Nunes Marques propõe selo de qualidade a institutos por acertos
Brasília, 14 – O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um “selo de acurácia” para institutos de pesquisa, que seria destinado às empresas com maior taxa de acerto dos resultados nas eleições. A proposta foi apresentada ontem em reunião com diretores de 19 institutos e gerou forte reação dos institutos de pesquisa.
Segundo a minuta de portaria à qual o Estadão/Broadcast teve acesso, o selo seria entregue após o segundo turno das eleições em data a ser definida. A avaliação, pela proposta, vai considerar somente pesquisas realizadas nos sete dias que antecedem o pleito e no dia das eleições (boca de urna) que forem efetivamente divulgadas. O texto também afirma que estarão excluídos da premiação empresas que tiverem sido condenadas por irregularidades graves.
Segundo participantes do encontro, os institutos levaram preocupações sobre o recorte temporal para a avaliação. “A pesquisa é uma foto do momento eleitoral. É difícil falarmos em acerto de uma pesquisa, por exemplo, se não considerarmos a relevância do tempo. Hoje, um candidato está atrás e não necessariamente ele vai terminar na frente ou vai terminar atrás É importante que isso seja levado em consideração, se esse selo for adiante, de que quem fizer uma pesquisa mais próxima do pleito tende a acertar”, afirmou a jornalistas o diretor-executivo da Real Time Big Data, Lucas Thut Sahd.
“Essa foi uma primeira proposta que o presidente Kassio colocou para ser discutida, não foi uma imposição, não foi algo concreto, mas foi uma minuta para que a gente possa discutir”, disse o diretor de Análise Política da AtlasIntel, Yuri Sanches
A reunião foi convocada por Nunes Marques após ele suspender, em junho, uma pesquisa da AtlasIntel por suspeita de induzimento do eleitor. O julgamento foi paralisado por pedido de vista da ministra Estela Aranha.
Na ocasião, os ministros afirmaram que a análise não vai se restringir ao caso da Atlas e vai definir um precedente que deverá ser seguido por todos os tribunais regionais eleitorais (TREs).
Segundo diretores de institutos que estavam na reunião, ainda não houve nenhuma deliberação sobre os principais motivos que levaram à suspensão da pesquisa AtlasIntel – como a ordem das perguntas e a apresentação de vídeos aos entrevistados.
‘EQUÍVOCO’
A proposta foi recebida com indignação por grandes empresas do setor. Para elas, a iniciativa parte de uma premissa equivocada ao considerar que pesquisas eleitorais fazem previsões.
O Selo será concedido em anos de eleições gerais e contemplará pesquisas para presidente e governador. A proposta é que a avaliação considere apenas levantamentos de boca de urna e pesquisas realizadas nos sete dias que antecedem o pleito. Elas devem obrigatoriamente constar no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) e ter sido divulgadas ao público
Pessoas que estavam presentes na reunião afirmaram crer que a proposta foi apresentada como uma tentativa de o ministro se reaproximar dos institutos de pesquisa após o desgaste provocado pelo caso Atlas. No entanto, o gesto acabou sendo considerado um “tiro no pé”, já que Nunes Marques teria demonstrado um conhecimento limitado sobre pesquisas eleitorais.
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa criticou a proposta do presidente do TSE. “Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa “acerte” o resultado é confundir ciência com bola de cristal,” afirmou a entidade.
Para a associação, a proposta cria um “incentivo perverso” e pode ser usada de forma oportunista por institutos sem rigor metodológico, que poderão simplesmente acompanhar as pesquisas de institutos sérios e, na reta final da campanha, ajustar seus números para convergir ao consenso.
“Causa especial preocupação que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de árbitro da qualidade das pesquisas a partir de um critério tecnicamente equivocado. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas – não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada.”
‘NÃO É PREDITIVO’
Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, disse ao Estadão que a medida não contribui para aumentar a transparência dos levantamentos eleitorais e pode ainda desestimular a divulgação de pesquisas na reta final da eleição
“Pesquisa não é um modelo preditivo, é um retrato do momento. Não dá para comparar um levantamento feito cinco dias antes da eleição com outro realizado na véspera. Essa comparação é impossível. E, mesmo que fosse feita, como considerar a margem de erro, que é um aspecto altamente técnico? Não me parece uma boa saída. Acho que isso pode desestimular os institutos a registrar pesquisas nos últimos sete dias de campanha, porque eles ficariam sujeitos a uma métrica bastante inadequada”, afirma.
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, avalia que a proposta do presidente do TSE revela um equívoco sobre a própria natureza das pesquisas eleitorais. “Pesquisas são estimativas estatísticas, sujeitas a margem de erro, diferentes metodologias, momentos distintos de coleta e mudanças no comportamento do eleitorado. Não faz sentido reduzi-las a um ranking baseado apenas na proximidade com o resultado final, como se fosse possível medir sua qualidade exclusivamente por esse critério”, afirmou.
Já o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, seguiu linha diversa. Ele disse em publicação no X que é a favor da proposta. “AtlasIntel apoia a iniciativa do Ministro Nunes Marques para a criação do selo de qualidade de pesquisas a partir de critérios objetivos de precisão. Estamos à disposição para contribuir na discussão metodológica, a partir de iniciativas semelhantes a nível internacional.”
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