Nobel de Economia relativiza efeito da IA no emprego

Nobel de Economia relativiza efeito da IA no emprego


O economista britânico-cipriota Christopher Pissarides, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2010, afirma que o avanço da inteligência artificial ainda não provocou o colapso do mercado de trabalho anunciado por parte dos analistas.

A afirmação foi feita durante palestra na 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, evento que se estende até sábado, dia 18.

Setores em transformação

Segundo o Nobel, os episódios de corte de vagas associados à tecnologia, embora amplamente divulgados, têm peso reduzido quando comparados ao conjunto da economia global. Ele citou o setor de tecnologia como principal fonte desses casos, mas ponderou que o cenário muda quando se observa a totalidade do mercado de trabalho.

Há alguns poucos exemplos de aumento de desemprego que ganham toda a publicidade, especialmente nas empresas de tecnologia, que envolvem realmente milhares de trabalhadores. Mas se você olhar para o quadro geral da macroeconomia, essas coisas são muito, muito pequenas”, disse Pissarides à Agência Brasil.

O economista apontou que áreas como construção civil registram expansão na procura por mão de obra, além do surgimento de funções ligadas a segurança, manutenção, robótica e análise de dados.

Concentração de recursos e desigualdade

Uma pesquisa conduzida por Pissarides indica que profissionais que atuam diretamente com tecnologia enfrentam maior necessidade de requalificação ao longo da carreira, com base na análise da probabilidade de um trabalhador precisar de novo treinamento após oito anos na mesma função. Já ocupações ligadas à educação e à saúde, como docentes e enfermeiros, mostraram poucas alterações nas competências exigidas no mesmo período.

O economista também chamou atenção para a distribuição geográfica dos investimentos em inteligência artificial. Conforme levantamentos citados por ele, aproximadamente 60% dos recursos do setor se concentram em grandes centros urbanos, com destaque para o eixo formado por Londres, Oxford e Cambridge, no Reino Unido, o que amplia disparidades regionais.

Sobre profissões menos expostas à substituição por máquinas, como enfermagem e hotelaria, Pissarides afirmou que o desafio passa pela remuneração, já que esses trabalhadores não conseguem demonstrar ganhos de produtividade e dependem, em muitos casos, de recursos públicos.

O maior desafio com esses setores é como garantir que eles sejam bem pagos, dado que eles não conseguem mostrar ganho de produtividade. Como um enfermeiro trabalhando em um hospital movimentado pode melhorar sua produtividade? Portanto, eles têm que depender de dinheiro do governo. E se o governo não tiver dinheiro, eles não serão pagos, o que é a coisa mais triste”, afirmou.

Para lidar com as mudanças no mercado, Pissarides defendeu um modelo educacional voltado à capacidade de adaptação dos estudantes, em vez da formação precoce de especialistas, combinando ciências exatas e humanidades.





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