O crânio de 83 centímetros encontrado no deserto que virou um dos maiores mistérios entre os mamíferos extintos
Um crânio colossal surgiu entre rochas do deserto de Gobi sem mandíbula, patas, coluna ou qualquer pista clara sobre o formato do restante do corpo. Mesmo assim, ele foi suficiente para criar um dos animais mais famosos e difíceis de reconstruir da Era dos Mamíferos.
Onde um crânio tão grande foi encontrado?
A descoberta ocorreu em 1923, durante uma expedição do Museu Americano de História Natural à região de Irdin Manha, na Mongólia Interior, atualmente parte da China. O fóssil foi localizado pelo assistente de paleontologia Kan Chuen Pao, que encontrou um crânio quase completo em rochas formadas durante o Eoceno, dezenas de milhões de anos depois do desaparecimento dos dinossauros não aviários.
O exemplar chegou a Nova York e foi descrito em 1924 pelo paleontólogo Henry Fairfield Osborn. A espécie recebeu o nome Andrewsarchus mongoliensis em homenagem a Roy Chapman Andrews, líder da expedição. O crânio original permanece como a principal referência do animal e pode ser conhecido por meio do American Museum of Natural History.
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O fóssil possui aproximadamente 83,4 centímetros de comprimento e chama atenção pelo focinho extremamente alongado. Na região dos arcos zigomáticos, que formam as laterais do crânio, a largura chega a cerca de 56 centímetros. Os dentes preservados incluem estruturas capazes de perfurar e outras com superfícies mais adequadas para esmagar materiais resistentes.
- Comprimento do crânio: 83,4 centímetros
- Largura máxima: Cerca de 56 centímetros
- Descoberta: 1923
- Descrição científica: 1924
- Época: Eoceno
- Principal fóssil conhecido: Crânio sem a mandíbula inferior
O vídeo apresenta o enorme crânio fossilizado e mostra como diferentes comparações anatômicas produziram reconstruções muito distintas do corpo. As imagens ajudam a entender por que um mesmo conjunto de dentes e ossos já originou versões semelhantes a lobos, porcos gigantes e outros mamíferos de cascos:
Como um único fóssil virou um animal inteiro?
Quando Osborn descreveu o material, ele comparou o crânio com o de Mesonyx, um mamífero extinto de aparência aproximadamente semelhante à de um predador de pernas longas. A partir dessa proporção, surgiu uma reconstrução com cerca de 3,8 metros de comprimento e quase 1,9 metro de altura nos ombros. Essa imagem transformou o animal em candidato ao título de maior mamífero carnívoro terrestre conhecido.
O problema é que a projeção dependia da suposição de que os dois animais possuíam corpos proporcionais. Se o dono do crânio tivesse tronco mais robusto, pernas mais curtas ou pescoço diferente, todo o cálculo mudaria. Como não foram encontrados membros completos, vértebras associadas ou uma pelve confirmada para o exemplar principal, muitas ilustrações mostram mais sobre a comparação escolhida pelo artista do que sobre o corpo real.
Por que o tamanho de Andrewsarchus continua incerto?
O comprimento do crânio pode ser medido diretamente, mas massa, altura e comprimento corporal precisam ser estimados por comparação. Durante muito tempo, os mesoniquídeos foram usados como modelo. Revisões posteriores apontaram semelhanças com os entelodontes, mamíferos de corpo pesado, cabeça grande e proporções muito diferentes das reconstruções semelhantes a um lobo.
Por isso, números como uma tonelada, quatro metros de comprimento ou dois metros de altura devem ser tratados como reconstruções históricas, não como medidas obtidas do esqueleto. O animal certamente era grande, mas não existe material suficiente para colocá-lo com precisão ao lado de ursos, rinocerontes ou outros mamíferos gigantes em uma comparação definitiva.
O que os dentes revelam sobre sua alimentação?
As primeiras reconstruções apresentavam um superpredador especializado em perseguir e matar grandes presas. O crânio realmente possui caninos e incisivos impressionantes, mas os dentes posteriores não têm o mesmo formato cortante visto em felinos e outros hipercarnívoros. Suas coroas arredondadas e enrugadas parecem mais apropriadas para esmagar do que para fatiar carne.
Isso abriu espaço para uma alimentação mais variada. O animal poderia consumir carcaças, quebrar ossos, capturar vertebrados menores e complementar a dieta com plantas ou outros recursos disponíveis. O desgaste dos dentes indica uso intenso, mas não permite reconstruir um cardápio completo. A fama de caçador gigantesco permanece possível, embora a imagem de um onívoro oportunista seja considerada mais compatível com seus prováveis parentes.

Por que Andrewsarchus ainda muda de lugar na árvore evolutiva?
Na descrição original, ele foi classificado como um mesoniquídeo, grupo de mamíferos com cascos que incluía formas predadoras. Mais tarde, esses animais chegaram a ser associados à origem das baleias, fazendo surgir a imagem de um enorme parente terrestre dos cetáceos. Novas análises separaram os mesoniquídeos das baleias e aproximaram o enigmático crânio de outro conjunto de artiodáctilos.
Uma análise filogenética publicada em 2023 recuperou o animal próximo dos entelodontes, os chamados “porcos do inferno”, embora eles não fossem porcos verdadeiros. Essa posição ainda não encerra o debate: dentes gastos, partes danificadas e regiões importantes do ouvido ausentes ou cobertas por restaurações antigas limitam as comparações. Um novo maxilar, membro ou esqueleto associado poderia modificar novamente tanto sua aparência quanto sua história evolutiva.
