Muito além dos drones: como os presidenciáveis pretendem enfrentar a violência contra as mulheres

Muito além dos drones: como os presidenciáveis pretendem enfrentar a violência contra as mulheres


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Quando Augusto Cury apresentou, em rede nacional, a proposta de usar um aplicativo com botão de alerta e drones para auxiliar o socorro a mulheres ameaçadas ou vítimas de violência, a ideia rapidamente virou meme. A reação é compreensível, porque há algo quase distópico na imagem de uma mulher acuada dentro de casa esperando que um drone chegue antes da polícia, acione uma sirene e ajude a localizar o agressor. O problema, no entanto, é sério demais para terminar na piada, sobretudo porque a proposta expõe uma pergunta que deveria orientar o debate eleitoral sobre violência de gênero: em que momento o Estado pretende encontrar essa mulher?

A tecnologia pode ser útil para reduzir o tempo de resposta em uma emergência, assim como botões de pânico, geolocalização, tornozeleiras eletrônicas e sistemas de monitoramento podem salvar vidas. O absurdo não está em utilizar tecnologia, mas em permitir que ela seja apresentada como símbolo de uma política de enfrentamento ao feminicídio sem discutir com a mesma intensidade tudo o que deveria ter acontecido antes daquele pedido desesperado de socorro. Quando uma mulher precisa apertar um botão porque acredita que pode morrer, a prevenção já falhou em muitas etapas.

Essa discussão importa especialmente em uma eleição na qual a segurança pública ocupa o centro das preocupações do eleitorado. Pesquisa Nexus/BTG divulgada no fim de agosto mostrou que 35% dos entrevistados citaram segurança pública, violência ou criminalidade entre os dois principais problemas do país. Esse dado não trata especificamente da violência contra a mulher, mas ajuda a explicar por que o tema passou a ocupar espaço tão relevante nos discursos e programas presidenciais. Da esquerda à direita, tornou-se praticamente impossível disputar a Presidência da República sem dizer o que se pretende fazer diante da violência doméstica e do feminicídio.

Isso, por si só, é um avanço. Durante muito tempo, a violência praticada dentro de casa foi tratada como assunto privado, conflito conjugal ou problema de polícia apenas quando já havia agressão grave. Hoje, os principais candidatos reconhecem, em graus diferentes, que o Estado precisa agir. O que seus programas revelam, entretanto, são concepções bastante distintas sobre o significado dessa atuação. Há propostas que concentram maior energia na reação ao risco já instalado, outras que ampliam a rede de proteção e algumas que relacionam a violência à dependência econômica, ao trabalho de cuidado, à desigualdade e ao próprio machismo.

O plano de Augusto Cury, portanto, não se resume aos drones. Seu programa dedica um capítulo à proteção das mulheres e prevê o Programa Mulheres Vivas, que combina tecnologia, forças de segurança, atendimento psicológico, assistência jurídica e proteção social. Há previsão de acompanhamento preventivo de mulheres consideradas em situação de risco, integração com os Juizados de Violência Doméstica e Familiar, mecanismos de alerta com geolocalização e iniciativas voltadas à independência financeira. O documento também menciona saúde mental e educação emocional nas escolas. É justamente por isso que a ênfase pública dada aos drones merece ser questionada: ela desloca para a emergência uma pauta que o próprio programa reconhece ser muito mais ampla.

Luiz Inácio Lula da Silva apresenta uma abordagem fortemente vinculada à continuidade e à ampliação de políticas públicas já existentes. Seu programa prevê a manutenção do Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio, a expansão da rede de proteção, a conclusão de Casas da Mulher Brasileira e Centros de Referência, o aumento das Salas Lilás, o aprimoramento do monitoramento de agressores e a capacitação das forças de segurança. A proposta também relaciona o enfrentamento da violência à autonomia econômica, à política de cuidados, à qualificação profissional e à atenção psicossocial das vítimas. É uma leitura que ultrapassa a resposta policial, embora, para quem já ocupa o governo, a pergunta inevitável seja menos sobre o desenho da política e mais sobre sua capacidade de chegar efetivamente à mulher que procura proteção.

Flávio Bolsonaro também dedica uma parte específica do programa às mulheres, sob o título Brasil por Elas, e propõe uma Central da Mulher reunindo atendimento jurídico e psicológico, saúde preventiva, capacitação profissional, encaminhamento ao emprego, empreendedorismo e acesso a benefícios. Na segurança, prevê integração entre o Ligue 180, delegacias on-line, botões de emergência e centrais de monitoramento, além do uso ampliado de tornozeleiras eletrônicas para agressores considerados de maior risco e da expansão de espaços de acolhimento. Ao mesmo tempo, seu programa atribui peso expressivo ao endurecimento penal, com propostas como cumprimento integral de penas para assassinos e agressores de mulheres e castração química para determinados crimes sexuais.

A diferença de perspectiva aparece justamente aí. A punição do agressor é indispensável e a impunidade alimenta a violência, mas aumentar a resposta penal depois do crime não pode ser confundido com prevenção. Uma política pública séria precisa responder ao agressor e proteger a vítima, mas também precisa enfrentar as condições que fazem tantas mulheres permanecerem em relações violentas, reconhecer sinais de risco antes da escalada, garantir renda e moradia para quem precisa sair de casa e construir mecanismos para que o sistema de Justiça, a saúde, a assistência social e a segurança conversem entre si.

