nossos ouvintes estão a ouvir este episódio da História do Dia, foram todas as notas lançadas. Ainda assim, estamos a falar de prazos muito apertados. Quer dizer, as coisas estão mesmo aqui muito contadas para que os alunos possam fazer o processo normal de candidatura, certo?
Sim, os prazos estão apertados, mas de facto os alunos têm essa possibilidade. Aliás, essa possibilidade decorre durante vários dias. Mas na verdade, o processo correu muito mal. Nós temos que o admitir, o Ministério da Educação tem que o admitir e tem que parar de passar as culpas para as escolas, para os professores, para os diretores. Tem que parar de sacudir a água do capote.
Acha que foi isso que foi feito nestes dias?
Foi, foi isso que foi feito nestes dias, culpar as escolas, culpar os diretores, que é bom que se diga que este fim de semana estiveram até altas horas da madrugada, ao sábado e ao domingo, a trabalhar. A trabalhar por consideração, é bom que se diga, aos nossos alunos. Por eles nós fazemos tudo. Agora, por nós, é que quem nos devia de ajudar, a tutela, nomeadamente, de facto, por vezes tem expressões que nós não concordamos, dissemos na altura, quer do ministro da Educação, quer do primeiro-ministro, afirmações desajustadas, muito infelizes e injustas. Não merecíamos isto, ninguém merece isto. Quem está a dar o lido somos nós. Quem está a dar a cara nas escolas pelo Ministério da Educação somos nós. Nós, os diretores, não merecíamos, de facto, aquele tipo de palavras. Merecíamos é palavras de reconhecimento, isso é que nós queremos, de enaltecimento e de ajuda. Nós, nas escolas, os diretores, precisam muito de apoio e temos pouco apoio, nomeadamente, deixe-me dar um exemplo, apoio jurídico. Nós precisamos muito de apoio jurídico por parte da tutela. Nós todos os dias celebramos, assinamos imensos atos administrativos e nem por isso temos, de facto, um jurista que nos possa ajudar nessa missão.
Para não cometer erros. Mas voltando aqui a esta questão dos exames, que é a questão que está central na ordem do dia, para dar aqui o enquadramento para quem nos está a ouvir, até porque eu quero fazer-lhe perguntas a seguir sobre isto, não está contra o processo de digitalização da correção dos exames, quer dizer, não é isso que está aqui em causa, certo?
Nós não estamos contra. Eu quero dizer que falei nestes tempos com muitos professores classificadores e eles disseram que, de facto, o caminho é este e que, a expressão que eles usaram, é muito fácil, na verdade, classificar com este tipo de plataforma. Contudo, o que eles deram aos professores foi, deixe-me dar este exemplo, foi um Rolls-Royce com umas rodas de bicicleta. Aquilo não funcionou. Aliás, a plataforma, é bom que se diga, foi muitas vezes inimiga do trabalho dos professores classificadores. A par disso, tivemos também uma digitalização que foi muito deficitária.
A questão aqui, deixe-me só perguntar-lhe, porque essa questão eu acho que é a que talvez seja a mais estranha, porque nós não estamos a falar de uma coisa que foi feita assim de repente. O ano passado já tinha havido um teste. Esse teste tinha corrido mal, tinha acontecido muito daquilo que veio a acontecer este ano. E, no entanto O sistema foi posto em marcha de uma forma universal para o 12º ano. Onde é que acha que houve aqui falhas e quem é que acha que é responsável?
