O neurocirurgião que veio de Lisboa para perder a cabeça em Miami

O neurocirurgião que veio de Lisboa para perder a cabeça em Miami


Miguel Correia passa os dias a tratar de doenças do cérebro dos outros. É neurocirurgião no Hospital de São José, em Lisboa, uma profissão que exige pulso firme, nervos de aço e um silêncio sepulcral. Mas, por estes dias, o bisturi ficou na gaveta, o silêncio foi atropelado pelo batuque e o próprio Miguel decidiu… perder a cabeça.

Há dois dias, aterrou em Miami com um só objetivo: uma cirurgia de precisão ao coração da seleção de Cabo Verde, nas bancadas do Mundial 2026, mesmo a tempo do duelo com o Uruguai.

«Vim cá de propósito para acompanhar Cabo Verde. É um dois em um: ver os jogos e, ao mesmo tempo, visitar familiares que vivem aqui e que já não via há alguns anos», conta ao Maisfutebol.

Para a loucura ser possível, teve de meter férias. Uma semaninha de pausa na medicina para abraçar a paixão. Mas e se a magia continuar e Cabo Verde avançar na prova? Miguel solta uma gargalhada, com a responsabilidade a bater-lhe à porta.

«Aí vou continuar a apoiar, mas de Portugal. Aqui já não dá, já não dá. Só podia tirar uma semana de férias.»

O bloco operatório não espera para sempre.

Este cabo-verdiano, que andava acompanhado do tio e de primos, chegou a Miami na sexta-feira, o que significa que a estreia estrondosa de Cabo Verde no Mundial foi vivida à distância, mas com a mesma intensidade.

«O primeiro jogo foi espetacular, com toda a gente estava a torcer. Foi uma surpresa, mas mostrou o carisma, a humildade e a força da nossa população. E esta festa é outra prova disso, é uma festa em que as pessoas são todas simpáticas, bem-dispostas, sempre a dançar. É uma festa extraordinária.»

«Agora tudo o que vier a mais é lucro»

Para o neurocirurgião, a operação Mundial 2026 já é um sucesso absoluto, independentemente do que acontecer frente ao Uruguai. O paciente está de perfeita saúde e recomenda-se.

«Cabo Verde ter conseguido apurar-se para este Campeonato do Mundo já foi um grande feito. Apenas a participação e a presença já são uma grande vitória. Tudo o que vier, tudo o que for conquistado nestes dias, vem por acréscimo.»

Ainda assim, quando a bola rolar frente aos uruguaios, o coração habituado a saber controlar-se vai dar lugar à emoção do adepto?

«Acho que quem conseguir ir ao estádio vai apoiar a 200 por cento a seleção. Temos de estar com a mentalidade aberta e confiar no esforço da nossa equipa para conseguirmos um bom resultado.»

Miguel Correia despede-se para ir para a festa. Simpático, bem-falante, afável, está ali pelo amor ao país natal e pela vontade de viver esta loucura em comunidade.

Em Miami, o Dr. Miguel está entregue à loucura. E, para esta doença, ninguém quer a cura.



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