Ronaldo Caiado apresenta um dos programas mais detalhados nessa área. O plano propõe um Pacto Nacional pelo Fim do Feminicídio com metas, protocolos de avaliação de risco e integração entre União, estados e municípios, além de um sistema nacional de acompanhamento de medidas protetivas, monitoramento eletrônico de agressores de alto risco, botões de emergência, patrulhas especializadas e protocolos nacionais para investigação de feminicídios, estupros e outras formas de violência sexual. O aspecto mais relevante, porém, é que a proteção econômica aparece expressamente como parte da política de enfrentamento: há previsão de renda temporária, aluguel, acesso a creche, qualificação profissional, trabalho e crédito prioritário para mulheres sob medida protetiva e seus dependentes.

Esse ponto precisa ocupar o centro de qualquer debate sério sobre violência doméstica, porque romper uma relação abusiva não é apenas uma decisão emocional. Muitas mulheres precisam calcular onde irão morar, como alimentarão os filhos, quem cuidará das crianças enquanto trabalham e como sobreviverão sem a renda que antes era compartilhada ou controlada pelo agressor. Uma política que manda a mulher ir embora sem oferecer condições materiais para que ela possa permanecer longe da violência transfere para a vítima a responsabilidade por uma saída que deveria ser sustentada pelo Estado e pela sociedade.

Romeu Zema concentra suas propostas principalmente na estrutura de segurança e atendimento. Seu programa estabelece como objetivo reduzir a subnotificação e a reincidência da violência contra a mulher, propõe ampliar Delegacias da Mulher com funcionamento 24 horas e equipes capacitadas, fortalecer a integração entre saúde e segurança e expandir Patrulhas Maria da Penha, Salas Lilás, casas-abrigo e centros de referência. Trata-se de uma agenda importante para melhorar a porta de entrada do sistema e a proteção de quem já vive uma situação de violência, embora o programa desenvolva menos a prevenção cultural e a autonomia econômica como componentes específicos dessa política.

Quando colocamos essas propostas lado a lado, fica evidente que a divisão mais interessante não é simplesmente entre esquerda e direita. Todos esses candidatos, de campos políticos muito diferentes, reconhecem a violência contra a mulher como um problema que exige resposta pública. A diferença está naquilo que cada um entende como resposta. Em alguns programas, o centro é a polícia, o monitoramento, a tecnologia e a punição. Em outros, esses instrumentos aparecem combinados com assistência social, renda, cuidado, emprego, saúde mental e políticas destinadas a enfrentar desigualdades que tornam algumas mulheres ainda mais vulneráveis.

O critério que deveríamos utilizar para avaliar essas propostas, portanto, não pode ser quantas vezes um candidato pronuncia as palavras mulher, feminicídio ou medida protetiva. Precisamos perguntar se existe avaliação de risco, integração entre os serviços, orçamento, metas, acompanhamento das medidas protetivas, atendimento psicológico, moradia, renda, creche, qualificação profissional e mecanismos para responsabilizar o agressor antes que a violência escale. Precisamos perguntar também quem fala em educação e em transformação cultural, porque nenhuma quantidade de tornozeleiras será suficiente se continuarmos formando meninos que aprendem a confundir amor com posse, ciúme com cuidado e controle com direito.

Também precisamos olhar para quem constrói essas políticas. Nas eleições de 2026, as mulheres somam 83,8 milhões de eleitoras e representam 52,84% do eleitorado brasileiro. Somos maioria entre as pessoas que escolherão o próximo presidente, embora continuemos longe de ser maioria nos espaços em que as decisões políticas são tomadas. Há uma contradição evidente em um país que precisa desesperadamente discutir como proteger mulheres, mas ainda naturaliza que as estruturas de poder onde essa proteção é desenhada permaneçam predominantemente masculinas.

Isso significa que o voto das mulheres não pode ser tratado apenas como um segmento eleitoral a ser conquistado com slogans, fotografias de família ou promessas apresentadas poucas semanas antes da eleição. Mulheres elegem presidentes, governadores, senadores e parlamentares e têm todo o direito de exigir que seus programas sejam analisados também a partir daquilo que propõem para nossas vidas, nossa liberdade e nossa segurança. Se ainda não ocupamos os espaços de poder na proporção que deveríamos, podemos ao menos utilizar a força política do nosso voto para obrigar quem pretende ocupá-los a assumir compromissos concretos.

É por isso que a proposta dos drones de Augusto Cury é um bom ponto de partida, mas seria um péssimo ponto de chegada para essa discussão. O feminicídio não começa no momento em que uma mulher é atacada, e a política pública também não pode começar ali. Ela precisa existir quando surgem os primeiros sinais de controle e violência psicológica, quando a dependência econômica impede o rompimento, quando uma medida protetiva é concedida, quando um agressor descumpre uma ordem judicial, quando uma criança aprende o que é violência e quando uma sociedade decide quais comportamentos masculinos continuará tolerando.

Da esquerda à direita, os candidatos finalmente parecem ter entendido que precisam falar sobre violência contra a mulher. Agora cabe às mulheres perguntar de que violência eles estão falando, em que momento pretendem enfrentá-la e quais instrumentos concretos estão dispostos a colocar em prática. Porque quando o drone chega, quando a viatura chega, quando a ambulância chega, pode ser que o Estado já tenha chegado tarde demais. A política que realmente salva vidas é aquela capaz de chegar antes.




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