Nós na altura dissemos, quando soubemos que a correção ia ser feita por este modelo, dissemos que o ministro tinha sido corajoso. E ao mesmo tempo dissemos que era um passo arriscado. Eu diria arriscadíssimo. Isso é público, dissemos antes do processo começar. Na verdade, é um risco que ele correu, com certeza, ele é que manda, ele correu esse risco. E na verdade, se fosse hoje, eu tenho a certeza que o ministro da Educação iria fazer esta situação de outro modo, por exemplo, modo faseado, não entrar em todas as disciplinas de exame a serem corrigidas da forma que foram, uma forma faseada seria mais prudente. Não foi essa opção, agora com certeza que o risco foi elevado e ele está a assumir estes riscos e na verdade, eu acho que se fosse hoje, isto não estaria a acontecer, porque se ele soubesse aquilo que sabe hoje, teria outro tipo de estratégia que não esta, porque deu no que deu. Aliás, o ministro da Educação, apesar disso, apesar daquilo que eu acabo de dizer, ele insiste, é opção dele, com certeza. Nesta segunda fase, começa terça-feira, segunda fase dos exames nacionais de secundário, o ministro vai adotar a mesma estratégia. O que nós pedimos, e pedimos isso no sábado, na reunião que fizemos com ele, ao final do dia, pedimos é que tudo bem, a opção é do senhor ministro, mas tenha a plataforma 100% operacional.
E o ministro deu essas garantias ou não?
Sim, eu penso que se ele agora insiste pela terceira vez no mesmo modelo, no mesmo método, eu penso que a plataforma e o processo de digitalização estarão, de facto, a funcionar 100%. Tem que acontecer isso, porque senão o modelo tem que ir por água abaixo. O modelo já foi testado em Filosofia, foi testado agora neste ano na primeira fase. À terceira, se não funcionar, acabou. Mas lá está, é mais um risco, na minha opinião, que ele vai correr nos próximos dias.
Mas acha que, usando aquela metáfora que falou do carro de alta gama com equipamento de carro barato, digamos assim, acha que o que se passou aqui teve a ver com falta de investimento? Como é que encontra explicação para a plataforma não estar a funcionar como devia estar a funcionar, depois de já ter sido submetida no ano passado a um teste que não tinha corrido bem?
Eu acho que essa explicação terá que ser dada pelo ministro da Educação e também terá que ser facultada pela auditoria que ele disse que ia, de facto, no final do processo, ia fazer. Que o faça, que perceba o que é que se passou e que não repita este erro, porque erro atrás de erro é uma falha colossal. Agora, era preciso é que nós tivéssemos soluções, solucionássemos da melhor forma possível o que está a acontecer. Aliás, diga-se que ainda hoje, domingo, nós não temos ainda os ficheiros para as provas finais do nono ano. A imprensa não está a dar o devido destaque a este problema. São milhares de alunos do nono ano que fizeram provas finais a Matemática e a Português há cerca de um mês e nós não temos ainda os ficheiros para produzir as pautas respetivas. Também é preciso cuidado com este tipo de situação, porque estes alunos do nono ano também nos merecem toda a consideração. Portanto, há aqui um folhetim que eu gostaria que terminasse, que é o folhetim, a novela do ensino secundário, mas há outro que não está fechado ainda, que de facto são os ficheiros, os resultados, as classificações dos nossos alunos do nono ano.
E há algum prazo dado pelo ministério para resolver esse problema?
Eu penso que amanhã, segunda-feira, da parte da manhã, as escolas estarão na sua posse esses ficheiros. Eu penso que isso acontecerá. Aliás, houve aqui também uma grande falha de comunicação entre o Júri Nacional de Exames, entre o Ministério da Educação, entre o EDUCA e os seus diretores. Nós sexta-feira, quando afixamos as pautas, até às 19:30 nós não sabíamos o que é que estávamos à espera. Nós críamos estar à espera dos ficheiros. Não nos tinham dito nada. Depois das 19 horas é que nos enviaram os ficheiros, começaram a sair para as escolas depois das 19h30, colegas receberam às 20h, outros às 21h, e nós tivemos que fazer, com certeza, sem estar à espera, sem aviso prévio, sem qualquer espécie de comunicação, estivemos a fazer aquele trabalho de excelência que todos se aperceberam na sexta-feira até altas horas da madrugada, para na sexta-feira à noite nós conseguirmos ter, de facto, as pautas afixadas ou através do programa Inovar, em que os alunos, sobretudo aqueles que são de mais longe, para não virem de propósito às escolas, também tiveram conhecimento das suas classificações.
O Partido Socialista disse este domingo que se calhar era a altura do ministro começar a pensar em eventualmente adiar os exames da segunda fase e, sobretudo, prolongar o calendário de candidaturas ao ensino superior. Parece-lhe que estas medidas podem atenuar o problema ou acha que não fazem muito sentido?
O que nós gostaríamos é que os prazos fossem cumpridos. O que nós teríamos é que a situação do secundário, o dossiê, a novela do secundário terminasse. Isso nós gostaríamos, com a substituição da palavra suspenso por um algarismo. Isso nós gostaríamos Que fizessem chegar às escolas rapidamente os resultados do nono ano. Depois, com certeza, quem decide é o ministro, entendo a posição do Partido Socialista e de outras pessoas que acham que o acesso ao ensino superior devia ser prolongado, que a segunda fase devia ser adiada para o secundário, mas isso terá que ser, de facto, decidido. Nós nas escolas fazemos tudo. Eu quero aqui tirar o chapéu aos 811 diretores, que são figuras das quais raramente se fala, que fizeram neste fim de semana, como fazem todo o ano, um trabalho fantástico com os seus secretariados de exame, com os funcionários das secretarias. De facto, colocámos os alunos a saberem a tempo e horas as suas classificações. Alunos que estavam cheios de ansiedade, alunos que estiveram na escola todo o dia de sexta-feira. As escolas sexta-feira receberam telefonemas dos pais de todo lado a quererem saber quando é que as pautas seriam afixadas. Só que nós na altura, na sexta-feira, estávamos de pés e mãos atados para, na verdade, resolver o problema. E resolvemo-lo de facto à noite, em algumas situações de madrugada, abrindo as escolas ou enviando pela plataforma que nós temos de interação com os pais e com os alunos, o Inovar, enviámos as classificações aos nossos alunos, até para baixar um bocadinho os níveis, que estavam elevadíssimos, de ansiedade.
E esses níveis de ansiedade, agora só para terminar, já disse que prevê que possa haver mais pedidos de reapreciação das provas, porque se criou aqui uma espécie de ilusão que as provas podem não ter estado bem corrigidas. O que também já disse foi que acha que isso tem um risco, não é? Que os alunos podem achar que a prova está mal corrigida e, na verdade, até podem baixar a nota. O que é que acha que pode acontecer agora nos próximos dias?
O que nós achamos é que, na verdade, o número de provas a serem reapreciadas vai aumentar exponencialmente. Não tem a ver, na minha opinião, com o aparecimento inesperado da palavra suspenso. Não, tem a ver com o processo todo, como está para trás. E também com esta situação, que é anómala. Eu nunca vi uma pauta com uma palavra suspenso em vez de haver um algarismo. Eu nunca vi, não é normal. Mas estamos todos desconfiados deste processo. Este processo, de facto, correu muito mal. Estamos todos desconfiados. Eu peço aos pais que leiam a prova. É bom dizer que as escolas públicas já enviaram a maior parte delas os PDFs das provas digitais dos alunos com as classificações respetivas para os alunos, para os pais.
Para eles poderem avaliar, ler a sua prova e perceber como é que as coisas estão.
Isso mesmo, que avaliem e que depois, se acharem que devem usar o direito, que é um direito que existe há muitos anos, de reclamar, de pedir a reapreciação, que o façam. Vão pagar uma taxa de 25 €, a nota, com certeza, a classificação pode baixar, mas a expectativa não é essa, é de facto de aumentar a cotação dos alunos. Teremos que aguardar. Contudo, cada aluno per si, com o apoio também dos professores e dos pais, tomarão a melhor decisão.
E esperemos que, como disse, esta novela termine. Felinto Lima, muito obrigado.
Muito obrigado.
Eu conversei com o presidente da Associação de Diretores de Escolas, Felinto Lima. Gravámos esta conversa na tarde de domingo e já depois disso, o Instituto de Qualidade e Avaliação admitiu que algumas notas enviadas na sexta-feira às escolas estavam erradas, supostamente por causa de um problema na exportação dos ficheiros. O erro estará corrigido, entretanto, mas para quem queria o fim desta novela, digamos que a tensão se mantém neste início de semana em que o carrossel vai girar outra vez com a segunda fase dos exames, a começar já hoje. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
